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Já vi esse filme. De tempos em tempos as nossas certezas sem mais nem menos perdem o pé, as águas ficam turvas, o ar enevoado, a gente perde o norte e, para piorar, temos que correr sem saber pra onde. Já vi esse filme.

Quando a primeira bolha da internet estourou foi assim, de uma hora para outra o futuro virou fumaça e o próprio passado, o passado recente de um mês atrás virou história antiga, coisa de filme preto e branco. Mudança de verdade é assim da água pro gelo, da lenha pro fogo, do boato pro escândalo, da euforia para a tragédia. Mudança só é linear ou exponencial nos sonhos dos ingênuos ou economistas, para o resto é trancos e barrancos.

Até então era fácil pensar, era fácil escrever, era fácil posar de sabido. O chão balançou, eu perdi o prumo e de uma hora para outra eu não sabia mais o que dizer. Eu, que sempre escrevi artigos como respiro, não sabia mais por onde começar.

Não conseguir escrever não quer dizer parar de pensar, pensar é a minha sina, e o remédio na época não foi nenhum psicotrópico ou estupefaciente (nem cerveja eu bebo) mas sim… começar a gravar de improviso minhas reflexões onde quer que fosse, e assim nasceu um dos primeiros podcasts do país, o Roda e Avisa, no ar ininterruptamente desde 2003 e com mais de mil episódios. Pois é, eu falo.

Na hora de escolher um subtítulo para o podcast criei uma frase sutil que é mais verdadeira do que nunca: porque falar é fácil. A frase é curtinha mas tem entrelinhas, sobretudo uma pitada de ironia com aqueles que falam maravilhas mas não entregam, e um bom complemento seria: difícil é falar com quem importa, ainda mais agora que os interlocutores são outros e não falam necessariamente a nossa língua. Pior: talvez não queiram falar conosco.

Eu ainda estava na Microsoft quando ficou claro que o foco não deveria mais ser o diretor de TI mas sim o diretor de marketing ou – novidade! – o diretor de inovação. Éramos todos experts em conversar com a turma de TI, mas falar com a turma de negócios era tão diferente que precisava de outro guarda-roupa (e de outro discurso, e de outro PPT, e de outros eventos). Eu vi e vivi isso de perto, e aprendi muito.

De lá para cá o assédio ao CWO, Chief Whatever Officer, é tamanho que todo comercial que se preza tem lá nos seus objetivos: falar com o C-Level, e falar com eles não é fácil. O que eles querem ouvir? O que os move? O que os comove?

A SAP me convidou, semanas atrás, a participar de um evento focado em Customer Experience. O tema me interessa, eu adoro me atualizar e fui para aprender, fui para ouvir. Ouvi, aprendi e, adivinhem, falei também. Comentei com os palestrantes (todos ótimos) o drama que é traduzir as virtudes de uma tecnologia de uma forma que fale ao coração de quem não é técnico, de quem não se fascina com tecnicices, e a conversa foi boa, pois o desafio é geral.

O aprendizado transformador, mesmo, ficou para o final: o CEO (um C-Level em carne e osso!) da Impecável, uma loja masculina no Rio, contou o impacto que a tecnologia teve no seu negócio. A palestra foi bárbara, foi uma aula riquíssima de varejo popular e comportamento do consumidor, e a cereja do bolo foi ouvi-lo dizer algo assim:

– Se me perguntarem por que eu adotei essa tecnologia eu respondo dizendo que só não adota quem é louco. Dá para viver sem smartphone? Dá, mas só um louco abre mão dele. Idem para essas tecnologias: eu seria louco se não embarcasse de cabeça.

Alguém perguntou o que eu gostaria de ter perguntado: e como você mensura o impacto nas suas vendas? Como você calcula o ROI?

A resposta foi algo assim:

– Não tem como, não dá para medir o efeito isolado. A questão é: ou eu fazia isso ou eu estaria hoje fora do jogo.

Taí: passamos o dia todo matutando como falar a língua do C-Level e ganhamos de graça essa aula magna. Quem só fala, fala, fala para o C-Level e não escuta o que ele tem a dizer, esse sim é louco e vai ficar fora do jogo.


* Um de seus projetos pessoais preferidos são as dicas de leitura no Leia, Vale a Pena: http://leiavaleapena.tumblr.com

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