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A história da criação de um novo mercado: Nubank

“O motor financeiro que gera a metade dos empregos do mundo está prestes a travar”, essa é a forma como Michael Schlein, CEO da Accion, uma ONG americana que promove inclusão financeira, se posiciona. Assim como a pandemia tem forçado micro, pequenas e médias empresas (MPME) a fecharem, muitas outras terão sérios problemas em reabrir.

De acordo com o Banco Mundial, MPMEs empregam mais de 50% da força de trabalho global, mas são frequentemente excluídas do sistema bancário formal, o qual é necessário para suas operações em bons e maus momentos. Enquanto estão impossibilitadas de operar, o impacto sobre cai na vida de milhões de pessoas que tem seus salários pagos por estes pequenos negócios. Mas mesmo antes da pandemia, a desigualdade de acesso ao sistema bancário já afetava bilhões de pessoas ao redor do mundo. Seja a total falta de acesso bancário ou pela impossibilidade de acesso ao crédito, estes não dispunham de qualquer engenharia financeira a seu serviço.

Através de uma outra visão, enxergamos essas pessoas e empresas excluídas do sistema financeiro de não-consumidores. Para diversas organizações, não-consumidores podem parecer um mercado não-atrativo em razão do seu modesto potencial de consumo, mas para inovadores criadores de mercado, como o Nubank, estes não consumidores significam uma grande oportunidade.

No início, era apenas um grande problema

A história do Nubank, diferentemente de várias histórias de inovadores criadores de mercado que temos estudado, começa quando seus fundadores experimentaram pessoalmente a dificuldade de acesso ao sistema de serviços bancários no Brasil. Nenhum deles poderia ser considerado “pobre”, mas perceberam que perdiam muito tempo no relacionamento com seus bancos, o que certamente também fazia parte da realidade de muitos outros brasileiros. Eles estavam certos.

Acontece que aproximadamente 45 milhões de adultos no Brasil sofrem com a falta de acesso a serviços financeiros. Explorando o problema mais a fundo, os empreendedores do Nubank que, mesmo aqueles que tinham o privilégio de acesso ao sistema financeiro, estão bastante insatisfeitos com os serviços que recebiam. Desde as altas taxas bancárias cobradas à quantidade de tempo que levavam para terem suas demandas atendidas para terem um simples serviço prestado, o que parecia ser o modelo de negócio para vários bancos o que levava a uma grande frustação de seus clientes. O setor bancário brasileiro é um dos mais burocráticos e caros do mundo e muito pouco competitivo considerando os cinco maiores bancos que dominam o mercado. O co-fundador do Nubank, David Vélez e seus colegas estavam convencidos que havia uma enorme oportunidade para a criação de um novo mercado que fizesse a experiência bancária simples e acessível. Nas palavras de outra co-fundadora, Cristina Junqueira, “Cada problema pode ser uma oportunidade para inspirar e ser solucionado através do empreendedorismo”.

É importante notar que as oportunidades de criação de novos mercados em países como o Brasil, com um PIB per capta de mais de R$ 34.000,00, geralmente pode parecer diferente do que as em países em extrema pobreza. Em países muito pobres o não-consumo é muitas vezes óbvio – porque muito poucos produtos e serviços são acessíveis, sendo que a grande parte da população não consegue ter acesso a eles. Em países, onde a economia é um pouco mais estruturada, uma grande parcela da população pode invariavelmente ter acesso a serviços como o bancário, mas por causa de várias barreiras encontradas, milhões permanecem como não-consumidores de vários serviços financeiros.

Como o Nubank mudou essa situação

 Como os mercados existentes são estruturados para atender a certos clientes de uma forma específica, as inovações criadoras de mercado, que viabilizam um modelo de negócios completamente novo para atingir os não consumidores, geralmente parecem impossíveis antes que empreendedores criem este novo mercado. A maioria dos feedbacks recebidos inicialmente pelos empreendedores do Nubank foram negativos, mas eles perseveraram. Intuitivamente eles focaram em alavancar sua plataforma tecnológica e buscaram um novo modelo de negócio para transpor típicas barreiras ao consumo: acesso, tempo, dinheiro e capacidade.

Acesso e Tempo

Antes do Nubank, no Brasil, era comum a necessidade da ida pessoalmente a uma agência bancária todas as vezes que você tivesse que resolver um problema relacionado a sua conta. Isso significava faltas ao trabalho, custos em transporte e a espera em longas filas esperando seu atendimento, com a esperança sempre que ao final tivesse seu problema resolvido. O Nubank se antecipou na remoção dessas barreiras colocando a interação bancária a partir do seu smartphone como sua principal estratégia. A empresa permitiu aos seus clientes a criação de contas, requisição de linhas de crédito e a solução de uma enorme variedade de questões apenas a partir de seus smartphones. Dessa forma, as pessoas conseguiam economizar seu tempo e aumentar seu acesso aos serviços bancários.

