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Uma nova forma de negócios está aqui – e veio para ficar

Há 12 anos o Quintessa trabalha por uma nova forma de fazer negócios – uma forma que concilia gerar resultado financeiro e impacto socioambiental positivo, uma forma que entende que empresas podem (e devem) ser relevantes na solução dos desafios sociais e ambientais centrais do nosso país, que empresas podem ter uma gestão consciente e humana.

Felizmente, nas últimas décadas, diversos conceitos chegaram para tangibilizar essa visão e movimentos de mercado geraram pressão para que o tempo para que se concretizasse se tornasse mais próximo.

Evoluímos de uma visão de trade off entre gerar resultado financeiro e impacto socioambiental, que via o impacto como custo. Aprendemos que podemos gerar resultado financeiro a partir da geração de impacto positivo. O setor 2.5 e os negócios de impacto são uma ótima tradução desta visão: ao crescer, geram mais impacto – em setores como geração de energia limpa, soluções de logística reversa, educação, saúde, empregabilidade, e tantos outros. 

Falando das grandes empresas, esse alinhamento entre as duas esferas não é tão óbvio. Ainda assim, por que ignorar essa visão não é mais uma opção?

Elenco aqui três formas de enxergar o porquê mudar.

Mudar pelo medo

Empresas são organismos vivos e sabemos que os que sobrevivem não são os mais fortes, mas aqueles que melhor se adaptam às mudanças. Uma das formas de entender o motivo de mudar é por uma questão de sobrevivência – e o medo de perder. 

De um lado, medo de perder consumidores. O estudo global Edelman Earned Brand (2018) revelou que os consumidores orientados por causa já são maioria em todas as faixas etárias e de renda: 69% dos brasileiros compram com base no posicionamento das empresas sobre questões sociais. Já a pesquisa da Ipsos aponta que 77% dos entrevistados acreditam que o mercado de hoje espera que as empresas contribuam mais para as transformações da sociedade.

De outro lado, medo de perder colaboradores  e potenciais talentos. Os millennials tendem a ficar menos tempo no mesmo trabalho e buscam propósito e fit cultural com a empresa. Uma pesquisa da PwC revela que existe nos millennials uma necessidade em perceber que estão envolvidos em algo maior do que o lucro apenas. E a geração Z, nascida entre 95 e 2010, também segue a mesma busca por propósito e realização profissional.

Por último, medo de perder investidores. Um grande marco são as cartas de Larry Fink (exemplo de 2019 e 2021), chairman e CEO da Black Rock, que possui trilhões de dólares sob gestão, e que nos últimos anos vem alertando para a urgência do tema ambiental e a responsabilidade das empresas no tema de sustentabilidade. Neste mesmo sentido, a Goldman Sachs, em 2020, anunciou que só irá estruturar IPOs de empresas com mulheres no conselho. Essa pressão já chegou no mercado financeiro e gestoras brasileiras, onde vemos a XP movimentando este debate (vale conhecer este estudo e ver as palestras do Expert XP). 

Como disse Peter Drucker, “a inovação sempre significa um risco. Qualquer atividade econômica é de alto risco e não inovar é muito mais arriscado do que construir o futuro.”

Mudar pela oportunidade de ganhar

Outra forma de entender porque mudar é pela oportunidade. 

Em 2013, Raj Sisodia, um dos fundadores do Capitalismo Consciente fez um estudo revelador: empresas que praticam o “capitalismo consciente” performam 10x melhor. Os aspectos analisados foram propósito, remuneração, qualidade do serviço ao consumidor, investimento na comunidade e impacto no meio ambiente. Segundo ele, estas empresas têm melhores resultados porque tratam melhor os seus stakeholders: seus fornecedores ficam satisfeitos em fazer negócios, colaboradores são mais engajados, produtivos e propensos a permanecer, são melhor recebidas nas suas comunidades e os consumidores são mais leais e satisfeitos.

Gosto muito da reflexão que decorre desse estudo, pois ele tira a discussão sobre “se” práticas empresariais mais humanas dão retorno positivo. O foco fica no “quando” e volta a pergunta a quem está questionando: qual o seu prazo para atingir esse resultado? Se tivermos um pensamento apenas de curto prazo, talvez a resposta seja de que o retorno não é considerável. Se conseguimos pensar mais a médio e longo prazo, ele não apenas existe, como é 10x maior. Os dados reforçam o que a crença popular já afirmava: quanto menor seu prazo, maiores são as chances de você se submeter a fazer algo errado para fazer dinheiro rápido. 

