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ESG: o tripé do mundo corporativo nesta década


ESG é um assunto muito sério. Envolve o destino da humanidade e um volume de dinheiro gigantesco, na casa dos trilhões de dólares. Aqui vão três números que podem ilustrar sua dimensão: US$ 1 trilhão (o patrimônio de fundos com viés ESG no mundo, segundo dados da Morningstar no segundo trimestre de 2020), US$ 4,3 trilhões (o patrimônio de 2030 em projeção da PwC, que prevê crescimento de 26,8% ao ano) e US$ 30 trilhões (a quantidade de ativos relacionados direta ou indiretamente com alguma estratégia sustentável, conforme a XP Investimentos).

Para abordar uma das pautas fundamentais do mundo corporativo nesta década, a revista HSM Management publicou um dossiê em sua última edição. Selecionamos os principais pontos para que você se sinta preparado para tratar do assunto e se adaptar às suas especificidades.

O que é ESG? – ESG é uma filosofia que busca infiltrar critérios ambientais (E, em inglês), sociais (S) e de governança corporativa (G) em avaliações e decisões de negócios. Essas questões são discutidas há mais de 20 anos entre especialistas, mas, nos últimos cinco anos, ganharam outros contornos.

Em 2020, a pandemia acelerou o interesse geral em ESG, na visão de Gabriela Reis, professora-convidada da Fundação Dom Cabral em impacto para negócios. Segundo ela, estamos testemunhando a evolução de um arquétipo de empresa que prioriza a geração de valor para o acionista para o arquétipo da organização que busca gerar valor para todos os envolvidos. Trata-se da evolução do capitalismo de shareholder para o capitalismo de stakeholder. “Gerar valor para mais gente aumenta a condição da empresa de superar crises, como a da pandemia, e isso deu força aos argumentos pró-ESG em todo o mundo”, explica Reis.

A interdependência é uma das lógicas que regem o ESG, segundo a qual tudo o que acontece com seu vizinho pode afetar você também. “A grande mudança é que os impactos passaram a ser vistos, a ponto de serem concretamente percebidos como um risco para os negócios”, afirma Denise Hills, diretora global de sustentabilidade da Natura. “Isso fez com que também o investidor não ativista começasse a puxar questões ambientais e sociais para dentro do parâmetro do risco e do advisory.”

É uma moda ou veio para ficar? – Um dos mais influentes economistas do Brasil, Armínio Fraga, acredita que o movimento global de ESG veio para ficar e tem grande potencial para mudar, de fato, a face do capitalismo. “Com o tempo, está ficando claro que as pessoas buscam mais do que um salário nas empresas; há sinais de que empresas que cuidam melhor dos colaboradores e de seu entorno geram mais retornos”, analisa o ex-presidente do Banco Central do Brasil e sócio fundador da Gávea Investimentos.

Entretanto, na visão de Armínio Fraga, o que estamos vendo acontecer é apenas o início de um longo caminho a percorrer, e mesmo as economias mais avançadas, mais adiantadas, ainda caminharão muito. Ele não arrisca um prazo para a mudança, porque requer transformações culturais, e essas são sempre desafiadoras. “Mas vejo a pressão para mudar vindo de dentro das empresas e também dos clientes”, acrescenta.

Da Natura, como uma das empresas que já entendeu e abraçou a sustentabilidade, vem o exemplo da mentalidade que sustenta essa mudança. “No futuro, empresas que não gerirem seus impactos onde atuam não farão parte da sociedade local, nem serão escolhidas pelos investidores”, diz Hills.

Compreendendo o ESG – Vamos tentar explicar isso por meio de quatro palavras-chave: risco, governança, tecnologia e objetivos.

1) Risco
ESG é uma ferramenta para analisar o risco de destruição de valor de uma empresa”, afirma o investidor em cleantechs, Carlos de Mathias Martins. Assim, investidores não começam a pensar em ESG para obter ganhos, mas para evitar perdas.

2) Governança
No meu entendimento, é o G que está fazendo a diferença no ESG. Percebeu-se finalmente que as ações relativas a questões socioambientais não têm efetividade se não houver governança, por melhores que sejam as intenções dos respectivos gestores. É coletando dados dentro e fora da empresa, com os stakeholders, analisando-os e decidindo a partir deles que se consegue efetividade”, observa Claudinei Elias, fundador e CEO da Bravo GRC, especialista que lida com o assunto diariamente há décadas.

