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Entender quais são os meios e métodos mais eficazes de aprendizagem e como eles de fato impactam no desenvolvimento das pessoas e das Organizações sempre foi um desafio de difícil resposta. Estudos recentes de Harvard apontam que mais de 50% dos líderes seniores acreditam que seus esforços no desenvolvimento de talentos não resultam no desenvolvimento adequado das habilidades e capacidades organizacionais mais importantes para o negócio.

O desafio ganha novos contornos quando ouvimos célebres especialistas como Yuval Harari afirmarem que a principal habilidade a ser buscada não está mais relacionada a um campo específico do saber ou à capacitação em uma ferramenta nova, mas em como se manter aprendendo e mudando de forma permanente ao longo da vida. Isso sem falar da necessidade imperativa que estamos vivenciando nos últimos dias de termos que migrar nossas perspectivas e ações para os meios digitais.

Para todos que buscam o aprendizado na esperança de melhor se adaptara um futuro cada vez mais incerto, aprofundar-se nos mais recentes estudos e aplicações do campo da Educação Executiva pode proporcionar orientações valiosas e decisivas em suas carreiras e metas pessoais. Nesse artigo exploraremos um campo de estudos que ainda é novidade para muitos no Brasil, mas que está na linha de frente das discussões e aplicações mais atuais das Universidades, escolas de negócios e Organizações no mundo – a Heutagogia.

Conhecendo a Heutagogia – O termo foi criado por Hase e Kenyon em 2000¹. A heutagogia é originada de duas palavras gregas que conjugadas significam o “estudo da aprendizagem autodeterminada”. Para muitos ela é entendida como uma evolução do conceito de Andragogia, cujo objetivo principal é o de elucidar a forma como adultos aprendem. Enquanto o estudo da Andragogia se desdobra em como gerar contextos e elementos que melhor direcionem e potencializem o aprendizado – como, por exemplo, determinar quais conteúdos e temas são relevantes ao aprendiz, trabalhar desafios e problemas que se conectem a sua realidade, proporcionar experiências e práticas envolventes, entre outras iniciativas – a Heutagogia nos instiga a pensar em uma mudança radical do processo de aprendizagem.

No decorrer do artigo abordaremos três aspectos centrais da Heutagogia que valem a pena serem expostos de forma mais profunda e detalhada. Eles com certeza são do interesse de todos aqueles que buscam uma visão totalmente diferente das abordagens tradicionais de aprendizagem.

1) É importante entender que a Heutagogia não visa somente o desenvolvimento de competências, mas em especial o desenvolvimento de capacidades, sendo que estas últimas estão muito mais relacionadas com a habilidade de lidar com contextos e situações de alta incerteza e pouca familiaridade (veremos o que essa diferença significa mais a frente).

2) A sua prática está totalmente embasada no conceito de “Double Loop Learning”, o que permite pensar em processos de aprendizagem que sejam sempre autorrefletidos – os aprendizes não se dedicam somente a resolver cases, problemas e a aplicar os conteúdos em sua realidade, mas a refletir também sobre como se dá o seu envolvimento nessas experiências e como suas crenças e valores influenciam e determinam o processo como um todo, adquirindo, dessa forma, cada vez mais consciência de suas formas particulares de aprendizagem.

3) Na Heutagogia a relação entre tutor e aprendiz passa a ser pautada pelo total protagonismo concedido a este último. É o aprendiz quem determina seus próprios objetivos e caminhos de aprendizagem, sob uma orientação não impositiva do tutor. Vale lembrar que essa ideia do aprendizado autodirigido tem sua raiz na própria Andragogia², mas somente se torna um objetivo central de estudo na Heutagogia³.

Em síntese, a Heutagogia permite entender a verdadeira natureza da aprendizagem como um fenômeno complexo, rico, auto-organizado e de adaptação contínua. Mas antes de entrarmos mais a fundo em cada um desses aspectos, vale elucidar e desmistificar aqui algumas questões fundamentais relacionadas à aprendizagem que irão justificar inclusive a necessidade de imersão no campo da Heutagogia.