Capacidade

Em países onde a infraestrutura de acesso ao histórico de adimplência é existente e confiável, é extremamente fácil conseguir acesso ao crédito, o que possibilita milhões de pessoas se plugarem ao sistema. No caso do Brasil, como acesso ao histórico de crédito é bastante burocrático e, nem sempre confiável, as pessoas têm que desenvolver seu próprio modo, ou capacidade, para comprovar que são confiáveis e merecedoras. Geralmente, é necessário conhecer as pessoas “certas” e descobrir por si próprios como acumular, avaliar e garantir seus ativos e ainda estimar qual é a melhor taxa de juros que se adequa a sua realidade e capacidade de pagamento. O Nubank removeu essa barreira para seus clientes através do desenvolvimento de um novo modelo de pontuação de crédito, um método baseado em data science através da interação com os smartphones de seus clientes.

Dinheiro

Dinheiro ou capacidade financeira é de longe uma das maiores barreiras ao consumo. O Nubank removeu essa barreira através da não cobrança de taxas bancárias (até esta data os clientes do Nubank já economizaram quase R$ 8 Bilhões de reais em taxas). Além disso, as taxas de juros dos cartões de crédito do Nubank giram entre modestos 2,75% a 14%, bem abaixo dos que os 14% a 26% cobrados pelos bancos tradicionais.

A prosperidade trazida pelo impacto do Nubank

Neste momento, o Brasil é um dos países mais afetados pela pandemia do coronavirus. Em um momento em que brasileiros – e a comunidade global em sua maioria – sofrem para sair desta crise, é necessário que todas as pessoas tenham acesso garantido e seguro a linhas de crédito e outros serviços financeiros. Com este intuito, o Nubank já promoveu um enorme impacto. Dentre os seus 26 milhões de clientes, aproximadamente dois milhões ganham menos do que um salário mínimo, o que indica que a empresa teve êxito em garantir acesso bancário de forma simples e barata para todos.

Uma das principais características das inovações criadoras de mercado é que elas criam abertura para que novos empreendedores e investidores participem no novo mercado, levando um aquecimento da atividade econômica que resulta ao final na geração de novos empregos, infraestrutura e receita tributária. Apenas o Nubank emprega hoje mais de 2700 pessoas e, assim que outros players entram no mercado, muitos outros empregos podem ser criados. Além disso, desde a criação do Nubank, o mercado de fintechs no Brasil tem crescido rapidamente. Existem hoje cerca de 740 fintechs, comparados com apenas 200 em 2016.

A história do Nubank está ainda sendo escrita, uma vez que a empresa tem apenas sete anos de criação, mas seus fundadores já tem no seu radar o potencial de atingir mais de 250 milhões de latino-americanos que permanecem sem acesso bancário. Na visão e nas palavras de David “o livre acesso bancário para a América Latina”. Eles estão no caminho certo.

Efosa Ojomo é Pesquisador e Senior Fellow no Clayton Christensen Institute.
Tradução e adaptação: Christimara Garcia, fellow volutária no Clayton Christensen Institute.

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O esgotamento mental causado pela busca desenfreada pelo sucesso

Obter sucesso na carreira – e com ele, alcançar também a estabilidade financeira – é o que todo jovem almeja quando começa a pensar no futuro. E se antes já havia uma pressão da sociedade para que isso acontecesse, ultimamente, com a geração Millennial, essa pressão parece ser ainda mais forte.

Dados apontam que os Millennials se sentem mais pressionados do que as outras gerações a serem bem-sucedidos e 67% deles afirmam que sentem uma pressão “extrema” para que tenham sucesso na carreira. Tudo isso pode ser reflexo de uma sociedade que os define como fracassados caso não se tornem artistas de sucesso, empreendedores ou CEOs de startups até os 25 anos.

Mas a busca desenfreada para alcançar o êxito em sua profissão é uma preocupação da maioria das pessoas, independente de cargo ou geração. Você pode estar trilhando um caminho para conseguir uma promoção ou enfrentando desafios para que seu negócio dê bons resultados, mas uma coisa é certa: sempre existirá uma pressão sobre você dizendo que precisa fazer mais!

Isso sem contar com a cultura organizacional de muitas empresas – que está caindo em desuso, mas ainda existe – que associa longas jornadas de trabalho e outras práticas tóxicas ao sucesso. Trabalhar o dobro pode até te garantir bons resultados, mas pode também custar sua saúde mental. Será que vale a pena pagar esse preço?