3) Tecnologia
As tecnologias da revolução 4.0 são fundamentais para analisarmos risco. Computadores mais potentes conseguem simular risco ambiental mais rapidamente. As mídias sociais são um banco de dados gigante para políticas sociais”, afirma Martins. “Antes de termos tecnologias como data analytics e inteligência artificial, a governança era difícil, sujeita a falhas; hoje ficou possível fazer os controles e apoiar as decisões como se deve”, diz Elias.

4) Objetivos
Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, conhecidos como ODS (ou SDG, em inglês), deram às empresas não só uma linguagem de impacto comum, como uma que lhes é familiar: a das metas. “Isso faz com que acabem direcionando suas ações de ESG pelos ODS”, afirma Reis. Como VP do Pacto Global no Brasil, Denise Hills afirma que os ODS funcionam como uma “to-do list” da humanidade. “Eu quase digo que os ODS serão os novos ESG.” Por causa das metas, há quem batize os anos 2020 como “a década da entrega”.

Os 17 ODS:

  1. Erradicação da pobreza
  2. Fome zero e agricultura sustentável
  3. Saúde e bem-estar
  4. Educação de qualidade
  5. Igualdade de gênero
  6. Água potável e saneamento
  7. Energia acessível e limpa
  8. Trabalho decente e crescimento econômico
  9. Indústria, inovação e infraestrutura
  10. Redução das desigualdades
  11. Cidades e comunidades sustentáveis
  12. Consumo e produção responsáveis
  13. Ação contra a mudança global do clima
  14. Vida na água
  15. Vida terrestre
  16. Paz, justiça e instituições eficazes
  17. Parcerias e meios de implementação

Vale ainda frisar que a natureza de ESG ainda é mal compreendida no mercado: ESG é uma cultura. Jamais um produto. “ESG não é produto, ESG é filosofia. Eu pensaria duas vezes antes de investir com uma gestora de fundos que separasse, no portfólio, produtos com e sem selo ESG”, afirma Fabio Alperowitch, da Fama Investimentos.

Organização, cultura e práticas ESG – Muitos movimentos empresariais, quaisquer que sejam seus objetivos, são percebidos pelo público como feitos de fora para dentro. Tem-se a impressão de que a empresa lança primeiro a estratégia no mercado, para sentir a receptividade, e só depois se compromete a implementá-la dentro de casa, em profundidade. Com protótipos de produtos, isso faz total sentido. Mas, com iniciativas ESG, o “teste” costuma ricochetear. Sem ver ações concretas, as pessoas já decretam: “é marketing”.

Para inverter a direção, agindo de dentro para fora, é necessário ter uma organização de ESG específica e bem ativa, e alguma cultura ESG. Isso aumenta as chances de sucesso de uma estratégia e sua credibilidade externa. Tudo começa, portanto, com uma área de sustentabilidade na empresa. Se já existir uma, você não precisa mudar o nome para ESG. Talvez seja uma equipe atrelada a uma diretoria de relações institucionais (RI) ou compliance. Ou até a uma vice-presidência. Mas aqui há um ponto de atenção: se a palavra “sustentabilidade” não aparecer no nome da tal diretoria, ou vice-presidência, isso será interpretado pelos stakeholders como sinal de que a empresa não considera o tema relevante.

Estrutura – Não há um tamanho ideal para o departamento de sustentabilidade; depende do porte da empresa e do setor em que atua. Na Natura global, por exemplo, Hills tem 16 reportes e 150 pessoas no total. “Mas é ideal que a área seja institucional e que se reporte a um executivo com real poder de decisão, como o CEO ou o vice-presidente de RI e sustentabilidade. Eu, por exemplo, me reportava ao presidente na B3”, diz a especialista em sustentabilidade, Sonia Favaretto.

A razão para essa linha de reporte é que o ESG tem de criar coisas que ainda não existem. Outro ponto crucial no desenho da estrutura é permitir que seus membros influenciem a empresa inteira, sem muros nem silos.

Esse departamento requer, obrigatoriamente, um líder 100% dedicado ao assunto, uma equipe diversa, métricas e orientação a dados, e orçamento, porque há muitos investimentos a fazer quando se conduz um esforço de gestão de mudança de médio e longo prazo.

O ideal é que o departamento de sustentabilidade tenha metas de desempenho claras, coletivas e individuais. E que os indicadores de monitoramento dessas metas sempre subam para o conselho de administração ou conselho consultivo, nas empresas que têm essa instância. Na Natura, acontece assim. “Integramos os indicadores, e os conselhos de administração e consultivo gerenciam as metas de acordo com nossa Visão 2030. Fazemos isso regularmente, como fazemos com as metas de Ebitda, investimentos etc.”, diz Denise Hills.