No Brasil, o estudo “Empresas Humanizadas” revelou dados que complementam esta visão. Conduzido pelo Instituto Capitalismo Consciente em 2019, foram ouvidas 1.115 empresas de todos os portes e segmentos. O resultado foi que as empresas com propósito têm um nível de satisfação dos colaboradores 225% superior do que a média das 500 maiores companhias e um índice de satisfação de clientes (NPS) 248% superior. Além disso, o Retorno Sobre o Patrimônio (ROE) das companhias consideradas humanizadas se mostrou 6 vezes maior do que a média das 500 maiores do país.

Este estudo da McKinsey, de 2019, traz uma informação similar. Ele elenca cinco caminhos pelo qual as práticas ESG geram valor: crescimento de receita, redução de custos, intervenções legais e regulatórias, aumento de produtividade e otimização de ativos e investimentos. 

Este texto que escrevi recentemente traz exemplos tangíveis sobre como esta agenda pode impulsionar novos negócios para as empresas. Um exemplo: ao contratar a solução da Hand Talk para o site da sua empresa, você pode enxergar até como uma ação de responsabilidade social e inclusão de surdos, mas você também pode enxergar como uma ação para ampliar seu mercado para milhões de consumidores que têm a Libras (Língua Brasileira de Sinais) como sua língua oficial.

Quando falamos em diversidade, um aspecto dentro deste novo olhar para os negócios, os resultados também são positivos. Este estudo da McKinsey mostra que as empresas que apostam na diversidade no seu quadro de funcionários tendem a ter um aumento de até 21% no lucro quando há diversidade de gênero e 35% quando há diversidade racial. 

Há conceitos que apoiam esta visão. Michael Porter, em 2011, escreveu o artigo para a Harvard Business Review “Criando Valor Compartilhado”. Valor compartilhado é definido como políticas e práticas operacionais que aumentam a competitividade de uma empresa e, ao mesmo tempo, promovem as condições econômicas e sociais das comunidades onde atua.  São iniciativas que unem os desafios sociais e ambientais, os ativos da empresa e oportunidades de mercado. Por exemplo, uma empresa que identifica uma necessidade da população de baixa renda e cria um produto ou serviço para suprir essa necessidade, pratica o valor compartilhado.

Outro termo, cunhado em 2020 no Fórum Econômico Mundial em Davos, é de capitalismo de stakeholders. Na contramão do capitalismo de shareholders, o capitalismo de stakeholders defende que a tomada de decisão olhando para colaboradores, consumidores, fornecedores, comunidades locais “E” acionistas é mais estratégica para o sucesso no longo prazo das empresas do que somente focar na maximização do lucro para os acionistas.

Um exemplo tangível que conhecemos de perto por aqui é o programa CPFL na Comunidade, que propõe uma nova forma da empresa se relacionar com seus clientes de baixa renda. Buscamos e implementamos soluções de negócios de impacto focadas em educação financeira e geração de renda dentro da temática de eficiência energética em comunidades em que a CPFL atua, visando uma melhoria do seu relacionamento com os clientes e também na potencial redução da inadimplência da sua operação.

Gostaria de mencionar dois artigos que complementam esta visão: este, da Regina Magalhães, e este, do Ricardo Voltolini.

Mudar pela necessidade e senso de responsabilidade

Se propor a adotar práticas ESG é (ou deveria ser) muito além de fazer um checklist de uma lista de exigências. Deveria ser parte de uma mudança maior, uma forma de enxergar, pensar, agir mais respeitosa, menos egoísta, que prioriza o cuidado com as pessoas e o ambiente ao nosso redor. Uma vez ouvi em uma palestra que antes dos 17 ODSs está o ODS 0, de ampliação de consciência, que viabiliza que os demais aconteçam, o que fez muito sentido para mim.

Não é possível uma empresa prosperar enquanto o seu entorno está desmoronando. Mesmo pensando de forma individualista, a falta de educação afeta a falta de capacidade de atrair bons talentos, colaboradores doentes afeta a produtividade, falta de insumos naturais (como água) afeta o acesso a matérias primas para produção – entre tantos outros exemplos. 