O esgotamento que pode acabar com sua saúde mental

A saúde mental tem sido um dos temas mais debatidos nos últimos tempos, seja na internet – por meio de notícias ou nas redes sociais – ou dentro do seu ambiente de trabalho. Todos têm falado as mesmas coisas e buscado alternativas para manter a mente sã e salva.

Não é à toa que muitas empresas, hoje, invistam em mindfulness, e algumas estão até colocando psicólogos à disposição de seus funcionários para que eles tenham um momento de terapia durante o expediente quando precisarem.

Apesar de defenderem que mindfulness e outras técnicas de meditação trazem bem-estar, reduzem o estresse e ajudam a melhorar a concentração e a produtividade de seus funcionários, a discussão em torno da saúde mental é mais profunda e tem muito a ver com saúde organizacional. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é líder mundial em transtornos de ansiedade e ocupa o quinto lugar em taxas de depressão.

As causas podem ser provocadas por vários fatores, entretanto, estudos apontam que um deles pode ser associado ao esgotamento e ao estresse gerados em um ambiente de trabalho tóxico, que também conhecemos como Síndrome de Burnout.

Ressignificar o sucesso promove a saúde e o bem-estar

No Brasil, cerca de 32% dos profissionais sofrem com estresse e esgotamento nas organizações. Em 2017, a Previdência Social apontou que os transtornos mentais ficaram entre as 10 principais causas que têm afastado muitos trabalhadores de seus cargos. Episódios depressivos geraram 43,3 mil afastamentos e transtornos ansiosos também apareceram na lista, na 15ª posição.

A busca pelo sucesso – seja para alcançá-lo ou mantê-lo – pode fazer com que você deixe sua saúde de lado e acabe sofrendo alguns desses transtornos. Arianna Huffington, fundadora do The Huffington Post, CEO da Thrive Global e autora de 15 livros, alcançou o sucesso na sua carreira e se viu vítima dele.

Ela, que foi eleita pela Revista Time como uma das 100 mulheres mais influentes do mundo, afirma que a cultura de que devemos trabalhar demais para progredir tornou-se um problema global e hoje luta para mudar esse mindset dentro das empresas, mostrando que o bem-estar de seus funcionários pode ser a maior vantagem competitiva do futuro.

“Agora temos muitas evidências, e muitos dados, que mostram que quando estamos esgotados, não tomamos as melhores decisões. Não operamos do lado mais sábio de nós mesmos e muitos líderes estão começando a perceber isso”, afirmou Huffington em entrevista.

Em 2007, Arianna teve um colapso causado pela exaustão, quando desmaiou em sua própria mesa e acordou sobre uma poça de sangue e com a maçã do rosto quebrada. Foi aí que ela percebeu que algo estava errado. Após passar por essa experiência traumática, resolveu escrever dois livros, Thrive e The Sleep Revolution, baseados em pesquisas científicas que constatam que o bem-estar cria pessoas para serem bem-sucedidas. E Huffington está determinada a usar a ciência e os dados para provar seu ponto de vista:

“Quais são os gatilhos de estresse que levam a problemas maiores como doenças cardíacas e diabetes? Setenta e cinco por cento dos custos e problemas de saúde são causados por doenças relacionadas ao estresse e que poderiam ser evitadas. Isso é enorme se você olhar para o fato de que a maioria das empresas têm custos crescentes com saúde. É por isso que é importante medir o impacto que estão tendo.”

Huffington ainda afirma que “quando cuidamos de nós mesmos, somos mais eficazes, somos mais criativos e temos mais sucesso em uma definição ampla da palavra”. Talvez o grande desafio para as próximas gerações seja a construção de uma nova cultura que tire o foco dessa luta desesperada cujo objetivo é o alcance de dinheiro e poder, ressignificando a definição do sucesso para algo que traga prosperidade, e que tenha como principal objetivo estimular uma vida saudável, que abra as portas para mais significado, propósito, alegria, paz e bem-estar.

Natália Fazenda
Área de Conteúdo da HSM

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Chinnovation: investimentos no Brasil e relação com o mercado ocidental

Após a grande ascensão econômica que ajudou a China a se tornar o novo centro de inovação mundial, uma das estratégias do governo chinês para conquistar o mercado global foi construir uma relação mais próxima com o mercado ocidental, visto que uma boa parte da causa do seu crescimento econômico nos últimos anos tenha ocorrido graças às exportações, onde os EUA eram – e ainda são – seu maior mercado.

