Categorias
Blog

Polimatia: como ser o profissional pós-digital que o mundo precisa

Entre os meus jovens alunos (principalmente aqueles entre 18 e 72 anos) já há algum tempo me deparo com as dúvidas aflitas calcadas na percepção que estão inundados ao mesmo tempo por um mar de possibilidade infinitas, interesses loucos e variados por muitas coisas e um sentimento agudo de impotência – de ter que seguir um caminho só pra poder focar, “se dar bem”. Ao mesmo tempo, eles também recebem a informação que no mundo complexo e interconectado de hoje é importante que indivíduos e profissionais desenvolvam múltiplas habilidades e sejam versáteis e capazes de se adaptar a diferentes situações. Como se fossem feitos daquela geleca, meus alunos sentem a obrigação de amoldar-se a um mundo líquido, dando um jeito se fazer isso perder sua essência, autenticidade ou qualquer outra palavra da moda. 

A enorme parte desse pessoal é composta de gente que se identifica capaz de ser múltipla, variada e competente em mais de um campo de conhecimento e domínio; são interessadas, capazes, aprendem rápido e aplicam bem o que sabem. No entanto, observo que as pessoas que de fato detém tais características têm encontrado diversas barreiras para exercê-las em sua vida. Assim, existe uma ruptura entre o desejo de exercitar múltiplas potencialidades e a realidade do mundo do trabalho, da faculdade ou das rodas sociais no qual a maioria dos empregos, conversas ou projetos disponíveis não parece atender a tais necessidades. Desta forma, muitos não conseguem nem ao menos vislumbrar uma vida na qual suas múltiplas potencialidades sejam efetivamente exercidas, gerando uma série de efeitos negativos e bastante duráveis na psique humana, tal como frustração, depressão e ansiedade.

Mas, por outro lado, o mundo atual não pede por uma vida menos maniqueísta e menos desperdiçada em ações infrutíferas? Mais autorizadora e menos autoritária? E, consequentemente, mais feliz e criativa? 

Talvez por conta disso, o interesse pela polimatia disparou nos dois últimos anos; de ser um tema abstrato, de ser uma palavra esquisita, surgiu um lindo conceito que rege vidas, e proporciona alívio e reconciliação consigo mesmo.

Polimatia ainda é um termo um pouco obscuro e tem sido vinculado a uma miríade de outros conceitos, desde a multipotencialidade até transdisciplinaridade, passando por holismo e por outros conceitos que podem confundir ainda mais a nossa cabeça. Assim, o primeiro esforço é de definir com mais clareza do que se trata a tal polimatia. O termo polimatia vem do grego clássico e é a junção de poli, que significa muitos ou vários, e math, que é a raiz tanto de manthanein (o verbo aprender) e mathema (algo que é aprendido, especialmente através da reflexão).

Assim o polímata é alguém que vai pela vida exercitando a capacidade de desenvolver múltiplos conhecimentos simultaneamente em três dimensões: abrangência, profundidade e conectividade. O seu pilar de especialização é profundo, lastreia o leque de outros interesses, mas o mais importante é a característica de integrar e unificar suas diversas atividades e interesses como parte de um todo cognitivo, afetivo e conativo. A polimatia é mais que um projeto profissional, ela é a base de um projeto de vida, permeando carreira, corpo, mente.

Existem aspectos metodológicos extensos que não abordaremos aqui – a jornada do aprendizado, os tipos de polímatas, os campos do conhecimento, perfis psicológicos na relação com o conhecimento e criatividade – mas a pergunta mais frequente dá sim para responder: qualquer um pode ser um polímata?

Eu defendo que a polimatia pode ser vista como uma visão de mundo, ou mais precisamente, como uma característica de personalidade unificadora e latente que tem o poder de explicar muita coisa sobre o comportamento de uma pessoa. Essa ideia, ou o construto que ela representa, foi batizada de traço polimata. Se você quer saber se detém ou não o traço da polimatia, eu proponho que você responda a essas duas perguntas:

1) Você possui uma variedade de interesses que é desconcertante para as outras pessoas?

