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Há vagas (milhares de vagas em TI)

Na paralela dos números chocantes de vítimas da pandemia de Covid-19 no Brasil, ainda convivemos com a crescente taxa de desemprego, o que aumenta, dia-a-dia, os fatores de estresse em toda sociedade.

Alguns poucos setores, porém, mostram-se oásis e oferecem vagas. A Tecnologia de Informação (TI) é um deles com, na verdade, milhares de vagas. Estudo realizado pela Brasscom – Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação – aponta déficit de mais de 250 mil vagas em TI no País nos próximos anos.

Aqui da perspectiva de minha janela, posso garantir que tais postos de trabalho realmente existem e isso não é de hoje. Os reflexos da pandemia na aceleração da digitalização das empresas apenas fizeram com que crescesse ainda mais a demanda do que a quantidade de profissionais formados para atendê-la. Somente na everis, em um ano de minha gestão, quase que dobramos o número de colaboradores e continuamos com mais de 500 vagas não preenchidas.

Dado esse verdadeiro apagão, hoje a empresa, assim como outras do setor, investe diretamente na formação de profissionais que possam atender as demandas emergentes em todo o mundo. Pasme: atualmente pagamos para que pessoas de todas as idades e origens estudem e se formem. Disso depende a manutenção de nossos negócios.

É curioso e bastante incômodo constatar que tal déficit nessa cadeia seja histórico no Brasil. Há 10 anos [ sim, dez anos! ], uma reportagem do Jornal da Globo apontou para a já escassez e demanda crescente naquele momento*.

Na semana passada, estive com dois outros CEOs de empresas globais de serviços de TI, em uma LIVE promovida por uma plataforma de formação de TI. Falamos para um público de centenas de jovens sobre as oportunidades reais que existem hoje nessa área. Cada um de nós, falou da própria carreira e de como chegamos a onde estamos hoje, graças a crescente demanda de tecnologia no país e no mundo. 

Sim, atualmente trabalhamos juntos, até os concorrentes, para formar pessoas para nosso mercado. Aqui na everis, recentemente, abrimos 15 mil bolsas de estudo para pessoas plurais. Como tenho comentado em textos recentes, a tecnologia é também um mercado capaz de acolher a diversidade. Precisamos de diferentes habilidades e vivências para promover a melhor experiência tecnológica para o consumidor. Isso se faz com um time plural.

Destaco aqui a atuação de algumas edutechs e ONGs, focadas na formação de profissionais em TI, como a Generation, Digital Innovation One, Meu Futuro Digital, EducAfro, AutismoTech, PrograMaria, Driven… Cada uma delas forma pessoas diversas para esse mercado de trabalho sedento por boa mão de obra. Me emociono lembrar que em uma dessas conversas que mantenho, conheci uma ex-moradora de rua que hoje é programadora. A tecnologia é hoje responsável por 6% do PIB brasileiro e transforma vidas.

É possível lamentar que pouco foi feito para que uma geração de profissionais fosse formada nesse período, a fim de atender tal demanda que já emergia. Mas escolho convocar lideranças públicas e privadas para que possamos rapidamente reverter o fluxo de falta de mão de obra, que pode levar a um apagão do setor no Brasil.

Isso porque, com altos impostos para importação de serviços de mão de obra estrangeira, o País “protege” o mercado de trabalho interno, mas não fomenta a formação de brasileiros que possam ocupá-las. Enquanto isso, continuamos com a chamada “exportação de cérebros” do nosso país, agora tendo nossos profissionais contratados em dólar para prestar serviços desde sua casa às empresas na Europa e Estados Unidos. Num primeiro momento isso até pode parecer bom, mas na realidade vivemos a incongruência de ter a cabeça no forno e os pés na geladeira, como diria Delfim Neto.

Formar profissionais é mais complexo que ensinar técnicas. É também formar líderes, forjar pessoas que possam realmente vislumbrar carreiras longevas. Que tenham habilidades sócio emocionais como base, para que façam suas próprias escolhas. Digo isso porque o ciclo virtuoso da tecnologia e a crescente oferta de trabalho para quem já está no setor podem fazer com que um jovem promissor “morra na praia”, ao assumir cargos ainda inadequados para seu estágio de carreira, por conta da inevitável ânsia por ganhar mais rapidamente. Um salário fora do tom hoje, pode pôr em perigo o futuro do jovem profissional.