Segundo o relatório global de exportação, só em 2017, a República Popular da China vendeu US $ 2,272 trilhões de mercadorias em todo o mundo. Esse valor em dólar reflete um ganho de 2,8% desde 2013, um aumento de 8,3% de 2016 para 2017.

Com base nas estimativas do World Factbook da Agência Central de Inteligência (CIA), os produtos e serviços exportados da China representam 19,6% da produção econômica total chinesa ou do Produto Interno Bruto.
Quase metade (48,5%) das exportações chinesas em valor foram entregues a outros países asiáticos, enquanto 22% foram vendidas a importadores norte-americanos. Além disso, o país ainda despachou outros 18,9% para clientes na Europa, 4,2% para a América Latina (excluindo o México), e ainda teve 4,1% do total de produtos exportados chegando à África.

Falando em África, o presidente da China anunciou recentemente em uma cúpula com chefes de Estado africanos, em Pequim, que a região receberá US$ 60 bilhões em investimentos do governo e de empresas chinesas em 2019.

“Os países africanos já reconhecem a sua imensa deficiência em infraestrutura (algo na casa dos US$ 70-120 bilhões ao ano), e receberam muito bem o dinheiro chinês”, diz Stephen Yeboah, fundador da Commodity Monitor.

Investimentos no Brasil

Além de estreitar seu relacionamento com os EUA ao longo dos anos – após a criação de acordos tentando amenizar uma possível guerra comercial entre as duas potências –, a nação oriental viu no Brasil uma boa oportunidade para expandir seu mercado.

Entre 2007 e 2009, já havia um fluxo significativo entre o comércio brasileiro e chinês. Porém, a China ainda não via grande relevância em aplicar no país. Em 2010, esse cenário começou a mudar. Importantes empresas chinesas anunciaram investimentos em grande escala no Brasil, fazendo com que nesse período, até 2015, o valor aplicado fosse de US $ 37,1 bilhões.

Inicialmente, a China priorizou o investimento em atividades diretamente ligadas a commodities, que representam a maior parte das exportações brasileiras para o país asiático. Um exemplo é a compra de 40% das operações brasileiras da empresa espanhola Repsol pela estatal chinesa Sinopec, pelo valor de 7,1 bilhões de dólares, afirmando ainda mais sua presença em investimentos na América Latina.

De 2017 para 2018, o número de investimento chineses em projetos brasileiros apontou um aumento significativo de um para nove, segundo o Boletim sobre Investimento Chinês no Brasil, publicado pelo Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão. Este mesmo relatório ainda aponta que nos últimos 15 anos, a China investiu US $ 126,7 bilhões no Brasil em 262 projetos. Somente em março e abril, os investimentos chineses no maior país da América do Sul totalizaram US $ 992,7 milhões, aplicados a seis projetos diferentes nas áreas de petróleo e gás, máquinas e equipamentos, educação, comércio e varejo.

O crescimento destes investimentos pode ter como fator principal a grande recessão sofrida pelo Brasil no final de 2017, dando início à crise econômica que afeta o país até hoje. Por isso, essas aplicações por parte do governo chinês representam uma grande oportunidade de desenvolvimento econômico. Enquanto que, para a China, é uma oportunidade de garantir o acesso a recursos naturais.

“O Brasil está tentando sair de uma enorme crise fiscal e nossa capacidade de investir está muito comprometida”, afirmou Luiz Augusto de Castro Neves, presidente do Conselho Empresarial Brasil-China, uma organização sem fins lucrativos com sede no Rio de Janeiro, com quase 80 empresas afiliadas brasileiras e chinesas. “Se dependesse de nós, não nos recuperaríamos tão cedo. Nesse sentido, o investimento chinês pode ser fundamental para acelerar a recuperação econômica do país.”

Para 2019 o que se espera de ambos países é que estes investimentos, assim como o relacionamento entre a China e o Brasil, cresçam ainda mais!

Natália Fazenda
Área de Conteúdo da HSM

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Chinnovation: por que o gigante vem ganhando cada vez mais atenção no cenário de negócios mundial?

No exato momento em que este texto foi escrito, 29/12/2018, ao digitarmos “China” na aba de notícias do Google, dos 10 resultados iniciais, 7 se referiam à presença do país como potência econômica e de negócios no mundo.

Definitivamente é a vez dela! Mas antes de falar o porquê de a China estar em todos os lugares, de assuntos ligados à economia até inteligência artificial, vamos tentar entender um pouco sobre sua sociedade e cultura, que, naturalmente, são bem diferentes das dos países ocidentais, além de serem relevantes para entender melhor todo o cenário em que esse país se encontra atualmente.