2) Você imagina, no seu íntimo, que poderia ter um grande impacto na vida de várias pessoas caso você consiga se engajar profundamente numa área por algum tempo?

Essas duas perguntas procuram capturar da forma mais parcimoniosa possível uma constelação de características pessoas que compõem o traço da polimatia e, principalmente, qual o seu comportamento em relação aos três pilares da polimatia: a abrangência, a profundidade e a integração.

Podemos avançar mais um pouquinho no tema e talvez lembrar que a polimatia, mais que um projeto profissional, um projeto de vida, comporta focos diferentes dependendo de como é a sua relação com o conhecimento. Citando alguns desdobramentos (que nunca são caixinhas separadas mas uma combinação possível) é possível detectar outros componentes dessa salada psicológica – além do traço , a filosofia de vida com o qual um se enxerga, a polimatia profissional e aplicada ou mesmo a busca pela eminência, reconhecimento e glória pelo conhecimento acumulado e aplicado.

A polimatia filosófica se refere ao desenvolvimento de diversos e profundos conhecimentos numa esfera social restrita. Ou seja, a polimatia filosófica é uma condição almejada e desenvolvida por indivíduos, porém seu alcance está restrito à esfera pessoal e familiar dessa pessoa. Isto é, um polímata amador pode ser um contador profissional, apreciador de arte e músico, que é o “Beethoven” da sua esfera familiar.

A polimatia profissional se refere ao desenvolvimento de conhecimentos e habilidades num nível profissional envolvendo mais de um domínio. Isso é, um polímata profissional é capaz de prover produtos e serviços úteis à sociedade em diferentes áreas e/ou conectando domínios diversos. É importante salientar que o polímata profissional, para assim ser considerado, deve satisfazer certo grau em duas dimensões da polimatia: profundidade e abrangência. Uma forma de se medir a polimatia profissional seria verificar o nível de profundidade das criações de um indivíduo.

Finalmente, a polimatia eminente se refere a uma condição de projeção notória devido a conhecimentos, habilidades e obras que sobrepujaram de alguma forma a fronteira do estabelecido, avançando o conhecimento em determinada área.

O fato de muitos textos retratarem apenas figuras muito eminentes como os típicos (ou únicos) representantes da polimatia pode ter levado à ideia de que a polimatia no geral é algo muito raro, quando, na verdade, se considerarmos todos os casos que apresentei, a polimatia pode ser bastante comum.

Como se tornar um polímata, então?

Isso é conteúdo para outro texto enorme – mas resumindo o que dá, a primeira dica diz respeito à autenticidade, à construção da identidade, e ao estabelecimento corajoso da sua postura no mundo. Há muitas pressões sociais para uma pessoa se tornar um especialista o breve possível. Elas incluem pressões que ensejam um lado positivo — as recompensas auferidas aos especialistas são maiores (um cardiologista ganha mais do que um clínico geral que ganha mais do que um mero interessado em medicina); e pressões que evocam um futuro negativo para o não-especialista — uma vida ausente de uma carreira bem definida, o não pertencimento a um grupo profissional, etc. Tais pressões fazem com que o detentor de traço polimatia se sinta mal, ansioso e “errado” por não ter conseguido decidir qual caminho seguir. E isso não precisa ser assim, te garanto. Falo por experiência própria – de quem seguiu esse caminho, passou por muitíssimas áreas diferentes e projetos divergentes e nunca se arrependeu, nem uma única vez.

Entender a polimatia, acima de tudo, é fundamental para desenvolver equipes de pessoas múltiplas e talentosas. Daquelas que batem um bolão em posições distintas. Quer saber mais sobre como fazer isso? Fale com a HSM e vamos conversar.

Assinatura

Anna Flávia Ribeiro é fundadora da Tribo Polímata, coletivo que reúne mais de 600 cabeças pensantes para discussão de tendencias de futuro e inovação. Desde 2018 lidera estudos nos campos da filosofia, ficção científica, IA, neurociência, genética, relação cérebro/máquina, criatividade e aprendizado polímata