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A era pós-pandêmica do mercado financeiro brasileiro

Na manhã de ontem, o mercado financeiro brasileiro foi surpreendido com a notícia de que a Berkshire Hathaway, gestora de Warren Buffett, é a mais nova acionista do Nubank.

Segundo o Wall Street Journal, a gestora comprou US$ 500 milhões em ações do banco digital brasileiro, o maior investimento individual já recebido pela empresa. Com quase 40 milhões de clientes, o Nubank já se consagra como um dos maiores bancos digitais independentes do mundo.

Ainda no universo das empresas brasileira com reputação internacional e cifras impressionantes, a Hashdex vem ganhando cada vez mais destaque (e cotistas). No último mês, a gestora brasileira de criptoativos estreou seu fundo negociado em bolsa (ETF), o Hashdex Nasdaq Crypto Fundo de Índice (ticker: HASH11), na B3.

Com o lançamento do HASH11, o Brasil se junta a um seleto grupo de jurisdições que possuem produtos de criptoativos listados em bolsa. Países como Suíça, Suécia e Alemanha possuem outros tipos de produtos que, apesar de não serem ETFs estritamente, são listados em bolsa e fornecem exposição a criptoativos. Segundo o CEO da Hashdex, Marcelo Sampaio, antes do Brasil somente o Canadá havia liberado a listagem de ETFs de bitcoin.

O fundo HASH11 já conta com 61,5 mil cotistas, em comparação aos cem mil cotistas da gestora, responsável por R$ 3 bilhões de patrimônio.

“Os números são um indicativo de que os investidores brasileiros buscavam ter mais essa forma de acessar os criptoativos. Em pouco tempo, o HASH11 apresentou para o mercado uma solução segura e simplificada que deve crescer ainda mais nos próximos meses”, explica Marcelo Sampaio, CEO da Hashdex.

Mas vamos voltar alguns passos. Quanto você sabe sobre o mercado de criptoativos? Em entrevista ao Tech Talks, podcast da Singularity U Brazil (braço da HSM), Sampaio explicou um pouco mais sobre esse universo. E nós trazemos os highlights abaixo.

A origem do bitcoin: Satoshi Nakamoto
Diferentemente do Banksy que, pelo menos, acham que sabem quem é, ninguém é conclusivo sobre a identidade Satoshi Nakamoto – que pode ser uma pessoa, um grupo de pessoas ou um mero pseudônimo que ninguém consegue desvendar. Mas é dele a autoria do paper de nove páginas que transformou a recente história da humanidade. Marcelo Sampaio acredita que ele fez muito bem em não se revelar porque teria tido muitos problemas com inúmeros governos.

“O que ele fez, basicamente, foi inventar um dinheiro que seria desnacionalizado e descentralizado. Um dinheiro que não ficasse à critério de bancos centrais e governos, como uma resposta à crise de 2008, ao abuso dos bancos centrais e toda a ganância do mercado financeiro. O objetivo dele era criar uma maneira para que isso não fosse mais possível e o dinheiro não ficasse mais exclusivamente na mão dessa turma. Acredito que ele não imaginava que tivesse criado algo muito maior”, afirma Sampaio.

O CEO da Hashdex gosta de traçar um comparativo entre blockchain e cripto com o advento da internet. De acordo com o empresário, da mesma maneira que a rede surgiu da simples ideia de se transacionar mensagens, a ideia igualmente simples de se criar um dinheiro acabou criando uma estrutura muito maior, que resolve problemas que vão além das finanças.

Como se dá uma transação de criptoativos?
Segundo Sampaio, isso ainda é muito complicado. “Vocês vão me ver comparar muito a ideia de blockchain com a internet por um bom motivo: são ideias muito parecidas. Além da semelhança, são as duas últimas grandes disrupções da humanidade. Para aqueles que estão na faixa dos 30 anos ou mais, há a lembrança de que o começo da internet foi sofrível e essa complexidade inicial se aplica ao universo cripto”, adverte.

Inicialmente você realiza o download de uma carteira que pode ser atrelada a um serviço ou não (ela pode ser apenas um software). Assumindo que você tenha algum saldo em bitcoin, há ali uma string que é literalmente um código de 40 caracteres. Juntando essa carteira e esse código, você pode pode fazer uma transação, podendo mandar uma fração do seu saldo ou seu saldo completo para uma outra carteira – que, no caso, seria uma outra pessoa.