A China é hoje uma das maiores potências socioeconômicas do mundo. O país mais populoso do planeta, com mais de 1,38 bilhão de habitantes, tornou-se a segunda maior economia do mercado, é considerado o maior exportador e o segundo maior importador de mercadorias.

Como isso aconteceu tão rapidamente?

Uma das civilizações mais antigas do mundo, a China tem muita história para contar. Entre guerras, dinastias e revoluções, muito aconteceu e fez com que o país se tornasse uma das potências mais importantes da atualidade. No entanto, uma das reformas mais significativas foi a mudança de uma economia centralizada, cuja produção era controlada pelo Estado, para uma economia mista, em 1978, com o chamado Gaige Kaifang, movimento chinês de reforma econômica que deu os primeiros passos para a constituição do gigante econômico que conhecemos hoje.

Segundo o professor e especialista em análises políticas Joshua Muldavin, essa modificação foi a principal causa do crescimento econômico chinês. O Partido Comunista desacelerou o controle governamental sobre a vida dos cidadãos e muitos camponeses receberam múltiplos arrendamentos de terra, causando aumento de incentivos e da produção agrícola. Aos poucos, o país foi se tornando um mercado cada vez mais aberto, com um sistema que o Partido Comunista da China oficialmente descreve como “socialismo com características chinesas”.

Ademais, a China também é conhecida por sua mão de obra extremamente barata, razão pela qual os produtos chineses conseguem ser comercializados a custos baixíssimos no mercado. Isso se dá devido ao grande número de pessoas que não querem trabalhar na agricultura, fazendo com que os chineses busquem trabalho nas indústrias, onde a grande concorrência por posições de trabalho no setor resulta em salários mais reduzidos.

Investimentos em tecnologia e inovação

Outro fator que tem alavancado a China no mercado internacional é sem dúvida o pioneirismo na inovação. Houve uma época, não faz muito tempo, quando produtos que vinham da China eram vistos como malfeitos ou considerados cópia barata de outros produtos do mercado. Isso acontecia principalmente no desenvolvimento de celulares, só que agora quem tem criado os modelos mais tecnológicos são os chineses.

Prova disso é que em 2018 a empresa Huawei superou a Apple e garantiu o lugar de segunda maior fabricante mundial de smartphones. Só no segundo trimestre do ano, a marca vendeu cerca de 351 milhões de celulares no mundo todo.
Dominando tanto o mercado da China, quanto o da Índia, outra empresa que tem chamado a atenção no desenvolvimento de smartphones é a Xiaomi. Lançada em 2011, hoje a marca é a quarta maior em smartphones no mundo e pretende crescer ainda mais em 2019.

Além disso, a Forbes publicou em junho de 2018 o Global 2000, listando as maiores empresas públicas do mundo. Das 10 primeiras, pelo menos 5 são empresas chinesas.

Esses números serviram de alerta para as gigantes de tecnologia dos Estados Unidos — Facebook, Apple, Amazon, Netflix e Google — que agora têm concorrentes à altura. Para cada uma delas há um equivalente chinês emergindo no mercado: Baidu, Alibaba e Tencent, entre outras, mas a tendência é que esse número aumente ainda mais nos próximos anos.

A nação asiática, que foi durante muito tempo conhecida como o país da imitação, tornou-se um dos líderes mundiais em tecnologia. De acordo com esse relatório, só em 2011 foram mais de 100 milhões de dólares investidos em pesquisas e desenvolvimento nas áreas de ciência, tecnologia e inovação.

“Os chineses perceberam que, na era tecnológica, o caminho mais curto para crescer é apostar em três frentes: inovação, inovação e inovação”, afirmou Eduardo Tancinsky, consultor especializado em tecnologia. “No século 21, nenhuma nação passou por uma transformação tão drástica quanto a desencadeada agora pelos chineses.”

Eduardo tem razão. Ciência e tecnologia são assuntos sérios para os chineses, que enxergam os investimentos nessa área como essenciais para o crescimento econômico do país. As principais empresas de tecnologia são deles, os maiores centros de inovação também. Marcas como Huawei e Lenovo se tornaram líderes mundiais em telecomunicações e computação pessoal, além disso, os supercomputadores chineses estão classificados entre os mais poderosos do mundo, chegando a ultrapassar os dos Estados Unidos em 2017.

“O futuro pertence à China”, afirmou Lei Jun, fundador da fabricante chinesa de celulares Xiaomi, em um seminário que aconteceu recentemente em São Francisco, nos Estados Unidos, e resumiu em uma frase o que está por vir: “Quem não enxergar isso estará fora do jogo nos próximos anos”.

Então é melhor começar a se preparar!

