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Minha saúde mental, minha responsabilidade


Julho! Crianças sem escola [nem remota] e o friozinho do inverno por aqui.

Depois de 15 meses de pandemia no Brasil, todos nós sob tantas pressões, já não temos mais desculpas para postergar nada de essencial para “depois que tudo volte ao normal”.

Na última semana, enviei mensagem para os quase 4 mil colaboradores da everis, informando a todos que estava tirando férias e recomendando que cada um se programe para fazer o mesmo também. Férias são parte essencial no balanço da vida.

Seja porque todos precisamos de tempo de qualidade para o descanso [ diário, não apenas nas férias ], para ficar com tranquilidade com quem se ama, para enxergar novos cenários [ de forma real ou metafórica ] ou simplesmente exercitar o “ócio criativo”, que há décadas nos tenta ensinar Domênico De Masi. Parar é preciso, correr o tempo todo não é sustentável e, mais, é muito arriscado à saúde.

Muito se fala hoje sobre saúde mental no trabalho. Eu gosto de pensar na saúde no ambiente da empresa de forma mais ampla: mental, claro, mas não apenas mental. Física, emocional, espiritual e até mesmo financeira [alguém está realmente bem sem se sentir apropriadamente recompensado no trabalho?].

Gosto de pensar em minha auto-responsabilidade para endereçar toda essa lista, à frente de minhas responsabilidades como um CEO e, de alguma forma, exemplo na empresa.

Um artigo recente da Harvard Business Review trouxe reflexões sobre aspectos que podem levar ou evitar um burn out [expressão que infelizmente virou moda para a maioria dos home officers na pandemia].

Todas passam por escolhas pessoais [e intransferíveis!]. Aproveito esse espaço aqui para compartilhá-las com você, a fim de sugerir ações concretas para mudar o rumo das coisas.

1 – O alto volume de trabalho.   

Que tal aprender a priorizar, delegar e, mais importante, deixar o perfeccionismo de lado? Dizer um simples “não” pode fazer toda a diferença na vida.

2 – A falta de autonomia no dia-a-dia do trabalho.

Opa, combina com seu/sua chefe! Pré-acordo de alçadas de decisão e prioridades, discuta a real necessidade de recursos e as metas associadas a eles!

3 – A sensação de injustiça ou falta de reconhecimento. [aqui é fácil a gente se colocar numa posição de que não “há nada para fazer”].

Já pensou em falar isso para sua/seu gestora/ gestor? Pedir feedbacks? Relembrá-la/o do que foi acordado e efetivamente realizado? Isso pode ajudá-la/o a entender melhor o que está sendo feito e principalmente, por quem!

4 – Desmotivação por desalinhamento de valores.

Esse ponto aqui é mais desafiador mesmo, mas dedicar seu tempo de vida a um trabalho que não está alinhado aos seus valores pode ser bastante arriscado. Às vezes, é hora de agir para mudar mesmo. E a responsabilidade em fazer essa mudança deve ser sua!

A realidade é que, pela perspectiva de que é você o principal responsável por evitar um possível burn out, dá trabalho buscar não trabalhar tanto! É necessário enfrentar diretamente os principais pontos que prejudicam sua “tranquilidade” no trabalho.

Na saúde física, acrescento algumas questões importantes: como está a qualidade de seu sono? E sua alimentação? Como você todos os dias movimenta seu corpo? Ninguém aqui quer ser influencer fitness, claro, mas nossa vida depende da saúde de nossos corpos e também somos responsáveis por ela. Pequenas ações mudam a qualidade de cada um desses aspectos em nossas vidas. Foque em iniciar algumas delas com modestas metas, mas que busquem um progresso consistente. Há alguns anos uso um “tracker” que monitora sono, exercícios, batimentos etc. e me ajuda muito!

No âmbito do emocional dentro do trabalho, mais algumas perguntas: como seu trabalho dignifica sua existência? O que faz seus olhos brilharem ao contar o que você faz para um familiar ou amigo? Como está sua relação com a equipe em que você trabalha? Essas análises costumam justamente serem feitas quando você tem um período de descanso e guarda algum tempo para refletir.

Opa, voltamos ao início do texto: férias!!

No contexto financeiro, pessoalmente, segui dois conceitos em minha vida. Primeiro, viver num padrão abaixo do meu rendimento, poupando para o futuro [sem virar “escravo do dinheiro”]. Segundo considerei apenas oportunidades de carreira que, além de me permitirem continuar se desenvolvendo, a nova missão viabilizasse gerar mais valor do que fazia antes, pois com mais valor a recompensa sempre chega. Mas foi sempre nessa ordem: agregar e depois ser recompensado [nessa ou em outra empresa]. Se é para fazer a mesma coisa, apenas ganhando mais, tem algo errado na equação, fique atento!

Para mim, compartilhar o que sei com alguém é o que mais me mobiliza espiritualmente. Gosto de encorajar pessoas. Acredito no potencial humano de transformação, de inovação, de desenvolvimento. Sim, sou um entusiasta.

Ajudar ou influenciar o crescimento das pessoas de alguma forma é o que me dá mais prazer, e na prática o que me faz levantar da cama todos os dias com energia.

Uma inspiradora história chegou até a mim na semana passada. Um novo colaborador da everis contou sobre todo o esforço que fez para mudar de vida [era Uber com o carro alugado e quebrado, hoje já nosso contratado]. Muitos foram os desafios, como são para a maior parte dos brasileiros, infelizmente. Usou um primeiro “não” recebido como nova motivação para continuar buscando o “sim”. Com muita determinação resolveu com a rede de apoio familiar, apostar no estudo. Conquistou sua vaga e a possibilidade de começar uma nova vida. Sim, com direito a férias! 

Creio que só cheguei onde estou hoje chamando a responsabilidade sobre todos os aspectos de minha saúde para mim, e não delegando ao meu gestor, meu cliente ou à empresa onde trabalhava. Isso não quer dizer que em alguns momentos não tive que dar prioridade a missões críticas no trabalho, mas sempre tentando evitar um burn out, focando no equilíbrio de longo prazo.

Vale sempre lembrar que a vida é uma só, e profissão e vida pessoal são dois aspectos relativos a uma só pessoa: você!

Encorajo todos a assumir a responsabilidade pelas mudanças necessárias nas próprias vidas e na saúde, nosso bem mais valioso, incluindo um merecido descanso!

Sai de férias. E você, já agendou as suas?

Ricardo Neves é CEO da everis Brasil, consultoria multinacional de negócios e TI do Grupo NTT Data