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Convenhamos: o bom de eventos são os corredores. Sim, há palestras, sim, há stands, sim, há brindes e canetinhas e bloquinhos e sacolinhas e cafés e brigadeiros grátis, mas quem precisa de mais badulaques promocionais ou mais carboidratos? Quem precisa ver mais gente se autopromovendo ou promovendo a última versão de mais badulaques? Eu prefiro os corredores, prefiro puxar prosa com quem não conheço e, sobretudo, reencontrar velhos amigos de quem tenho saudade.

Pois é, sou sentimental. Houve um tempo (faz tempo) em que trabalhar com internet era uma aventura romântica que atraía gente de todo tipo, uma turma eclética movida pela mesma visão improvável: fazer a internet acontecer.

A internet aconteceu, o digital “chegou chegando” e se acelerou tanto que acabou atropelando quem arrastou esse piano por tanto tempo. A turma dos visionários perdeu o pé, se diluiu, cada um foi para um canto e a gente acaba se revendo assim, de passagem em grandes eventos. Boas risadas, bons abraços, nostalgia de tempos mais divertidos.

No último CIAB encontrei um amigo querido, veteraníssimo, daqueles que nem precisam de sobrenome pra sabermos quem é. Caminhando pela balbúrdia de stands e engravatados, ele me confessou algo assim:

“Faz alguns anos que não consigo enxergar além de cinco meses, e isso me angustiou muito. Cinco meses depois, nada tinha acontecido e eu só conseguia imaginar os próximos cinco meses, e depois mais cinco meses e assim tem sido há anos. Hoje desisti de enxergar à frente e não me angustio mais, não adianta.”

Rimos juntos.

Hoje, meses depois, li um belo artigo não sobre digital, não sobre blockchain nem lean nem apps nem scrum, mas sobre… prédios. O autor, o construtor Rafael Birmann, conta no artigo o que o levou a construir um edifício inovador, ousado e de grande impacto: visão. Visão de uma cidade mais humana, visão de um espaço público mais fecundo, visão de um futuro melhor, visão forte e teimosa o suficiente para resistir à mesquinharia das planilhas e métricas e índices e financistas e gente que se pauta unicamente pelas coisas que o Excel entende.

Se o construtor pensasse como muitos de nós “digitais” pensamos e corresse atrás de métricas e dashboards e sprints e resultados imediatos, construiria mais um prédio igual a todos os outros, assim como nós estamos cuspindo mais do mesmo sem parar. Como ele foi e é visionário e bancou essa visão, ele inovou de verdade, criando algo que vai mudar o futuro… com brick and mortar, e não com fumaças de bits e bytes. O artigo é inspirador, leia aqui: O Urbanismo Se Paga?

O IPhone mudou o mundo porque Steve Jobs ouviu o CFO? Os PC’s com Windows mudaram o mundo porque Bill Gates foi atrás do que os gigantes da época faziam e criou um copycat? Se a Amazon tivesse que ser rentável desde o início ela seria o gigante que é? Game of Thrones ou Star Wars foram criados por alguém que só acredita em hard numbers?

Dá pra pensar em uma lista imensa de marcos na história humana que nasceram não de cálculos conservadores ou de imediatismos ou da aplicação xiita do lean da Toyota, mas sim de visões de futuro, de sonhos grandiosos, de ideias arrebatadoras, e pensar nisso consola meu coração romântico mas também aumenta a angústia de quem se vê cercado pela fissura por métricas e planilhas e KPI’s e growth hacking e unicórnios e gurus de palco e impostores carismáticos e batedores de carteira irresistíveis.

Onde foram parar os visionários, os apaixonados, os criativos, os verdadeiros inovadores? Como eles conseguem respirar nesse mundo míope e pobrinho sem ousadia, sem coragem, sem paixão, esse mundo cada vez mais mecânico, cada vez mais maquinal, nesse mercado que tritura tudo o que é vivo e saboroso para transformar em salsicha e doritos? Eu preciso saber, e é por essas e outras que estou sempre pelos corredores procurando por quem ainda tem algum brilho nos olhos.


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