Marcelo Sampaio assume que fazer isso “na mão” é chato, mas que já começou a melhorar muito com empresas como a Coinbase. Ainda que esse processo permaneça estranho e relativamente complicado, o executivo acredita que o uso do cripto como dinheiro está em evolução para algo mais simples.

Quando se trata de cripto ativos, não espere por atores que exerçam o papel de gerente de banco ou SAC.
Isso não existe nesse mercado e é aí que tá o negócio“, declara Sampaio sem rodeios. Ele explica que não se deve buscar semelhanças com um banco, mas com uma carteira de dinheiro. Se você der dinheiro à pessoa errada ou colocar no bolso e cair no chão, essa quantia foi perdida.

“Nesse mundo, sua carteira digital é muito mais parecida com um cofre. Uma carteira pode ser acessada sem dificuldade, no cripto se você perder a chave do seu ‘cofre’, ele pode nunca mais abrir”, complementa.

E Sampaio adverte que, da mesma maneira que você busca uma corretora ou um banco para investir em um fundo, o ideal é procurar por empresas focadas em gerir aplicações de criptoativos. De acordo com ele, o mundo de investimentos ainda é um mistério pra muita gente mas ,na última década, isso tem evoluído muito no Brasil. “O brasileiro, de maneira geral, adotou nos últimos anos a ideia da importância de poupar e investir. E isso se expressa pelo crescimento expressivo de corretoras como a XP. Criamos produtos de investimento que são muito parecidos senão iguais aos produtos que os investidores já estão habituados. Hoje, se você quiser investir em alguns dos nossos fundos, isso está a um clique. Outra coisa que fazemos é explicar ao cliente final sobre o universo-cripto em entrevistas como essa e em qualquer oportunidade de disseminar a pauta. A educação desmistifica muito as coisas e cria o interesse para que, ao longo do tempo, os investidores estejam seguros sobre o assunto“, afirma.

Bitcoin, Ethereum e suas aplicabilidades.
Pensamos muito em cripto enquanto dinheiro. Mas esse é apenas um dos usos de cripto, e não é sequer o maior deles. Do ponto de vista de tamanho de mercado, bitcoin sem dúvida é o mais consagrado criptoativo. Mas cripto enquanto estrutura é muito maior. Se pegarmos o Ethereum, que é o segundo maior criptoativo, ele não tem absolutamente nada a ver com bitcoin. Não são coisas minimamente parecidas.

“Se tivesse que fazer uma comparação, o bitcoin está mais para um ouro digital e o etherium está mais para uma linguagem de programação. Podemos pensar no C++ para programa de computador e Ethereum para programa de blockchain”, explica Sampaio.

A blockchain tem associada a ela frações de um ativo que acaba sendo o pagamento de quem torna essa rede possível. Segundo Sampaio, a remuneração desse pessoal que torna a rede viável é também uma espécie de ingresso. Aqueles que se interessam pelo uso dessa tecnologia têm que comprar de quem já possui acesso. E aí você cria um mercado secundário, baseado em demanda. Por isso que esse ativo acaba tendo um papel que transcende a ideia de dinheiro.

“Seria como ter que adquirir o ticket da quermesse para poder jogar a bola na boca do palhaço. O cara que está ali ajeitando o palhaço e te dando a bolinha, também está sendo pago. Então, um mercado secundário baseado na demanda é criado. Se muita gente quiser jogar a bolinha na boca do palhaço, acabará tendo escassez de tickets e o valor vai aumentar”, complementa.

A utilização de cripto está começando a querer chegar no cidadão comum. Hoje, ela ainda é relativamente sofisticada. Há diversos casos de uso, mas muito voltados para finanças descentralizadas e blockchain de infraestrutura de internet. Um uso que está capturando o imaginário da maioria das pessoas é o próprio bitcoin como reserva de valor.

Não se fala de criptoativo sem falar de reserva de valor.
Todo mundo tem algum nível de reserva de valor. Para a maioria, a maneira mais mais óbvia é a poupança. Um outra amplamente difundida é a aquisição imobiliária, você compra uma casa pela sua utilidade mas também pelo valor – se algo der errado, basta vender o imóvel.

Sete características definem o que é uma reserva de valor: divisibilidade, transferabilidade, escassez, fungibilidade, durabilidade, portabilidade e reconhecimento. No mundo dos investimentos, a reserva de valor mais comum é o ouro. E o bitcoin, que está virando o ouro digital.

Segundo Sampaio, se observarmos sob uma ótica técnica o criptoativo não é um pouco melhor que o ouro, mas ordens de magnitude melhor que o ouro!