Lidando com os desafios reais de aprendizagem – A aprendizagem deve ser entendida como uma atividade complexa que envolve a conjugação de uma série de fatores. Tanto biológicos – os sistemas complexos de memória no cérebro, as emoções que percorrem nosso sistema límbico, a ação de neurotransmissores associados com a sensação de recompensa e satisfação, como a dopamina – quanto aqueles que são frutos de nossas habilidades cognitivas – a capacidade de assimilar e refletir sobre novos conteúdos, de criar, organizar e reelaborar padrões de pensamento, de pesquisar novos dados e fatos, de experimentar e testar ativamente ideias e hipóteses, e de interagir com os outros. Não ter a real compreensão desses fatores e de como trabalhar com eles nos processos de desenvolvimento é como navegar de forma desorientada em meio a uma tempestade. A imersão na Heutagogia nos permitirá entender como podemos orquestrá-los da melhor maneira possível.

Para começarmos essa imersão, trago aqui um conceito da Neurociência que nos dá um norte valioso, o conceito da neuroplasticidade⁴. Ele comprova que quanto mais nos envolvemos emocionalmente com algo novo, quanto mais utilizamos nossas habilidades sensoriais e imaginativas e quanto mais fazemos uso de algo que acabamos de aprender, maior é o número de sinapses que nosso cérebro é capaz de gerar. Isso independentemente da idade. “Assim, antigos e novos caminhos (neuronais) influenciam-se mutuamente de maneiras potencialmente dramáticas através de um processo surpreendente de ativação e associação (Khaneman, 2011)⁵”. Ou seja, envolver-se de mente, corpo e alma com qualquer tema ou informação nova é o primeiro passo que leva à aprendizagem eficaz. Poder entender o que proporciona esse estado e como incluir isso nas iniciativas de aprendizagem é a primeira preocupação da Heutagogia.

Outro componente crucial para a aprendizagem auto determinada funcionar é a motivação e a disposição do aprendiz de querer se envolver de forma ativa no processo de aprendizagem. Isso vale para os contextos presenciais e, em especial, para os digitais. Quanto nos colocamos a aprender algo que esteja realmente conectado com nossas motivações e anseios mais profundos, o processo de aprendizagem deixa de ser uma obrigação e uma “tarefa à parte”, e passa a despertar em nós um desejo genuíno de fazer parte dele.

É isso que a torna uma atividade prazerosa por si mesma e é esse o ingrediente necessário para o aprendiz se conectar e se envolver de corpo e alma no processo – justamente aí um neurotransmissor importantíssimo para a nossa motivação e sensação de realização entra em cena como um aliado indispensável, a Dopamina⁶. Sem ela, a nossa disposição tende a se tornar passiva e frugal. É o que tende a acontecer, por exemplo, quando nos deparamos com programas de formação já determinados, onde nossa participação e nosso horizonte de possibilidades se limitam apenas em consumir e experimentar conteúdos que são nos dado como prontos, nos restringindo a seguir regras e direcionamentos previamente estabelecidos.

É diferente de quando temos a oportunidade de definir ativamente com nosso tutor como será a nossa jornada de aprendizagem, e pactuar com ele como iremos avaliar nossos próprios progressos. São nesses casos que os programas de aprendizagem se tornam uma experiência viva e adaptável aos interesses genuínos do aprendiz. Todos os programas que tomam como base a Heutagogia assumem essa característica.

O papel central do aprendiz no processo de aprendizagem – Antes que se questione a viabilidade de colocarmos em prática a Heutagogia em nossas Organizações, vale reforçar um fato de suma importância no fenômeno de aprendizagem que, pesar de ser óbvio, é ignorado com relativa frequência. As associações que resultam no aprendizado acontecem sempre na estrutura cognitiva e emocional do aprendiz e não na do professor (tutor). Independente de como este último se esforce ou se reinvente para envolver o aprendiz na dinâmica de aprendizagem, a criação de significados será sempre um fenômeno particular e genuíno realizado pelo aprendiz.

Aulas, palestras e cursos espetaculosos podem causar extrema comoção e sensibilização no público, mas não necessariamente resultar em uma transformação real. O que normalmente acontece e que estamos cansados de testemunhar é toda a experiência ir se esmorecendo no decorrer dos dias seguintes até o status quo voltar a tomar conta. Na perspectiva do aprendiz, é possível, portanto, estar presente, interagir de forma ativa com todos os conteúdos e dinâmicas apresentadas, sair emocionalmente satisfeito, e, mesmo assim, não ter consciência clara do que foi aprendido de fato e de como dar sequência e destinação prática a todas as experiências que foram vivenciadas durante o processo.