Natália Fazenda
Área de conteúdo HSM

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As previsões feitas por grandes líderes da década de 1990 sobre as empresas de 2020

As previsões feitas por grandes líderes da década de 1990 sobre as empresas de 2020

Parece que 1999 foi ontem, mas logo vamos completar 20 anos no novo milênio. Às vezes, fica difícil aceitar que os anos estão passando cada vez mais rápido e mudando de forma mais ágil a cada segundo devido às inovações e aos avanços tecnológicos que impactam o mundo.

Mas é voltando ao passado que temos a chance de enxergar o futuro mais claramente. Em 1997, em uma matéria da revista HSM Management, líderes de grandes empresas da época como Walter Kiechel III, ex-editor da revista Fortune; Richard A. Goldstein, chairman da Unilever nos Estados Unidos; Peter Senge, diretor do Centro de Aprendizado Organizacional da Sloan School, do MIT; Richard F. Teerlink, presidente da Harley-Davidson, entre outros executivos, debateram os cenários e as mudanças organizacionais que afetariam as empresas em 2020.

Já praticamente encerrando este ano 2018, podemos dizer que 2020 está batendo a nossa porta. Será que há 20 anos esses líderes conseguiram fazer previsões que estão sendo colocadas em prática hoje em dia? O que se concretizou desde então? Quais mudanças impactaram o mercado? É isso que vamos analisar agora!

Tecnologia

“Toda mudança dentro das empresas será consequência das transformações tecnológicas e do avanço da internet.”

Em 1997, a internet banda larga ainda dava seus primeiros passos, não existia smartphone, nem redes sociais e os computadores ainda eram de tubo. Mesmo assim, essa afirmação de Jim Manzi, ex-presidente da Lotus Development Corporation, foi certeira naquilo que vivemos atualmente em muitas empresas.

A tecnologia se tornou parte essencial de nosso dia a dia e mudou o mercado, o comportamento do consumidor, o marketing, além de ter promovido outros momentos de disrupção que marcaram o novo milênio.

No mesmo artigo, outro executivo mostrou certo receio de que os avanços tecnológicos chegassem a afastar as empresas de seus clientes, mas hoje, graças à internet, às redes sociais e à tecnologia, as organizações têm o poder de construir um relacionamento muito mais sólido e próximo de seu público. Tal cenário mudou completamente o mercado nos últimos anos.

Transformação organizacional

“Aos poucos fomos adquirindo conhecimentos e estruturas que já não funcionam mais. Como fazer para desaprender práticas passadas?”
Nessas previsões, a maioria dos líderes concordou que as organizações ágeis, com maior capacidade de adaptação às mudanças, seriam as mais bem-sucedidas nos próximos anos. De fato, um dos fatores que ajudaram muito nesse processo foi a transformação da estrutura organizacional dessas empresas.

Poder descentralizado, maior capacidade de dialogar com sua equipe, organização em rede e não hierárquica, aprender a assumir os erros, valores associados à missão e à liderança das empresas, todos esses pontos que hoje fazem parte da cultura de muitas startups foram citados como o novo modelo de organização do futuro.

Nova potência econômica mundial

Por muitos anos, os Estados Unidos foram sinônimo de potência econômica mundial. Atualmente, o país tem perdido espaço para a China; Kiechel já havia feito essa previsão em 1997. Como isso pode mudar no mercado e nas organizações? Mike Harris acrescentou um ponto de vista interessante para se levar em consideração.

“O conceito de organização é influenciado pela potência econômica dominante da época. Já fomos todos influenciados pelos norte-americanos, se a China realmente for a maior potência em 2020, a maneira como os chineses conduzem os negócios pode influenciar o futuro.”

Então é bom começar a ficar de olho na China!

Mas de todas as previsões, talvez a que mais chame a atenção é que o futuro é mais sobre as pessoas do que sobre a tecnologia em si. No final do artigo, Teerlink afirmou:

“As pessoas são a nossa única vantagem competitiva de longo prazo. Infelizmente, nós, que somos a liderança, às vezes representamos as maiores barreiras diante do que elas têm a oferecer. Nosso grande desafio é sairmos do caminho delas!”
E talvez esse venha a ser o maior desafio das organizações nos próximos anos!

Se você quiser saber mais sobre as tendências para 2019, garanta já sua presença no HR Conference!

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Prevenir para não ter de remediar

[vc_row][vc_column][vc_column_text]Foi-se o tempo em que os riscos enfrentados pelas empresas eram apenas acidentes de trabalho ou eventuais tempestades que poderiam causar algum tipo de alagamento ou danificar o telhado da fábrica. A área de gestão de riscos cresceu exponencialmente nas grandes empresas, em paralelo com a complexidade dos riscos e dos desafios que se colocam diariamente para os gestores.