Como gosto de dizer, não há bom salário que pague um mal chefe. E chamo de mal chefe aquele ou aquela organização que vai jogar um aprendiz em uma circunstância para a qual ele ainda possa não estar preparado, levando a erros desnecessários que podem ecoar de forma incômoda em toda uma vida profissional.

Sim, há vagas. Há milhares delas. Precisamos nos organizar como sociedade, integrando iniciativas privadas e públicas a fim de garantir emprego agora e no futuro para milhares de pessoas. Disso depende também o posicionamento futuro do nosso país! Profissionais para TI precisam de habilidades de raciocínio lógico. É mais matemática que metafísica e isso se desenvolve com trabalho.

Há vagas. Quem quer ajudar a preparar as pessoas para ocupá-las?

Ricardo Neves é CEO da everis Brasil, consultoria multinacional de negócios e TI do Grupo NTT Data

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Diversidade ampliada

Hoje trago aqui uma sugestão. Na sua próxima reunião virtual, que tal escolher a opção “ver em galeria” as imagens de todos que participam dela? A partir disso, respire fundo e se pergunte, querendo uma resposta sincera: somos todos meio parecidos?

Será que todos que estão em suas reuniões virtuais vêm, mais ou menos, dos mesmos lugares? Passaram por escolas semelhantes, fizeram as mesmas viagens, frequentam os mesmos cursos, os mesmos restaurantes, clubes ou parques? Foram aos mesmos teatros e assistem muitos dos mesmos filmes e shows?

Muito provavelmente, a maioria dessas pessoas devem ser também da mesma etnia, e – por tudo isso – talvez tenham framework mentais bem similares.

Faço toda essa introdução para compartilhar uma interessante descoberta que fiz com o livro “Ideias Rebeldes”, de Mathew Syed, que recebi na assinatura de um serviço de curadoria de livros, focado no desenvolvimento pessoal e profissional.

Na publicação, Syed conduz o leitor a reflexões importantes. Fala sobre equipes diversas e logo, coloca em xeque a ideia de meritocracia, assunto que já abordei em artigos passados. O autor apresenta um termo novo para mim: diversidade cognitiva. A forma como enxergamos a realidade, o repertório que temos para mapeá-la e buscar soluções criativas a desafios complexos está baseada em nossa forma de aprender e ensinar.

Posto isso, segue explicando que a diversidade demográfica não necessariamente mapeia a diversidade cognitiva. Podemos ter pessoas de etnias diversas em uma vídeo conferencia e todas elas pensarem da mesma forma, partirem das mesmas premissas e chegarem às mesmas conclusões. E times assim podem não ser os melhores para resolver problemas complexos.

Se esse for seu caso, talvez você esteja em uma “câmera de eco”, outro conceito interessante. “Câmeras de eco” são ambientes [ digitais ou não ] nos quais nossos pensamentos e opiniões apenas ecoam, sem o contraditório, sem a dúvida. Tal eco nos  leva à equivocada impressão de certeza absoluta sobre qualquer assunto. O documentário “Dilema das Redes”, da NetFlix, aborda essa questão, tendo em vista que nas redes sociais, à medida que seguimos apenas quem está alinhado com nossas opiniões, tendemos a vê-las ecoando ad eternum. E, pior, acreditamos piamente que elas são as únicas verdades.

No mundo complexo em que vivemos, a todo dia nos são exigidas soluções multidisciplinares e representativas de várias e diferentes vozes. Fazendo uma analogia, se estivéssemos numa corrida de revezamento, escolher a equipe seria simples: aqueles que correrem mais rápido estariam no time. Mas se o revezamento fosse também um triatlo, teríamos de ter um melhor corredor, um melhor nadador e um melhor ciclista. Comparar esses três atletas entre si seria injusto com todos e não garantiria a medalha.

