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Não, esse título não foi um truque baixo para atrair mais cliques. Sim, faria sentido imaginar que apelei ao mesmo tempo para algo “na moda” (cultura? #asminapira) e algo instintivo e agressivo (bônus? #osmanopira) para desviar a sua atenção de tantas outras coisas mais sexy palpitando nessas dúzias de abas abertas e apps. Essa suspeita faria sentido se o meu foco fosse algo tão imediatista quando page views ou cliques, mas palavra que esse não é o caso; o que estou fazendo aqui é lançar sementinhas esperando que alguma brote.

Se você acha que o mundo dos negócios é uma selva nem queira saber como é brutal a vida de um artigo. Agradar leitores é um desafio por si só, mas o drama agora é agradar algoritmos que só querem saber do que dispare reações intensas e que se espalhem feito incêndio. Para um autor pouco incendiário como eu, essa “seleção natural” darwinista do que é sensacional me condena à extinção.

Voltemos então ao tema Cultura x Bônus, pois as agruras de um articulista não comovem ninguém. Mexer no bônus, opa, isso é outra história, mexer no bônus é um assunto tão explosivo que é mais seguro divagarmos sobre a lenda da mudança de cultura (sim, lenda) porque cultura é sempre uma discussão palatável, mesmo que não passe de uma agradável perda de tempo.

Cultura é lenda? Melhor eu ser mais cuidadoso, posso levar tiro. Pasme, mas em algumas áreas do conhecimento, sobretudo aquelas mais rasgadas por rixas ideológicas profundas, esse é um tema tenso: uma trincheira acredita que nascemos em branco e que com a cultura correta seríamos pessoas maravilhosas, enquanto a outra trincheira acredita em uma natureza humana hereditária forjada pela evolução da espécie mas que pode sim ser alavancada para coisas nobres.

Quem acredita que seja possível mudar numa canetada a cultura corporativa para enfim nos transformarmos em funcionários ideais e eficientes pode não saber, mas está imaginando que sejamos um HD não formatado esperando por um sistema operacional perfeito. É um belo sonho, aliás… mas #sóquenão e só Darwin pode nos salvar dessa ilusão.

O bom de pensarmos em Darwin é que isso me dá a chance de recomendar um livro interessantíssimo, Minds Make Societies de Pascal Boyer, obra que nos ajuda a entender como a natureza humana funciona recorrendo não a filosofias ou crenças mas sim a algo tão básico e poderoso quanto a seleção natural.

Falar em seleção natural faz pensar em sobrevivência do mais forte, o que faz pensar no Animal Planet e em orcas estraçalhando foquinhas fofas ou em crocodilos trucidando gnus distraídos (no que tanto pensam os gnus, afinal?) ou no mata-mata do ambiente corporativo… mas calma, esse é um equívoco comum e o próprio Darwin titubeou e fez uma escolha ruim.

A expressão “sobrevivência do mais apto” ou do mais forte não fazia parte das primeiras edições da Origem das Espécies, o que a gente encontra ali é “seleção natural” e nada mais. Um colega do Darwin, o Alfred Wallace, achou essa história de “seleção natural” pouco impactante (um pré-marqueteiro, aparentemente) e sugeriu ressuscitarem um conceito mais apelativo mas meio nefasto do Herbert Spencer, o “survival of the fittest”, e digo nefasto porque Spencer acabou inspirando todo tido de ideias cruéis e ruins (de onde você acha que veio o Big Brother, afinal, ou os planos de carreira?).

Pois bem: competição #sóquenão. O que o Minds Make Societies tenta demonstrar é que a humanidade progrediu não através do embate sangrento ou de alguma variedade de mata-mata, mas sim graças à nossa capacidade de colaboração. Simples assim: somos uma espécie que colabora, somos uma espécie onde eu posso sair agora na rua, puxar prosa com gente que eu nunca vi, propor um plano que beneficia a todos e conseguir criar em grupo o que eu jamais faria sozinho. Só humanos fazem isso.

(Claro, eu poderia dar uma de viking e sair conseguindo o que eu quero na base da pancadaria, mas veja quanto tempo esse business model viking durou… não muito. Compare essa postura predatória com empresas de hoje que pensam em termos de parcerias, ecossistemas e inovação aberta. Viu só? Colaborar vale a pena).

Colaborar, porém, não é tão simples. Em primeiro lugar temos que criar as regras do jogo e colocá-las na mesa. Em segundo lugar temos que ter certeza de que todos vão seguir as regras, e aí começam cem mil anos de novela mexicana: como saber a priori se posso ou não confiar nos outros? Como saber se não estão fingindo? Como punir quem trai a nossa confiança? A história das culturas humanas é a história de como cada grupo resolveu a questão prática da confiança.

Ok, ok, outras espécies colaboram. Lobos colaboram com lobos, formigas colaboram com formigas, mas só a nossa espécie consegue colaborar com quem não é igual ou com quem não pensa exatamente da mesma maneira. Humanos criam regras do jogo, e #segueojogo desde que todos sigam as regras.

O equívoco nessa história de cultura é duplo: não precisamos pensar do mesmo jeito para colaborarmos e, pior ainda, forçar pessoas a pensar do mesmo jeito é pedir para ser enganado. O sonho da monocultura corporativa termina em pantomima, e nisso nossa espécie é infelizmente craque.

Quem aqui nunca ouviu um colega veterano comentar “lá vem mais uma modinha” ou “isso não vai dar certo mas vou fingir que acredito”? Eu já, em diversos endereços, e as modinhas variaram de virarmos japoneses do dia pra noite ou nos transformarmos todos em nativos do Vale do Silício. Ou em alemães. Ou em vikings.

Eu tenho uma tese: quer mudar o jogo? Mude as regras. Mude o bônus. Respeite quem pensa diferente. Promova a confiança. Mudar a mobília não basta, puffs coloridos não salvam ninguém. Nem bermudas.

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