Incorporar algo relevante e transformador requer algo que esteja além do próprio evento em si (seja ele presencial ou digital). Aprender não é algo causado diretamente pelo tutor, mas sim ocasionado pelas disposições e assimilações realizadas pelo aprendiz. Tudo irá depender da forma e grau de profundidade com que cada informação e atividade serão recebidas e processadas individualmente por cada um dos participantes. No final da história, a chave do processo está mais nas mãos do aprendiz do que nas do tutor, mas caberá sempre a este último saber orientar o aprendiz a como fazer melhor uso dessa chave… e é justamente ai que se tem o melhor encontro possível entre ambos.

Competências e Capacidades, um desenvolvimento que prepara para o futuro – O grau de transformação buscado pela Heutagogia fica mais evidente quando consideramos a diferença entre desenvolver competências e desenvolver capacidades. Competências podem ser entendidas como os blocos de construção fundamentais do processo de aprendizado. São essenciais e são pautadas pela habilidade do aprendiz de replicar conhecimentos e comportamentos em situações futuras. Desenvolvê-las de forma eficaz já é algo em si extremamente desafiador e é nelas que grande parte dos programas de desenvolvimento direcionam o seu foco.

As competências respondem bem a contextos e desafios que se assemelhem àqueles que forma trabalhados originalmente em seu processo de desenvolvimento. Portanto, quanto mais “conhecido” e incremental for o desafio, mais eficaz será a sua atuação; e esse é o ponto principal da questão: o mundo para o qual elas nos preparam para agir com eficiência não necessariamente será o mesmo que nos desafiará em um futuro próximo… e pensar de forma disruptiva e exponencial nos exige algo a mais do que ela podem nos proporcionar. É justamente aí que o desenvolvimento das capacidades entra em cena na Heutagogia.

As capacidades estão relacionadas com a habilidade em lidar com contextos e situações imprevisíveis e pouco conhecidas. Trata-se de se sentir capacitado e à vontade para construir novos caminhos e encontrar novos tipos de soluções. Em enxergar e desbravar novas oportunidades e construir o novo. Servindo aqui como um exemplo ilustrativo do que são, em um levantamento recente com mais de 1.200 executivos, a Deloitte sintetizou quais seriam as principais capacidades para a transformação digital que deveriam ser buscadas pelas Organizações. Vale a pena a leitura do estudo para conhecê-las em um nível maior de detalhes: ecosystem engagement, unified customer experience, data mastery, business model adaptability, intelligent workflows e flexible, secure infrastructure.

Capacidades como essas nos preparam para lidar com a complexidade de um mundo novo que surge, nos dando mais poder de visão, ação e criação. Elas adaptam e até mesmo modificam as competências que adquirimos em nossa experiência profissional, impedindo-as de se tornarem obsoletas. Competências e capacidades caminham juntas, da mesma forma que ambidestria organizacional e Heutagogia são dimensões confluentes.

Por fim, como as capacidades constituem-se como um atributo holístico, o seu desenvolvimento deve ser tratado também como tal. Para que a competência evolua para capacidade, é preciso, entretanto, que as pessoas tenham cada vez mais consciência do seu próprio processo de aprendizagem e possam avançar nele de forma autônoma e auto dirigida.

O transformador efeito da Heutagogia: a metacognição e o “double loop learning” – Enquanto a Andragogia toma como base uma estratégia de aprendizagem que parte da formulação de problemas e desafios conectados com a realidade do aprendiz, levando-o à ação e à reflexão de como chega aos resultados atingidos no processo, a Heutagogia considera um nível mais profundo e transformador. Seu alcance dá um passo a mais ao colocar no foco do processo de desenvolvimento todo o sistema de crenças e valores mais fundamentais que determinam os nossos próprios padrões de conhecimento. Esse processo é chamado de “double loop learning”.