Entendendo que os problemas de negócios e da humanidade ficam cada vez mais complexos e multidimensionais, a diversidade cognitiva da equipe passa a ser fundamental para resolvê-los. É nisso que devemos investir.

Que tal, então, enxergar nessas telas das reuniões virtuais, o que tem faltando ao time? (um nadador ou um ciclista, ao invés de apenas corredores?). Que olhar diverso, que abordagem disruptiva, que perguntas incômodas não estão sendo feitas? Que tal aprender a olhar pela perspectiva desconhecida do outro? Respeitar esse olhar diverso, sinceramente.

Em um happy hour virtual que fiz com uma turma interessante de colaboradores com mais de 60 anos na everis, um deles trouxe uma declaração incrivelmente simples e conclusiva: “Ter respeito por mim não é me chamar de senhor, mas trabalhar realmente colaborativamente comigo”. Ele tem 71 anos. Sim, 71 anos e importante contribuinte em uma equipe de quase 4 mil colaboradores em uma empresa de tecnologia.

Nesse papo, ficou claro que a vontade, a energia e a impulsividade dos mais jovens anima os profissionais seniores, que também se sentem motivados a formar os mais novos. Claro que há e haverá embate de ideias e opiniões. Neste aspecto, o desafio das lideranças é oferecer uma segurança psicológica para que todos possam colocar à mesa suas divergências. Nem todos precisam ser amigos no final da jornada, não é sobre isso, mas imaginem como todos sairão maiores e melhores se puderem se escutar, aprender a olhar por novas perspectivas. Ampliar suas consciências e perspectivas.

As inovações que mudam o mundo são cada vez mais construídas por várias ideias, que se sobrepõem ou se complementam. Imaginem se a Netflix passou de uma empresa de postagem de DVDs para a uma das maiores produtoras de entretenimento do mundo, com o olhar de uma só pessoa. No livro “A Regra é Não Ter Regras”, o CEO da empresa, Reed Hastings mostra que tal trajetória foi feita no embate de ideias e opiniões. Li que lá, uma plaquinha nas salas de reuniões encoraja o incômodo para inovação: “Please, do NOT please you boss” [ “Por favor, NÃO agrade seu chefe”, em uma tradução livre ].

A era de um Professor Pardal trazendo ao público as prontas inovações pré-concebidas já acabou. Quando mais exercitamos a diversidade no dia-a-dia, mais isso fica claro.  Dar e receber feedbacks sinceros e se colocar na humilde posição do “não sei”, pode alavancar trajetórias, existências e empresas. Saber o que não se sabe é fundamental! A jornada pode ser muito mais interessante, se diversa também cognitivamente. Nossa responsabilidade como líderes e gestores é justamente promovê-la.

Ricardo Neves é CEO da everis Brasil, consultoria multinacional de negócios e TI do Grupo NTT Data

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Um ano como “CEO virtual”

Imaginem só essa história: aos 55 anos, com uma carreira sólida e consolidada, um alto executivo internacional, sócio de uma das mais respeitadas consultorias do mundo, sensibilizado pela leitura do “100-year Life”(*), resolve construir um novo capítulo na sua vida profissional. Faz uma aposentadoria antecipada e salta em busca de realizar o desejo sonhado no início de carreira: ser CEO de uma grande empresa.

No curto período de um mês entre a saída da sociedade e a chegada ao novo cargo, o mundo para. Para mesmo. Tudo se torna incerto. A pandemia de Covid-19, sem precedentes, vira o mundo de cabeça para baixo.

E revirava minhas entranhas, já que esse executivo aspirante a CEO era eu um ano atrás.

Assumi o comando da everis no Brasil já em home office. Por meio da tela do computador, fui apresentado ao board regional, aos sócios e executivos locais e iniciei a gestão dos então 2.700 colaboradores no País. O mundo colapsava e eu era agora responsável por quase 3 mil famílias. Precisei respirar muito fundo para seguir. E, ao respirar, voltar ao ensinamento de meu pai: nos momentos de crise e incertezas, conecte-se aos seus valores.

De reunião virtual em reunião virtual, fui ficando mais íntimo desses meus valores, das minhas crenças para tomar decisões. Felizmente, fui constatando que os meus valores estavam alinhados aos valores da everis e do grupo japonês NTT DATA, ao qual pertence.