Por que não agimos no curto prazo a favor do que queremos a longo prazo?

Acho que o cenário de absoluto caos que vivemos hoje é indisfarçável e explícito, mas vale trazer dados para embasar. O Brasil, em 2019, ao mesmo tempo em que ocupou a posição de 9ª maior economia do mundo, ocupou a 9ª posição de país mais desigual do mundo (Índice Gini – do Banco Mundial & IBGE). Nossa realidade é preocupante: falta acesso à educação de qualidade, saúde de qualidade, saneamento básico… Entre tantos outros desafios. 

Se as empresas possuem dezenas, centenas, milhares de vidas, de pessoas, sob sua gestão e poder de alcance, como colaboradores, fornecedores, consumidores – como ignorar seu potencial de ação e responsabilidade? Qual pode ser o papel das empresas em um Brasil em que 11 milhões de pessoas ainda são analfabetas, em que menos da metade da população (48,8%) concluiu a educação básica (até ensino  médio completo) ou em que somente 35% das crianças de 0 a 3 anos estão matriculadas em creches? (Dados do IBGE, 2019).

Na área da saúde, vemos uma crise de saúde pública em meio à pandemia, impactando em diferentes áreas, como aumento nos índices de desemprego, violência doméstica e dificuldades em relação à saúde mental. O Brasil já é o país com a maior taxa de ansiedade no mundo inteiro, segundo a OMS, e recentemente começamos a ver o engajamento de empresas nesta temática, o que faz muito sentido, afinal, onde passamos a maior parte do nosso tempo?

Não só é uma oportunidade para as empresas se envolverem, mas o momento requer que nenhum dos atores da sociedade se exima do seu papel e responsabilidade. 

Em Abril de 2020, antes do termo cair em uso (e logo em desuso), lançamos no Quintessa o Movimento “Novo normal”. Finalizo o texto de hoje reproduzindo trechos do manifesto que escrevemos na época.

Sempre preferi a abordagem da oportunidade, por ser mais palatável e convidativa, mas é tempo de conseguirmos enxergar a questão sobre estas duas outras óticas apresentadas aqui.

Estamos vivendo uma crise de escala global.

Pessoas estão morrendo, regiões estão vendo seu sistema de saúde colapsar, milhões de negócios e de empregos estão desaparecendo. Certamente falamos de um período que ficará na memória de todos nós. Mas qual lembrança desejamos ter sobre o que fizemos durante essa crise?

Este contexto nos trouxe para um modo de vida no mínimo diferente, que tem gerado incômodos, angústias, tristeza. E todos os dias esperamos notícias que indiquem uma perspectiva de quando o mundo irá “voltar ao normal”.

Mas o que é o normal, afinal? Para qual normal desejamos voltar?

Parece normal que 20% da população brasileira não tenha acesso à água para lavar as mãos? Que o acesso à saúde e educação de qualidade seja restrito a poucos? É normal que milhões de pessoas sintam fome, enquanto há tanta comida sendo desperdiçada? Que acompanhemos o aquecimento do planeta e a devastação das florestas sem alterar os meios de produção?

Não queremos voltar ao antigo entendimento de “normal”.

Ao achar normal não se importar com o outro e com o planeta, buscar o lucro a qualquer custo ou ter uma atitude passiva diante dos desafios do nosso país.

Por muito tempo, classificamos como “normal” o que acreditamos ser errado e como “diferente” o que acreditamos ser certo.

Que tal chamarmos de “normal” o que desejamos a partir de agora?

Temos a oportunidade de repensarmos a nossa forma de agir e propormos retornar a um novo significado de normal. 

O novo normal pode ser agirmos de forma integrada entre os setores e acreditarmos que a decisão individual pode fazer toda a diferença para o coletivo.

O novo normal pode ser nos reconectarmos com o nosso propósito e missão, valorizando o “como” se faz e gerindo negócios com base na parceria, na confiança e na transparência.

O novo normal pode ser colocarmos as pessoas no centro das nossas decisões, cuidando do nosso time, de quem nos relacionamos e de quem faz parte da nossa cadeia de valor.