Nele não olhamos somente para o que é dado como externo à nós, mas também a forma pela qual percebemos, processamos e criamos significado e valor a partir do que nos é dado. É o que permite ao aprendiz questionar suas próprias suposições no nível mais fundamental possível, tendo assim uma visão não só sobre o que se está aprendendo, mas também de como está aprendendo. Antes de determinar um problema a ser trabalhado e resolvido como parte do processo de aprendizagem – o que seria o caso do “single loop learning” -, ele nos obriga a pensar em como podemos nos envolver ao máximo como protagonistas desse processo… Ele nos deixa na liberdade de suspeitar dos métodos e conteúdos dados como prontos e de poder elaborar nossas próprias experiências de conhecimento.

Essa habilidade de observar e refletir sobre os próprios processos e experiências cognitivas e emocionais, a metacognição, é a essência do trabalho heutagógico. Por meio dela é nos dado a oportunidade de alcançar transformações muito mais profundas de Mindset e comportamento. Por sua natureza, essas transformações são sempre imprevisíveis e não lineares. Nascem espontaneamente dessa interação mais consciente e ativa no processo de aprendizagem e são, portanto, muito mais ricas, autênticas e transformadoras.

O papel do tutor e os ecossistemas digitais de aprendizagem – Para que tudo isso que foi visto acima funcione, o aprendiz deve ser convidado a fazer parte do processo de aprendizagem em todas as suas etapas, e isso inclui em cocriar a própria concepção do programa de desenvolvimento. Nesse sentido, o aprendiz deve se tornar cada vez mais expert em planejar o seu próprio processo de aprendizado. E nessa atribuição o apoio do tutor se faz fundamental.

Na Heutagogia, o papel do tutor é o de atuar como um guia, de forma análoga à função de uma bússola: ela não controla, nem determina o percurso a ser trilhado, apenas indica um norte. A escolha, a estratégia e o desenho da jornada de aprendizagem é feita pelo aprendiz. E nisso é possível ter ampla liberdade para conjugar todo tipo de recurso ou experiência que seja relevante.

Quando consideramos todos os recursos educacionais disponíveis ao aprendiz nos dias de hoje – desde cursos onlines (oferecidos pela Organização ou fora dela, como o exemplo dos MOOCs), plataformas sociais interativas e ferramentas de aprendizagem -, podemos pensar que cada indivíduo tem à sua disposição todo um ecossistema de aprendizagem.

Inclusive, o acesso estruturado a esses ambientes, denominados de forma mais elegante nos meios acadêmicos como “personal learning clouds” (PLC), foi apontado por Harvard como uma das principais tendências futuras da Educação: “O PLC permite a criação rápida e de baixo custo de universidades corporativas e programas de aprendizado interno da mesma maneira que plataformas como Facebook e Instagram facilitam a formação de grupos de discussão“.

Para incorporá-los e poder navegar em todo o seu potencial sem se perder em meio a tanta informação e recursos disponíveis, além de atuar como uma “bússola da jornada do aprendiz”, o tutor deve também assumir cada vez mais o papel de um curador desses novos contextos e ambientes. Por ser um novo papel, diferente daquele considerado pela Andragogia e pela maior parte dos cursos disponíveis no mercado e ofertados dentro das Organizações, exige a reinvenção do tutor e de suas habilidades e métodos.

De forma geral, como toda grande transformação, há resistências e dificuldades, mas os programas e iniciativas de desenvolvimento organizacionais que souberem incorporar todas essas dimensões heutagógicas discutidas nesse artigo, terão com certeza um protagonismo diferenciado nos dias que virão. Tanto na construção do novo e incorporação do disruptivo em seus negócios, quanto na execução de seus objetivos empresariais.

¹ Hase, S. and Kenyon, C. (2000), ‘From andragogy to heutagogy’.
² Knowles, M. S. (1980), Modern Practice of Adult Education: Andragogy versus Pedagogy.
³ A Heutagogia bebe na fonte também de certos princípios do Humanismo e do Construtivismo, pois compreende como as experiências anteriores, o contexto atual e o potencial em transformar as crenças e valores do aprendiz são importantes para determinar o seu envolvimento no processo de aprendizagem.
⁴ Doidge, N. (2007), The Brain that Changes Itself: Stories of Personal Triumph from the Frontiers of Brain Science
⁵ Khaneman, D. (2011), Thinking Fast and Slow.
⁶ Willis, J. (2006), Research-based Strategies to Ignite Student Learning: Insights from aNeurologist and Classroom Teacher

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