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– Topa um café?

Claro que sim, eu sempre topo, mesmo e sobretudo com pessoas que ainda não conheço. Foi assim que conheci muita gente bacana, é assim que aprendo sobre mundos fora da minha caixinha e foi assim, inclusive, que conheci o Benjamin, fundador da BRQ, e o papo foi tão bom que eis-me aqui na BRQ em excelente companhia.

Pois bem, não só topei o café como propus um almoço e lá fomos nós centro de São Paulo adentro almoçar no Piero, um clássico paulistano (#ficadica). Conversa vai, sobremesa vem (não resisti, o pudim do Piero é covardia) e saí de lá prenhe de histórias, grávido de ideias, saí de lá mais rico.

Uma dessas histórias não me sai da cabeça: gringos queriam ouvir sobre marketing na América Latina em tempos de crise. Para gringos uma pauta assim faz todo sentido, sobretudo porque na cabeça deles (e só na cabeça deles) existe alguma coisa homogênea chamada América Latina e que crise aqui para nosotros é algo inusitado.

Nem vou comentar sobre essa abstração fantasiosa de que América Latina seja uma coisa só, isso fica para outro artigo ou outro articulista melhor do que eu. O que realmente rendeu boas risadas regadas a azeite e molho al sugo foi a constatação de que a nossa geração cresceu numa crise atrás da outra. Crise por aqui é o default, é o modus operandi, é o baseline. Crise aqui é o nosso lifestyle. Quando Cabral gritou terra à vista não reconheceu a areia movediça, achou que ia desembarcar em terra firme.

Essa inocência gringa é invejável. Quem cresceu num mundo regrado, previsível, racional, estável não tem ideia do que é viver no gerúndio, no subjuntivo, sem jamais conjugar no futuro com algum nível de certeza. Dias depois ouvi de colegas a expressão VUCA. Fiquei intrigado, imaginei que fosse mais uma dessas gírias que pipocam toda hora e que aos cinquenta e quatro não dá mais para acompanhar. Perguntei o que era, me explicaram: VUCA é um buzzword popularíssimo que significa Volatile, Uncertain, Complex e Ambiguous, e VUCA é pronunciado com reverência quase religiosa como um retrato fiel dos tempos modernos.

Não resisti. Eu sei, não deveria ter me metido, não deveria ter dado pitaco mas dei. O que eu disse? Acho que foi algo assim: só se inquieta com o tal do VUCA quem não sabe o que é… muvuca. O mundo sempre foi volátil, o futuro sempre foi incerto, a sociedade sempre foi complexa e pior que a ambiguidade é a ilusão de que haja um sentido único. Quanto tempo faz que Heráclito disse que ninguém mergulha duas vezes no mesmo rio, etc etc…? Dois mil e quinhentos anos!

Eu já tinha visto uma angústia parecida décadas atrás quando o livro Tudo o Que é Sólido Desmancha no Ar causou frisson entre intelectuais, gente que cresceu pensando que a História tinha uma lógica inelutável, que o futuro era um só e que só havia uma maneira correta de se pensar. Quando um pensador como o falecido Zygmunt Bauman lamenta que o mundo é fluido e #asminapira a raiz dessa angústia é a mesma: uma visão de mundo desmoronando não por culpa do mundo, mas sim pela visão equivocada. Relembremos Heráclito: nada é perpétuo senão a mudança, e tudo flui (em grego fica bonito: Πάντα ῥεῖ).

Nossa alfândega cobra impostos surreais sobre tudo menos sobre ideias importadas, e não é pequeno o prejuízo de ideias que florescem bem em terras distantes, mas que aqui não vingam por melhor que seja o jardineiro. A ideia em si ou mesmo os seus progenitores não têm culpa, ninguém podia imaginar que elas fossem cair em solos estranhos ou que alguém fosse vender as sementes como algo miraculoso que brotasse do nada como Kikos Marinhos (quem lembra?).

A culpa na verdade nem é culpa, mas é nossa. Não é culpa porque no mais das vezes é algo inconsciente, um anseio nosso por algum milagre que nos rejuvenesça da noite para o dia, que nos cure todas as dores, que nos traga a felicidade sem demora e sem esforço. Ninguém quer olhar para o backlog ou lembrar que existe legado ou reconhecer que chegamos onde chegamos (a lugar nenhum) por descuido ou teimosia, milagre é mais legal.

Podemos colocar a culpa também na nossa formação, nos cursos de exatas e nos nossos ancestrais que acreditaram em Platão e acharam que havia verdades universais, atemporais e que não requerem discussão (coisa de Humanas, que horror!). A complexidade do mundo e a hipercomplexidade de países como o nosso fervem o cérebro de qualquer um, e é natural sonhar com algo etéreo que anestesie a confusão toda.

Hoje questiono fortemente essa visão universalista, tecnocêntrica, quase messiânica tamanha a fé na salvação universal por tecnologias reluzentes. Participei recentemente com uma consultoria gringa de projetos aqui na América Latina (Medellin, cidade fascinante) e deixei claro o meu desconforto: como assim impor a uma cidade tão singular, a uma cultura tão rica e original, a um povo tão criativo e a uma história tão complexa… soluções pasteurizadas, empacotadas e “universais”?

Eu não me conformei com essa postura soberba e resolvi propor uma inovação que levava em conta fatores culturais importantíssimos para latinos como nós: não o individualismo, não o eu-eu-eu, não a eficiência impessoal, mas sim a conexão humana, o senso de pertencimento, a ligação com a comunidade, o amor familiar.
A proposta foi vencedora, um ponto a favor da minha tese que exponenciais são as pessoas, não a tecnologia.

E se quiser saber mais detalhes, me chame para um café ?

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