Algumas áreas, porém, lidam com riscos tão grandes que já desenvolveram sistemas bastante eficientes, que hoje servem de modelo para outros setores. Imagine, por exemplo, um hospital de alta complexidade, que atende a vários tipos de pacientes, com um staff igualmente diversificado. Para enfrentar o risco dos eventos adversos – que são os erros evitáveis, especialmente humanos, foi fundada em São Paulo recentemente a Fundação para Segurança do Paciente (FSP), uma iniciativa de médicos anestesistas que quer difundir as melhores práticas médicas para evitar ao máximo os eventos adversos. A Fundação replica uma instituição norte-americana similar, Patient Safety Movement, que estabelece protocolos e monitora as estatísticas do setor. Há motivos para isso: os eventos adversos são a quarta causa de mortes na área de saúde nos Estados Unidos, atrás apenas de câncer, doenças cardiovasculares e traumas.

Grandes eventos também são um prato cheio para os riscos. É por isso que risk managment foi um dos pontos focais na organização dos Jogos Olímpicos de Londres de 2012. Não só por causa do tamanho e da complexidade do evento, mas também pelo horizonte de tempo, explica o professor da University de Southampton, Will Jennings, e autor do livro Olympic Risks, publicado em maio de 2012 sobre o trabalho na Olimpíada. “Longos intervalos de tempo significam maior vulnerabilidade a riscos emergentes – ou seja, os perigos com impacto potencial que não são bem entendidos ou facilmente quantificados, ou que surgem como um resultado não previsto de processos disparatados interagindo”, explica Jennings em um artigo para a Harvard Business Review. (leia o artigo na íntegra aqui)

Mas que lições outras áreas podem ensinar para as empresas?

“Uma chave para a gestão de risco eficiente é a capacidade de distinguir entre fenômenos que podem razoavelmente ser antecipados e perigos que são ‘auto-infligidos’, porque poderiam ter sido evitados por um planejamento completo e uma execução cuidadosa”, afirma Jennings no artigo.

Segundo Valter Carneiro, especialista em aviação civil e em Corporate Resource Management (CRM), é preciso entender a cultura do lugar em que se vai atuar. No livro Risco e segurança do paciente, da FSP, que compila várias palestras e conteúdos sobre o tema, ele explica que na área de aviação civil são criados cenários e a equipe de Segurança Operacional trabalha o tempo todo sobre eles para tentar prever os perigos que podem acontecer.

É assim que atuam também as consultorias que trabalham com gestão de risco: na prevenção, de forma a diminuir a probabilidade de ocorrência e, ao mesmo tempo, no desenvolvimento de uma resiliência da empresa, visando criar uma imunidade ao risco e uma rápida recuperação em caso de impacto real.

E tudo isso alimentando o processo de execução, para que a criação e a proteção de valor sejam o resultado desse ciclo constante de melhorias.

Nota do Editor: Nos dias 13 e 14 de junho, acontece a Master Class Valuation & Corporate Finance, com o especialista Aswath Damodaran, professor da Stern School of Business, da New York University. Entre os temas abordados no evento está o risk management. Para saber mais sobre o evento clique aqui.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]

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O que fazer para seus clientes pagarem em dia

[vc_row][vc_column][vc_column_text]Essa é uma questão central para as finanças corporativas, especialmente quando as organizações lidam com dificuldades no fluxo de caixa.

Recentemente, a Founder Society, organização que reúne jovens empresários e executivos nos Estados Unidos, perguntou a empreendedores de diferentes segmentos e tamanhos que estratégias eles adotam para fazer com que seus clientes paguem em dia.

Essa é uma questão central para as finanças corporativas, especialmente quando as organizações lidam com dificuldades no fluxo de caixa.

Entre as estratégias consideradas mais eficientes pelos empreendedores e executivos pesquisados estão:

Não temer adotar multas, mas facilitar o pagamento. O cliente deve saber que sempre que uma fatura vence ele terá de pagar uma multa diária pelo atraso. Para facilitar o pagamento nesses casos, uma boa saída é enviar uma nova fatura diariamente com o valor atualizado incluindo a multa.
Construir relacionamentos pessoais. Convide seus maiores clientes para uma conversa frente a frente e mostre por que você precisa que eles paguem nos prazos. Um encontro pessoal sempre transforma você em mais do que uma simples fatura na carteira de pagamentos.
Dar desconto para quem adiantar a quitação. Incentive o pagamento antecipado oferecendo descontos. Mesmo que apenas pequena parcela dos clientes adira a isso, haverá injeção de capital que, se usada sabiamente, pode compensar os problemas de fluxo de caixa causados por aqueles que atrasam.
Automatizar o processo de pagamento. Uma das melhores formas de fazer os clientes pagar em dia é dar-lhes a opção do débito automático.
Enviar as faturas com a antecedência adequada. Acostume seus clientes a receber a fatura sempre na mesma época do mês e com antecedência adequada – isto é, nem muito em cima da hora, para não pegá-los desprevenidos, nem muito antes, que os faça esquecer o pagamento.

