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Em fevereiro passado, um primo me conectou com uma amiga dele, jovem profissional gaúcha, em busca de uma oportunidade de trabalho em São Paulo. Ao ler seu currículo, entendi que, entre 2004 e 2008, ela cursou Arquitetura e Urbanismo, obteve um certificado de Marketing Internacional em 2011, outro em Economia da Cultura, Gestão e Desenvolvimento em 2014 e concluiu seu bacharelado em Relações Internacionais no ano passado. Todos na UFRGS. Além disso, está cursando um MBA em Gestão Empresarial pela FGV, com previsão de conclusão em 2018.

Sua carreira profissional começou em 2006, com um estágio na área de planejamento urbano da Prefeitura de Porto Alegre.  Em 2007, começou um estágio de um ano num escritório de arquitetura gaúcho e, entre novembro de 2009 e março de 2010, foi trainee da Billabong, num programa de verão em Nova York. Em 2011, de junho a dezembro, trabalhou na área de desenvolvimento de negócios e planejamento estratégico da Proge – Gestão Empresarial, em Porto Alegre. Por último, em março de 2012, resolveu empreender e fundou um negócio social focado em projetos para capacitação e desenvolvimento de mulheres empreendedoras e profissionais, que ela gerenciou até janeiro desse ano.

Você acha que esse currículo passaria por todos os filtros e critérios de um processo tradicional de seleção? Se isso acontecesse, esse “perfil” de candidata chamaria sua atenção?

E se você pudesse conhecer a história que esse currículo não conta?

Você descobriria que essa jovem profissional foi mãe aos 16 anos, quando ainda estava no ensino médio do Colégio Militar de Porto Alegre. Muito cedo, aprendeu a lidar com pressão, gerenciar crise, priorizar tarefas e focar no longo prazo. A gravidez na adolescência não a impediu de continuar estudando. Ao contrário, ela saiu direto dos bancos escolares para a faculdade de arquitetura, onde desenvolveu habilidades matemáticas e de gestão de projetos, enquanto fazia estágios. E, embora fosse uma aluna exemplar nas disciplinas de exatas, ela achava que lhe faltava repertório para a parte criativa.

Como ser uma arquiteta medíocre não fazia parte dos seus planos, ela optou por migrar para o curso de Relações Internacionais, acreditando que essa mudança teria mais sinergia com seu potencial. Passado o primeiro ano de curso, foi para Nova York num programa de trabalho temporário, onde atuou como vendedora da Billabong, na Times Square. Ao final do programa, mudou de visto e estendeu sua temporada americana por mais um ano, aprimorando seu inglês.

Ao retornar ao Brasil, em 2011, passou por um curto estágio no Governo do Estado do Rio Grande do Sul e foi trabalhar na startup de um amigo que implementava sistemas ERP. Esse contato com o mundo da tecnologia e do empreendedorismo a fez perceber as barreiras de gênero que existiam na área. Em março de 2012, resolveu reunir um grupo de mulheres para falar do assunto “Mulheres nos negócios, empreendedorismo e carreira”. Achou que viriam umas 10, 15 mulheres. Vieram quase 100 e ali surgiu o Jogo de Damas, um projeto criado por ela que depois se tornaria sua empresa, com foco no desenvolvimento econômico e profissional feminino.

O Jogo de Damas nasceu sem ambições e foi se adaptando de acordo com as respostas do mercado, desenvolvendo produtos e serviços como programas de mentoria para mulheres, palestras, cursos, eventos e projetos com organizações como Google, Facebook, Dell, Liberty Seguros, PUC-RS, SEBRAE, Governo do Distrito Federal, Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, Dudalina, Melitta, entre outras.

Seus projetos impactaram diretamente as mais de 12 mil mulheres que estiveram presentes nos eventos promovidos no Nordeste, Centro Oeste, Sul e Sudeste do Brasil, bem como mais de 500 mil mulheres por meio de canais proprietários de comunicação digitais e redes sociais.

Por meio do Jogo de Damas, ela discutiu a agenda da mulher de negócios e mulher profissional em diversos lugares do mundo, como Nova York, São Francisco e Austin, nos Estados Unidos, Cidade do Cabo, na África do Sul, Berlim, na Alemanha, e Marrakesh, no Marrocos, quando palestrou para mulheres muçulmanas durante o Fórum Mundial de Direitos Humanos. Também ajudou a fomentar o debate sobre o tema no Brasil, em lugares tão diversos quanto um presídio feminino no Distrito Federal, uma escola secundária em Porto Alegre e eventos com lideranças internacionais em São Paulo.

Em virtude do seu trabalho, ela foi a primeira parceira brasileira do Lean In, ONG de Sheryl Sandberg, COO do Facebook, e foi escolhida embaixadora brasileira do Women’s Entrepreneurship Day. Também foi convidada a participar do evento anual dos Princípios de Empoderamento das Mulheres da ONU, em Nova York, bem como do II Seminário de Juventude e Política Internacional, promovido pela Secretaria Geral da Presidência da República, UNFPA (United Nations Population Fund) e Itamaraty.

Em 2015, foi apontada pelo Huffington Post como uma das 21 mulheres que estão fazendo do Brasil um país melhor e, em 2016, o jornal Correio do Povo a reconheceu como uma das oito mulheres pioneiras que transformaram a história do Rio Grande do Sul.

Depois de trancar a faculdade por quatro anos, ela se formou em Relações Internacionais no ano passado. Seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) foi uma análise de como a agenda de empoderamento feminino está inserida na estratégia de política externa, a partir do estudo de caso da Doutrina Hillary.

Ela encerrou as atividades do Jogo de Damas em janeiro desse ano e continua uma referência quando o assunto é liderança e empoderamento feminino, sendo chamada para eventos, palestras e TEDex sobre o tema. Começou seu MBA na FGV e está com tudo organizado para mudar com a filha, de 14 anos, para São Paulo. Só falta o emprego.

O que achou dessa história que o currículo não conta? Mudou sua percepção sobre a experiência e competências dessa jovem profissional?

Quantas empresas você conhece com histórico de tamanho impacto social em apenas cinco anos?

Você acha que o mundo corporativo está pronto para uma mulher com esse perfil empreendedor, brilho próprio e altíssimo grau de protagonismo?

Neivia Justa é jornalista, marketeira, empreendedora, mãe e lidera a Diretoria de Comunicação e Responsabilidade Social Corporativa da Johnson & Johnson Consumo para a América Latina.

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