“Se pegarmos o critério da divisibilidade, por exemplo, você pode pegar uma pepita de ouro e dividir pela metade, 1/4, 1/10, 1/1000, se chegar em um milionésimo estaremos falando em nano partículas de ouro. É mais fácil fazer isso com ouro ou dividir um código? Se focarmos na transferabilidade, é mais fácil mover barras de ouro do Fort Knox dos Estados Unidos e mandar para a Europa ou mandar um código pela internet?“, provoca o CEO da Hashdex.

Então, por que o ouro permanece? Porque ele tem 7 mil anos de história como reserva de valor. Mas há quem defenda que, em algum momento, o fundamento prevalecerá; e o melhor será mais utilizado.

Sampaio ressalta que, além de dinheiro, imóvel e ouro, há também muito uso da arte como reserva de valor. Atualmente, esse mercado gira em torno dos US$27 trilhões. “Muitas pessoas realmente expõem peças artísticas adquiridas, mas a maior parte é comprada para guardar valor. Os principais quadros do mundo estão em bancos, não em paredes. Esse é o Admirável Mundo Novo”, afirma.

Como saber se o criptoativo é um hype ou se veio para ficar?
Dando um zoom out, o bitcoin está em um caminho de estabilidade. Sua adoção só cresce e não há perda de usuários. Sampaio defende que, do ponto de vista do investimento, todo mundo deveria ter pelo menos um pouquinho. Mas ressalta que esse é um ambiente de possibilidades, muito mais que de certezas.

“Se você coloca 1% do que tem e perde 1%, é uma perda mais que aceitável e, inclusive, comum. Agora, se esse negócio multiplica por 100, 200, 500 nos próximos 10, 20 anos, aí faz muita diferença você não ter comprado. Meu ponto é que você tem o chamado potencial de retorno assimétrico. E consideramos uma oportunidade geracional. O cavalo alado não passa o tempo todo. Só vamos descobrir se foi realmente um cavalo alado lá na frente, mas ele tem se mostrado real para quem tem paciência e estômago para topar a volatilidade que se mostra tremenda”.

Bancos centrais, moedas digitais soberanas e economias nacionais.
As CBDC (Central Bank Digital Currency) são as moedas digitais dos bancos centrais. Elas são inspiradas no universo blockchain-cripto, apesar de puristas defenderem que, tecnicamente, não possam ser consideradas criptomoedas. Para Marcelo Sampaio há sim uso do cripto, mas enquanto forma, não conteúdo.

Na prática, o governo consegue através dessas wallets digitais controlar muito mais sua população. CBDC nada mais é que um dinheiro fiduciário digital. Se pensarmos na China, o país sempre foi ultra digitalizado e protecionista com seu dinheiro, colocando o mínimo de papel moeda na rua. Lá, até mesmo a esmola para um morador de rua se dá através do celular. É um país muito bem sucedido nesse sentido – mas internamente, e, quando falamos de um cripto Yuan, a lógica se inverte e esse dinheiro viaja.

A China já está em diversas guerras com os EUA e a principal delas é a reserva de valor. Hoje, o dólar é uma reserva de valor e a China quer que, nas próximas décadas, o renminbi vire reserva de valor.

“Com isso na agenda chinesa, basta aplicar a lógica utilizada internamente na política externa. Por exemplo, basta eles se direcionarem a uma empresa como a Vale e dizer: para vender minério para cá, não é mais em dólar, é tudo em renminbi; sai até mais barato que transacionar para dólar e depois na nossa moeda. Para a Vale seria ótimo. No entanto, se o governo chinês se visse em desacordo com algum valor ou alguma aliança política por aqui, poderia congelar esse renminbi em reserva. Isso é possível em cripto, em nota e dinheiro digital não”, exemplifica.

Outro exemplo dado por Sampaio é o condicionamento do recebimento de beneficio social à vacinação. “Aos poucos, os governos já começaram a entender que o cripto pode fornecer mais controle e essa pode ser a melhor chance do bitcoin virar uma moeda global. Isso porque a sociedade pode se recusar a utilizar moedas digitais de bancos centrais, como por exemplo um cripto real. E preferir fazer uso do bitcoin por ser algo sem dono, desnacionalizado. Hoje, ainda estamos na era do dólar, dos EUA. Amanhã, quem sabe?”.

A série de podcast da SingularityU Brazil está em sua 2ª temporada e você pode escutar todos os episódios neste link.