O novo normal pode ser uma realidade mais justa, digna, com qualidade de vida para as pessoas e mais respeito ao meio ambiente.

Qual você deseja que seja #ONovoNormal? Como pode começar a construí-lo agora? 

Finalizo com um trecho da entrevista do Paulo Maluf, no Roda Viva de 1995, que ilustra bem a reflexão: o que fazemos e defendemos hoje, que provavelmente acharemos um absurdo daqui alguns anos?

Anna de Souza Aranha é diretora do Quintessa. Desde 2009, o Quintessa impulsiona startups que resolvem desafios socioambientais e realiza iniciativas que promovem as agendas de inovação, impacto positivo e ESG para grandes empresas, investidores, institutos e fundações. Texto publicado originalmente no blog do Quintessa.

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Negócios de impacto e filantropia: uma relação com muito potencial

O texto abaixo completa uma tríade de conteúdos sobre inovação aberta e startups de impacto: falamos sobre a lente de novos negóciossustentabilidade e hoje, falaremos sobre filantropia.

Até agora simplifiquei a comunicação, falando em startups de impacto, mas para o conteúdo de hoje vale conceituarmos o termo “negócios de impacto”: eles “são empreendimentos que têm a intenção clara de endereçar um problema socioambiental por meio de sua atividade principal (seja seu produto/serviço e/ou sua forma de operação). Atuam de acordo com a lógica de mercado, com um modelo de negócio que busca retornos financeiros, e se comprometem a medir o impacto que geram” (Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto, 2019). 

O ecossistema de negócios de impacto é também chamado de setor 2.5: uma referência à união entre características do segundo setor, de empresas privadas e marcado pelo foco em gerar lucro, e do terceiro setor, de organizações sem fins lucrativos com foco em gerar impacto socioambiental positivo.

Vou destacar três vertentes nas quais acredito que a relação entre recursos de filantropia e negócios de impacto tem muito potencial.

Negócios de impacto como ‘fim’

Venture philanthropy: filantropia para desenvolvimento de pipeline de investimento

Nestes tantos anos de Quintessa, já mapeamos e nos relacionamos com mais de 4 mil negócios de impacto. O que percebemos no dia a dia é refletido pelo número que o Mapa produzido pela Pipe Social traz: 73% dos negócios de impacto mapeados faturam menos que R$ 100 mil por ano ou ainda não faturam. 

Quando a Pipe realizou o Scoring de Impacto, um dos principais desafios identificados foi a “falta de oportunidade de investimento de alta qualidade com bons históricos (track record)”

Quando lançamos a nova edição do GUIA 2.5, produzido pelo Quintessa, na pergunta aberta que fizemos sobre qual tipo de auxílio externo gostariam de receber, diversas organizações (aceleradoras, incubadoras, etc.) responderam: trazer capital de filantropia para o setor para financiar as acelerações e captar mais recursos para atender mais empreendedores. Não à toa o título da matéria da Reset sobre o evento de lançamento do GUIA foi: “Ecossistema de impacto cresce no país — mas ainda precisa atrair a Faria Lima”.

Assim, se temos capital voltado para investimentos de impacto aguardando negócios maduros para ser alocado e temos negócios iniciais precisando de suporte para amadurecerem, qual tipo de capital pode destravar essa equação, viabilizando este suporte?

Foi de forma sincrônica que conheci o conceito de venture philanthropy e reconheci o que já fazíamos no Quintessa há anos.

Segundo a EVPA, “a Venture Philanthropy trabalha para fortalecer as organizações sociais, fornecendo-lhes recursos financeiros e apoio não financeiro, a fim de aumentar seu impacto social. A metodologia é baseada na aplicação de princípios de capital de risco, incluindo investimento a longo prazo e apoio prático a certos elementos de economia social”. As principais características incluem: Financiamento sob medida (escolhendo os instrumentos financeiros mais adequados a fim de apoiar a organização – grant, dívida, equity e instrumentos financeiros híbridos); Apoio organizacional (serviços de apoio com valor agregado a fim de fortalecer a resiliência organizacional e a sustentabilidade financeira); Medição e gerenciamento de impacto (medição e gestão do processo de criação de impacto social, a fim de maximizar e potencializar impacto). 

