Tempo de leitura: 6 minutos

Durante o processo de elaboração conceitual e de construção da narrativa da edição do Academy desse ano ficou evidente para mim algumas características do Rock in Rio que são altamente inspiradoras e impactantes. O que um festival de entretenimento pode ensinar em relação a temas muito importantes e discutidos no contexto de negócios atualmente: alta performance, criatividade e Inovação, ambidestria organizacional, gestão da complexidade e ao modelo de negócios centrado na experiência?

Uma primeira característica primeira se evidencia no modelo de negócios e na forma como coloca em prática sua proposta de valor. Sabemos que as Organizações estruturadas no formato de plataformas representam hoje as marcas de maior valor de mercado e que mais tem se destacado no cenário global. Empresas como a Amazon, Google, Apple, Airbnb, Uber, adotam esse tipo de modelo e estão no topo do ranking. Elas criam o contexto, as referências e as delimitações dos seus próprios ecossistemas de valor e de ação. Isso só nos mostra o valor e o potencial estratégico a ser explorado nessa dimensão.

Inclusive em uma pesquisa recente da Accenture inclusive, aponta que o principal foco dos executivos tem se voltado na reestruturação de seus modelos de negócios e em como gerar inovação e valor no ecossistema de atuação . Podemos pensar em ecossistemas (ou mesmo plataformas) baseados em produtos, serviços, colaboração, conhecimento, economia compartilhada, etc… No caso do Rock in Rio, além de podermos observar essa característica de forma evidente, abre-se espaço para se pensar uma dimensão a mais: o poder transformador da experiência e como ela pode se tornar o fator orquestrador de toda a criação de valor e significado. Tanto que é comum ouvir a história do Rock in Rio dessa forma: como um festival de Rock se tornou uma plataforma de experiências.

Uma coisa a ser abordada no Academy desse ano é o quanto a experiência de entretenimento pode ter um poder de transformação muito maior que somente a finalidade de divertir. E como por meio dela é possível embarcar situações de autorreflexão, provocações contundentes, situações que favoreçam a empatia e a conexão, de expansão da consciência e dos sentidos, de imersão em novos significados e novas realidades. Se você nunca parou para olhar com atenção a mensagem e o propósito em cada um dos palcos (especialmente os novos desse ano), talvez nunca tenha percebido que há de forma proposital essas intenções e objetivos na programação do festival – desde o espaço da Nave (que leva a uma imersão introspectiva em si mesmo) ao palco New Dance Order (que provoca a experiência de um futuro “apocalíptico” que deve ser evitado no presente por meio de uma consciência mais inclusiva e responsável), isso fica muito evidente.

A ação de inovar continuamente nas experiências e de querer traduzir nelas um propósito mais amplo já é interessante por si só, mas ela ganha um poder a mais estratégico quando outras marcas parceiras e fornecedores embarcam junto na ideia. Quando isso acontece – um público altamente diverso, junto de astros e artistas, junto a outras marcas e fornecedores, compartilhando todos eles um mesmo contexto de experiências -, é que se tem uma plataforma de experiências em pleno funcionamento. E é aí que reside todo o seu poder.

Com qual profundidade e a partir de quais objetivos pensamos as experiências que queremos gerar para os nossos clientes e para o mercado de forma geral? Que impacto transformador desejamos incutir na comunicação, na interação, na experiência e na conexão que criamos com o nosso público? Seguir adiante nessa reflexão pode nos fazer repensar totalmente nossas ações, decisões e projetos.

Outra característica muito evidente no Rock in Rio é o quanto ele torna central em suas experiências ( e portanto na plataforma em si) um mesmo propósito. Sonhar por um mundo melhor é a mensagem principal que se ressignifica de diversas formas e modelos. Tudo o que se comunica, tenta de alguma forma reforçar essa mensagem. E é ela que convida tanto o público interno quanto o externo para fazer parte desse movimento que tem o seu auge nos dias do festival, mas começa muito tempo antes.

Essa capacidade de liderar a partir de um futuro que seja desejável pelo maior número de pessoas possível tem um impacto muito forte no presente. Não é a toa que os dois livros que embasaram a construção da narrativa do Academy desse ano posicionam exatamente isso. O Tribal Leadership e as 3 Leis do Desempenho de Dave Logan. Essas duas obras nos apresentam questões que são extremamente decisivas quando pensamos em Liderança inspiradora, construção do novo com alta performance e engajamento.