No contexto de incerteza e insegurança, lancei mão da comunicação, das conversas. Foram certamente mais de mil papos virtuais realizados ao longo do ano, nos quais busquei me colocar de forma sincera, real, esperançosa. Me expus às perguntas que não tinham respostas. Às duvidas que também eram minhas. E corri atrás das informações.

De tela em tela, fui experimentando concretamente o poder da autenticidade. Fui deixando aflorar o nordestino que migrou jovem para São Paulo e depois para os EUA, em busca de oportunidades profissionais e acadêmicas. Aquele jovem superou desafios que poderiam ajudar esse alto executivo nas atuais dificuldades.

Eu mentiria se dissesse que nesse ano não vivi dificuldades. Quem não as viveu?

Mês a mês, fui encontrando meu jeito de ser um “CEO virtual”, mas absolutamente conectado à vida real das pessoas. E vi a empresa responder com confiança à minha liderança que buscava ser cada vez mais empática e humana. Os excelentes serviços prestados pelo time aos clientes e o contexto da crise sanitária aumentaram enormemente a demanda pelos serviços de transformação digital, e saltamos para quase 4 mil colaboradores no período.

Com o negócio em expansão, aproveitei para trabalhar mais em prol da diversidade. Da inclusão. As duras realidades do momento no mercado de trabalho reacenderam oportunidades para criação de novas estratégias de formação e contratação inclusivas e com perenidade. Hoje tenho certeza de que, quanto mais diverso for o time, mais abundante será o business. Essa certeza foi construída nas centenas de conversas que realizei esse ano, com grupos plurais e sobre as quais fiz questão de compartilhar em outros artigos que publiquei durante o ano.

Um negócio de serviços é um negócio de pessoas. Trabalhar as pessoas é desenvolver os ativos dessa empresa. E trabalhar pessoas sempre nos coloca num lugar de humildade. Nada sei. Quero aprender. Outro dia numa live, um colaborador que está dentro do espectro autista (**) me perguntou qual seria a minha sugestão para o desenvolvimento da carreira de um autista dentro da empresa. Não soube responder. Não conhecia quase nada sobre o espectro autista no momento da pergunta. Contei para ele sobre minha ignorância do tema e me comprometi a voltar para ele com uma resposta. Fui estudar, ouvir mais. E voltei a ele. Respondi à questão. Conversamos e aprendi mais ainda.

Algumas soluções são simples. Por exemplo, compraremos fones com noise-cancelling para que as pessoas com maior dificuldade de foco possam ser beneficiadas. Nessa mesma direção, mapeamos os PCDs e estamos adaptando soluções para o home office e para os escritórios – quando pudermos voltar a eles. Entendemos que há pessoas que desejam ficar em casa, outras querem voltar o mais rápido possível pois as estruturas em casa ainda não são as mais adequadas para elas.

Aprendemos a reconhecer as diferenças, respeitá-las e trabalhar em prol delas.

Foi um ano em que ousei ser mais criativo. Puxei papo com todos os “desconhecidos virtuais”, convidei-os para pizzas, cafés, happy hours, festas junina e de Halloween, e até show de samba no carnaval – tudo em forma virtual. Adaptei-me. Foi um ano de resiliência. Foi um ano em que fiquei íntimo do meu propósito de vida, que é ver as pessoas se desenvolvendo. Me desenvolvi e vi centenas delas neste caminho.

Em meio a toda essa crise, a everis tem se mostrado um oásis. Estou feliz um ano depois. Muitos outros virão, agora tenho certeza. Em novos modelos, numa nova era está sendo concebida agora. Estamos construindo um novo tempo. Agradeço imensamente a todos que cruzaram meu caminho esse ano. Aprendi com todos vocês

Ricardo Neves é CEO da everis Brasil, consultoria multinacional de negócios e TI do Grupo NTT Data

*The 100-year Life – Living and Working in an Age of Longevity, Lynda Gratton & Andrew Scott
** Dia 02 de abril, dia que iniciei na everis, é o Dia Mundial de Conscientização do Autismo!