Um grande case que pode servir de exemplo é da In3Citi com a startup de impacto Nina, feito em colaboração com o Quintessa (descrito neste material)A In3Citi utilizou-se de recurso filantrópico para viabilizar a aceleração da Nina, o que fez com que a startup estivesse mais qualificada e madura para receber posteriormente um investimento em equity, o qual além de visar retorno em termos de impacto, visava também retorno financeiro. A parceria deu tão certo que já estamos em nosso quarto caso juntos: Eco Panplas, HY Sustentável e Solos.

Além de qualificar o pipeline de investimentos, é uma ação que gera impacto na ponta (no caso da Nina, cidades seguras para mulheres e para todos) e ao ecossistema, atuando no gap que pontuei acima.

Essa estratégia é descrita neste caso muito didático: “Investing for Impact: Ordinary Work for Extraordinary People”. Até o negócio se tornar lucrativo, a Unicus recebeu apoio de doações (grants) e posteriormente recebeu investimento em equity (participação acionária), sempre com apoio não financeiro de forma complementar:

Apesar de não ser um assunto muito comentado, isso é um tanto comum: a Vitalk, que realizamos a aceleração em 2017 e ajudamos a captar 8 milhões de reais do bolso de Venture Capital (com investidores como a Valor Capital) posteriormente, havia, nos seus anos iniciais, desenvolvido seus produtos com suporte de doações, como contam aqui.

Assim, o recurso da filantropia pode ser um grande aliado do recurso que busca retorno financeiro, o venture capital, criando um pipeline qualificado. A filantropia pode oferecer um recurso paciente e um espaço de experimentação que permite lidar com risco, para que depois venham outros “bolsos”.

Filantropia estratégica: filantropia para desenvolvimento de pipeline de parceiros de negócio

Um mesmo viés pode ser adotado para olharmos para as empresas. Aqui vou utilizar o conceito de Filantropia Estratégica, segundo este artigo: “a filantropia estratégica é caracterizada quando uma firma busca empreender esforços sinérgicos utilizando os recursos corporativos para resolver problemas sociais que estejam em consonância com os valores centrais e a missão da empresa. (…) Isso significa dizer que estão buscando atingir os objetivos de negócios também a partir das ações de filantropia”. 

Assim, empresas e organizações podem utilizar da filantropia como uma forma de gerar impacto positivo e também se relacionarem com novos parceiros de negócio, gerando valor à sua atividade core, consumidores e outros stakeholders.

Um exemplo é o case que realizamos com a BP, na qual, junto à Palladium, aceleramos a Beequal, um negócio que oferece espaço terapêutico para pais de crianças com desafios de desenvolvimento. Ter realizado a aceleração gerou impacto positivo na ponta, beneficiando pais e crianças, bem como qualificou um potencial parceiro para a BP no relacionamento com seus clientes.   

Um outro exemplo de parceria possível seria de uma empresa que trabalha com artigos de moda e viabilizasse a aceleração de negócios como a Rede Asta ou a Já Entendi, que poderiam capacitar mulheres de baixa renda costureiras que produzem artigos para sua coleção.

Por último, ressaltando o que disse acima, da filantropia como um recurso paciente e que permite lidar com risco, realizamos com o Instituto Vedacit o primeiro Mapa Cidades Sustentáveis, identificando ONGs e negócios que impacto que atuavam na temática – uma ação que ajuda a embasar o planejamento estratégico da empresa, no viés de inovação aberta e responsabilidade social corporativa.

Negócios de impacto como ‘meio’

Filantropia para contratar soluções que geram impacto positivo de forma qualificada, perene e escalável

Negócios de impacto também podem fazer parte de uma atuação filantrópica enxergando-os como meio – me explico: olhando as soluções que eles podem implementar e gerar impacto na ponta.

Uma ação que realizamos neste sentido foi a primeira edição da Plataforma Negócios pelo Futuro, com foco em soluções para o contexto de pandemia gerada pelo COVID-19. Ainda que os negócios selecionados pudessem ser analisados como potenciais investimentos, no caso, o capital mobilizado veio do bolso da filantropia estratégica, contratando as soluções dos negócios para que elas fossem oferecidas gratuitamente para os beneficiários na ponta, como relatado nesta matéria

Os negócios de impacto possuem soluções já prontas, qualificadas, com potencial de escala e sustentabilidade financeira – há um poder de multiplicação ao apoiá-los, pois eles poderão continuar gerando impacto para outras centenas de pessoas a partir do recurso alocado.