De forma resumida, Dave Logan conceitua 5 estágios de desenvolvimento das tribos. O conceito de tribo utilizado no livro tem muito mais a ver com grupos de pessoas que se conhecem e que interagem dentro de determinados contextos (o organizacional, por exemplo). Tem muito mais a ver com redes de interação, que se unem por algum motivo (compartilham o mesmo desafio de trabalho, meta, etc…) do que com tribos sociais (punks, góticos, metaleiros, etc).

De acordo com o livro também, a maior parte das Organizações está no estágio 3 (estágio de competição interna – I´m great, and you´re not). Entendo que uma boa parte das empresas mais modernas, startups e a “nova geração” tenha em mente a construção do Estágio 4, no qual se cria uma cultura compartilhada onde as divergências são reduzidas e se criam ambientes acolhedores e bacanas e onde os objetivos e ideais do grupo passam a ser mais interessantes e engajadores que os dos próprios indivíduos. Esse estágio ainda é a autoafirmação da tribo sobre as demais (We´re great, and they´re not).

Essa pode ser a afirmação de uma Organização em relação a outras, ou mesmo de uma área ou time em relação a outros da própria Organização – é o caso que normalmente acontece quando há um time interno (ou área) que se torna responsável pela Inovação (e que se enxerga como o “novo”, o “moderno”, e o restante da Organização é visto como o tradicional e o atrasado; eu particularmente já vi muito disso acontecer).

O objetivo de se passar do Estágio 4 para o 5 é a meu ver o ponto forte do Tribal Leadership e onde podemos explorar como uma proposta diferente dos discursos que estão mais “batidos atualmente”. No Estágio 5, deixa-se de pensar na separação entre grupos, tribos e culturas, e passa-se a buscar uma nova Visão de descoberta e de construção (a “Innocent Wonderment”), com o propósito universal de “Life is great”.

E é onde ser “uma Plataforma de Experiências” (“para TODOS que buscam uma experiência de arrepiar”), com o propósito de “construir um mundo melhor para pessoas mais felizes, confiantes e empáticas, num planeta mais saudável”, acaba fazendo todo o sentido e conexão – experiências que conectam e não que separam.

Mas qual o poder prático disso? Está justamente na capacidade de romper barreiras, de explorar o poder da diversidade, de unir diferentes tribos e de mobilizar dentro do próprio modelo de negócios algo que gere muito impacto nas pessoas, grupos, empresas, marcas e na sociedade.

Outro aspecto diretamente relacionado a isso está presente nas 3 Leis da Performance. Em resumo, elas mostram que a forma como a realidade é percebida, a forma como damos significado a ela e a forma como representamos o futuro em nossa comunicação têm um impacto direto no engajamento e nas iniciativas dos indivíduos e equipes (os membros da “tribo”).

O Rock in Rio torna evidente essas características em sua gestão e iniciativas empreendedoras. É um festival que cria referências, tendências e movimentos e que não se coloca abaixo de nenhuma estrela ou artista. Que humaniza as relações com o seu público e que tenta quebrar estereótipos e a visão de um persona “ideal” a qual se identificaria.

Pode ser afirmar que é uma organização ambidestra, capaz de ser flexível para explorar novas iniciativas disruptivas e ao mesmo tempo ser rigoroso com a excelência e com os resultados. Nas palavras dos próprios executivos do Rock in Rio, é um negócio capaz de unir “matemática” e “emoção” em suas operações, de integrar a estratégia e as ações de Marketing à operação de vendas a partir de uma orientação voltada a planejar e a gerenciar a “imprevisível” jornada da emoção e da experiência do seu público.

O propósito do RIR Academy (Live Case) é justamente o de poder traduzir em conceitos, métodos e aplicações todos esses elementos e características descritos acima, para que qualquer executivo ou empreendedor possa se inspirar e levar para o seu contexto de negócios novas ideias, cases e ferramentas extremamente poderosas e transformadoras. Para mim foi uma experiência muito impactante poder imergir no case Rock in Rio, interagir com seus executivos e ajudar a traduzir em conceitos e metodologias todas as suas experiências, reflexões e aprendizados.

Esse ano é possível acompanhar o Rock in Rio Academy ao vivo por streaming. Uma experiencia que no mínimo gerará diversos insights, novas perspectivas e aprendizados, além de provocações valiosas.

[shareaholic app="share_buttons" id="25714566"]
Receba novidades por e-mail.