Cultura – ESG é uma agenda transversal, que perpassa todos os departamentos. Então, para a agenda ser efetiva, o ESG tem de se tornar uma cultura da empresa inteira. Para estar condicionando as decisões sem ninguém precisar pedir – ou supervisionar.

Uma organização em que ESG faz parte da cultura há tempos é a Natura, uma das companhias mais sustentáveis do mundo pelo ranking Global 100 da Corporate Knights e a maior certificada do sistema B. “Aqui não se cria nada primeiro para ver depois o impacto que terá; é o contrário”, diz Hills. “Todas as práticas e a lógica de sustentabilidade estão dentro do processo de decisão.

E isso vale também para as metas da empresa. A meta da redução do nível de carbono que a Natura emite, por exemplo, é gerenciada por toda a companhia (pelas quatro marcas, na verdade – Natura, Avon, The Body Shop e Aesop). Quem vai decidir sobre distribuir um produto por avião, sobre usar uma embalagem reciclável ou sobre comercializar um produto num certo país sempre pondera antes sobre a emissão de carbono associada.

Pessoas – Toda contratação para uma posição relacionada a ESG em empresas de maior porte ganha holofotes, como ocorreu quando a XP Investimentos contratou sua primeira head de “sustainable wealth”. A escolhida, Marina Cançado, fez carreira atuando com investimentos de impacto e com famílias empresárias – aliás, uma das apostas do setor é que herdeiros de empresas sejam grandes vetores de investimentos ESG em 2030.

Mas qual é o melhor perfil do líder de uma área de sustentabilidade na era ESG? “A pessoa deve ter principalmente empatia, já que vive fazendo trocas com diferentes públicos, devendo gerar resultados para todos”, observa Gabriela Reis. “E precisa ainda gostar de proximidade nas relações e ser capaz de gerenciar conflitos e negociar”, completa ela. De outro lado, o líder deve ter uma visão ampliada do que são dados. Ele consome pesquisas e análises do tipo big data, mas não se restringe a isso. “Se há um projeto numa comunidade, ele tem que ir conversar com as pessoas dali para entender o que consideram valor”, afirma Reis.

Conversas que geram dados, “small data” – Outras habilidades relevantes listadas pelos entrevistados são visão sistêmica, viés de inovação, disposição para (re)educar em ESG o maior número de pessoas possível e resiliência. “É preciso educar as pessoas, dentro e fora da empresa, para mudar modelos de negócio, de pensamento, de produção e de consumo. Sempre falo que ninguém vai dormir com conceitos tradicionais de gestão e acorda sustentável”, diz Favaretto. E como não se faz uma mudança da magnitude da cultura ESG do dia para a noite, conforme Favaretto enfatiza, o líder precisa saber lidar bem com frustrações. Dificilmente haverá um modelo que opere 100% sustentável, inclusive. E a equipe de modo geral? Millennials e jovens da geração Z serão os primeiros a fazer fila, mas devem ter expertise técnica. A área, que costumava ser tachada de reduto de ambientalistas, agora é mais diversificada. Em formação, no entanto, o perfil sempre foi diverso e continua a sê-lo. Os entrevistados veem nela gente de relações internacionais, comunicação, biologia, economia, engenharia, administração…

Preocupar-se com o futuro faz diferença, mas ter um propósito de vida, nem tanto. Uma especialização ou pós em sustentabilidade tende a contar mais pontos para o departamento de sustentabilidade, bem como a sintonia com os grandes movimentos socioambientais mundiais e o conhecimento sobre riscos.

Comunicação – Já dissemos que há um código comum nessa nova área de sustentabilidade, baseado nos ODS. Mas, na comunicação da área, interna como externa, há pontos que distinguem as melhores empresas em ESG das demais. Por exemplo, as melhores são aquelas que superam a linguagem dos trade-offs. Falar em abrir mão de algo, especialmente se esse algo for lucro, é ruim, porque afasta os executivos mais pragmáticos da área. “Sustentabilidade é sobre colocar tudo junto: o econômico, ambiental e social”, reforça Favaretto.

As melhores empresas também sabem conjugar o verbo “mudar” na comunicação. Alessandra Cardoso enfatiza isso: “Umas empresas só terão que excluir práticas ruins, outras vão ter que repensar todo o negócio para não morrer, mas o que todas terão de fazer são mudanças”, diz ela. Um terceiro diferencial de comunicação é saber lidar com ESG em tempos de redes sociais. Nada simples, mas fundamental.

 

 

 

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