Por exemplo, dentro de uma estratégia de responsabilidade social de uma empresa para desenvolver a comunidade do entorno de sua sede, pode fazer todo sentido implementar a solução de um negócio como a Barkus para oferecer educação financeira, da Litro de Luz para dar acesso à iluminação pública, do Moradigna para oferecer mais salubridade às casas.

Vale mencionar que a boa prática é sempre partir de uma escuta ativa, do entendimento das demandas locais, e também que esta ação poderia estar ainda integrada à uma ação de mentoria dos executivos, na estratégia de voluntariado corporativo.

Cabem aqui duas observações. Uma é para não cairmos no pensamento de que o setor 2.5 é melhor do que o Terceiro Setor ou na visão de que um deve substituir o outro – acreditamos na visão de complementaridade, vendo os negócios de impacto, assim como as ONGs, como potenciais parceiros para implementação de projetos que gerem impacto positivo na ponta. 

A segunda observação é que por mais que estejamos falando de recursos de doação, muitas vezes essas relações se materializam na ponta por meio da emissão de uma nota fiscal – contratando a solução dos negócios e baseando a prestação de contas no impacto gerado, não na forma como o recurso foi alocado internamente.

Há tantos outros caminhos possíveis:

Uma empresa que trabalha com construção pode investir recursos filantrópicos no desenvolvimento de um bairro e na causa de cidades sustentáveis, beneficiando a cidade externamente, mas gerando valor ao negócio por meio da valorização imobiliária. 

Uma empresa que deseja atuar com a causa da educação pode investir recursos filantrópicos “dentro de casa”, beneficiando seus colaboradores e comunidade do entorno com soluções educacionais de negócios de impacto de educação e preparo técnico – e não apenas doando para projetos que não se relacionem com a sua operação.

Negócios de impacto como Prosas, Simbiose, Editora Mol e Arredondar, podem facilitar a empresa no direcionamento de benefícios fiscais e na mobilização de doações para causas.

Uma organização sem fins lucrativos, como é o caso da Fundação Lemann, pode viabilizar o desenvolvimento de edtechs e a implementação de suas soluções como uma forma de melhorar a aprendizagem de estudantes de escolas públicas brasileiras, com recursos filantrópicos, como está acontecendo em nosso programa em parceria.

Atuando de forma consistente, alinhada ao negócio, a filantropia estratégica pode também dar base à estratégia ESG da grande empresa. No início do texto falei como três abordagens distintas, mas a realidade é que o valor está na visão sistêmica, vendo negócio, sustentabilidade e filantropia como ações integradas de uma mesma estratégia, como foi muito bem pontuado neste podcast do GIFE.

Os negócios de impacto, dentro deste viés de serem “2.5” (dois e meio), navegam entre estes distintos bolsos, do 2.1 ao 2.9. Muitas vezes recebem investimento de venture capital, priorizando o viés for profit, por mais que gerem impacto positivo. Por outras vezes, recebem recursos de filantropia, priorizando o for impact, por mais que gerem retorno financeiro.

Espero que o texto tenha trazido clareza sobre o assunto, que vale para estratégias de filantropia de empresas e de pessoas físicas. Tendo lucidez sobre a enormidade dos desafios sociais e ambientais que temos ndo país, esse tipo de ação não só faz sentido em termos de negócio, como é extremamente necessária para que tenhamos uma realidade mais justa, equânime e de qualidade para todos.

Anna de Souza Aranha é diretora do Quintessa. Desde 2009, o Quintessa impulsiona startups que resolvem desafios socioambientais e realiza iniciativas que promovem as agendas de inovação, impacto positivo e ESG para grandes empresas, investidores, institutos e fundações. Texto publicado originalmente no blog do Quintessa.

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Como empresas podem unir impacto positivo à estratégia de inovação e novos negócios

Por muitos anos fomos educados a enxergar pela lente do trade-off: uma iniciativa deve ser focada em gerar lucro OU gerar impacto socioambiental positivo. Isso influenciou como segmentamos os tipos de organizações (terceiro setor ou segundo) e como avaliamos também iniciativas dentro das grandes empresas. Assim, ações relacionadas a impacto positivo e sustentabilidade foram comumente vistas apenas como custo e não como fonte de novos negócios. 

Nos últimos anos, e principalmente nos últimos meses, isso vem mudando. Conceitos como Valor Compartilhado, Capitalismo Consciente e Capitalismo de Stakeholders, além da ascensão do tema ESG, trouxeram diferentes lentes para enxergar o assunto. Ainda assim, na hora de tangibilizar iniciativas focadas em gerar lucro E gerar impacto, ainda há muita dificuldade – tanto pelo pudor em unir ambos aspectos, como pelo desconhecimento sobre caminhos para criar relações ganha-ganha.

Na frente de Programas em Parceria do Quintessa, vemos a geração de impacto positivo de forma integrada com a agenda de inovação e novos negócios. São vários caminhos possíveis que enxergamos para trabalhar sob a lente de impacto em programas de inovação aberta. Trazemos abaixo alguns exemplos.

Diferencial competitivo e redução de custos

Quando uma empresa de seguros de saúde contrata startups como Vitalk ou Telavita, que oferecem soluções de prevenção em saúde mental, podemos enxergar a ação como uma estratégia de redução de custos para a própria seguradora (investindo em prevenção, ao invés de ter despesas com sinistros) e como uma estratégia de retenção e fidelização de seus clientes, com benefícios que trazem um diferencial competitivo perante outras seguradoras. Ao mesmo tempo, o Brasil é o país com a maior taxa de ansiedade no mundo inteiro, segundo a OMS, e oferecer soluções como estas contribui positivamente para este grande desafio social do país (conectado ao ODS 3).

Novos negócios e relacionamento com o cliente

O exemplo acima se aplica a outras grandes empresas que têm sua atividade core conectada aos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, criados pela ONU em 2015). Empresas que atuam em saúde, educação, energia, mobilidade urbana, água e saneamento, moradia, serviços financeiros, longevidade, entre tantos outros segmentos.

Trabalhar com startups de impacto pode ser um ótimo caminho para ampliar sua oferta de serviços e produtos, ter novas formas de relacionamento com seus clientes e se adaptar a mudanças do mercado (como é o caso de companhias de aluguel de carros que passaram a incluir carros e bicicletas elétricas em seu portfólio, por exemplo). Vale mencionar também as marcas que explicitamente se conectam a causas, como o empoderamento feminino e a limpeza dos oceanos, para as quais o relacionamento com negócios de impacto pode ser um ótimo aliado para tangibilizar e trazer concretude para seu posicionamento.

Outro exemplo é de uma empresa que vende sabonetes para bebês. A empresa pode contratar soluções como da Canal Bloom ou Bellamaterna, com programas focados em orientação de pais e mães no cuidado das crianças, em uma campanha na qual, ao comprar o produto, o cliente pode participar dos seus programas. Uma ação como essa pode ser muito estratégica para a área de novos negócios, com maior retenção e fidelização de seus clientes por meio de um relacionamento contínuo e de médio prazo (e não apenas pontual), ao mesmo tempo que contribui com a causa da Primeira Infância.

Fidelização de parceiros do negócio e crescimento

Um outro segmento com muito potencial no tema é de empresas que têm como clientes, fornecedores ou parceiros, pessoas de baixa renda ou de baixa escolaridade. É o caso de empresas de cosméticos que operam por venda direta via revendedoras, empresas de bebidas que se relacionam com ambulantes ou pequenos comerciantes, empresas que possuem uma malha relevante de entregadores, empresas que se relacionam com pequenos agricultores, entre outros casos. 

No momento que a empresa contrata soluções como da Já EntendiTamboro ou 4you2, para capacitação profissional, ou da SmartMEI, para profissionalização financeira, ou da Barkus e PoupaCerto, para educação financeira, ela está criando diferenciais perante seus concorrentes, aumentando as chances de fidelização destes parceiros de negócio e reduzindo seus custos via redução de turnover dentro do grupo (o qual implica em custos de engajamento e treinamento destes parceiros), além de um potencial aumento de produtividade. Ao mesmo tempo, no Brasil temos mais de 10 milhões de microempreendedores, além dos claros desafios de acesso à educação e capacitação profissional, e apoiar seu desenvolvimento de forma consistente é também contribuir positivamente para o país. 

Outro segmento de alto potencial para realizar programas de inovação aberta que unam os aspectos de negócios e impacto é o de empresas que se relacionam com empreendedores, como plataformas de e-commerce e marketplaces, sendo eles seus clientes ou parceiros de negócio. Criar um programa de aceleração para desenvolver estes empreendedores pode ser uma ótima estratégia para fidelizá-los e aumentar suas vendas, além de ampliar o impacto gerado por eles na ponta.

Inclusão e ampliação de mercado

Por último, ainda dentro do viés de novos negócios, podemos abordar a questão de inclusão de grupos tipicamente excluídos, como é o caso das pessoas com deficiência. A Hand Talk é uma startup de impacto que desenvolveu uma tecnologia proprietária que traduz o português para a Língua Brasileira de Sinais. 

Quando uma marca de e-commerce ou uma companhia aérea contratam seu serviço e passam a ter um site acessível para pessoas surdas, como de fato aconteceu, elas não estão apenas incluindo essas pessoas, elas estão também ampliando seu mercado, pois milhões de novas pessoas agora poderão começar a consumir seus serviços.

Os programas realizados pelo Quintessa tangibilizam estes caminhos possíveis

Braskem Labs, ao mesmo tempo que apoia o desenvolvimento de startups que geram impacto socioambiental positivo a partir do plástico e da química, traz para as áreas de P&D, Economia Circular, Comercial e Marketing da companhia o relacionamento com potenciais parceiros, clientes e fornecedores. 

Aceleradora de Comunidades do Facebook, ao mesmo tempo que apoia  o desenvolvimento de líderes de comunidades focadas em gerar impacto socioambiental positivo, atua na ampliação e retenção de usuários dentro de suas plataformas (Facebook, Instagram e Whatsapp). 

CPFL na Comunidade, ao mesmo tempo que contribui para o desenvolvimento de seus clientes de baixa renda, por meio de soluções de negócios de impacto focadas em educação financeira e geração de renda dentro da temática de eficiência energética, atua na melhoria do seu relacionamento com seus clientes e também na potencial redução da inadimplência da sua operação.

Os exemplos acima mostram os benefícios para a agenda de novos negócios das grandes empresas, mas estes programas de inovação aberta focados em impacto tendem a contribuir também para a cultura organizacional, o posicionamento de marca perante o mercado e um maior engajamento dos colaboradores.

O mercado está mudando e a mudança da empresa pode começar pela dor ou pelo amor, pelo medo da perda/morte do negócio ou pela oportunidade de ganhar.

Quando há o medo de perder, a mudança pode vir por uma necessidade de adequação às novas demandas dos investidores, consumidores e colaboradores, adequação em termos de compliance (como a PNRS), garantia de insumos a longo prazo (como empresas de refrigerantes se conectarem à temática da água) ou participação de mercado (como empresas de produtos de higiene se conectarem à temática de saneamento básico). 

Neste texto focamos a argumentação do porquê trabalhar junto aos negócios de impacto pelo viés da oportunidade empresarial. Sabemos que apesar da 9ª posição na economia mundial, o Brasil também ocupa a 9ª posição em termos de desigualdade (dados de 2019) e está em 79º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH, 2018). 

A pandemia explicitou qualquer cegueira que pudesse ainda existir sobre o tamanho dos nossos desafios sociais e ambientais no país. Assim, iniciativas com esta abordagem não apenas têm um alto potencial em termos de negócio e retorno financeiro, mas são também necessárias.

Aqui focamos na abordagem de inovação e novos negócios. Enxergamos os negócios de impacto também como aliados na implementação de estratégias de sustentabilidade na operação das empresas e na realização de ações de responsabilidade social. Abordaremos em próximos textos outros caminhos possíveis para atuação de grandes empresas neste assunto. 

Anna de Souza Aranha é diretora do Quintessa. Desde 2009, o Quintessa impulsiona startups que resolvem desafios socioambientais e realiza iniciativas que promovem as agendas de inovação, impacto positivo e ESG para grandes empresas, investidores, institutos e fundações. Texto publicado originalmente no blog do Quintessa.