Nota do editor: Vale ressaltar que teremos o Seminário HSM Damodaran on Valuation & Corporate Finance | 1º e 2 de julho com Aswath Damoradan. Saiba mais sobre o evento aqui.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]

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O fim do sistema financeiro – as we know it

[vc_row][vc_column][vc_column_text]Já ouviu falar de blockchain? Talvez bitcoin seja mais familiar? Bem, blockchain é apenas um dos novos termos que em breve devem entrar no vocabulário cotidiano da área de finanças – tanto empresariais como pessoais. Segundo a Wikipedia, trata-se de “um banco de dados sequencial de transações encontrado em moedas criptografadas que surgiram a partir do bitcoin”. Ou seja, um termo ligado às novas moedas digitais (bitcoin é a primeira delas) que estão surgindo com força cada vez maior.

A ascensão dessas moedas está diretamente ligada a um forte movimento de startups na área financeira, que estão pondo em cheque a capacidade de adaptação dos grandes bancos e que deve provocar grandes revoluções nos próximos anos.

Conectividade em tempo real, celular e Internet das coisas vão se combinar para tornar a facilidade de solicitação de serviços e de pagamentos do Uber, por exemplo, uma parte rotineira de nossas vidas também na área financeira. É o que afirma o especialista Chris Skinner em seu livro Value Web, segundo a resenha publicada no site da revista Forbes pelo analista da área de finanças e tecnologia Tom Groenfeldt.

Os bancos, explica Groenfeldt, estão diante de um desafio batizado com outro neologismo: fintech, termo que mescla finanças e tecnologia, e define as startups que estão criando aplicativos financeiros de meios de pagamento como a carteira digital, de serviços financeiros e outras novidades. A área atraiu US$ 15 bilhões em investimentos em 2015, segundo o artigo.

Para o autor do livro, porém, o termo fintech já está com os dias contados, e será substituído pela Internet do Valor, justamente o título de seu livro. Pois para que a promessa da Internet das Coisas se confirme, as transações financeiras terão de ser feitas por essa nova rede financeira – afinal, se sua geladeira vai saber o que está faltando e fará o pedido ao supermercado e se sua TV vai garantir a compra do pacote do próximo Campeonato Brasileiro com antecedência, então o processamento dos pagamentos precisa ser igualmente ágil, seguro e sem burocracia, certo?

Mas como ficam os bancos e, principalmente, o sistema financeiro diante disso, se a regulamentação pelos governos também serve para controlar a política financeira e a estabilidade econômica? A resposta não é simples, nem única. Groenfeldt afirma em seu artigo que o autor do livro aponta as dificuldades e os perigos da nova realidade de transações financeiras de uma forma às vezes contraditória – o que reflete a dificuldade que essa nova realidade pode impor ao sistema já estabelecido.

Os bancos, por sua vez, já começam a se preparar para essa realidade. No fim de 2015, a revista Época Negócios afirmava que havia 1.406 fintechs no mundo, trabalhando de forma enxuta, baseada em tecnologia de ponta e pela Internet. E que os dois maiores bancos brasileiros já estavam acompanhando a tendência de perto.

Segundo a matéria (leia na íntegra), uma das mais valiosas iniciativas é o Lending Club, considerado o Uber dos empréstimos. O aplicativo conecta pessoas físicas que querem emprestar dinheiro a pessoas físicas que querem recebê-lo. Em seu IPO (oferta pública de ações), realizado em 2014, o Lending Club captou US$ 800 milhões, ficando na 15a posição entre 835 instituições financeiras norte-americanas.

Essas novas modalidades de interação financeira estão seduzindo a geração Millennial, que está sempre atrás de menos burocracia e interferência. Para agradá-los, os Golias de sempre terão de enfrentar não só um, mas uma série de Davis, espalhados por todo o mundo. Leves, rápidos e cheios de energia, eles prometem realmente chacoalhar um negócio construído ao longo de séculos.

Como os governos reagirão, é uma outra questão. Mas os bancos sabem que não conseguirão manter sua exclusividade por muito tempo.

Nota do Editor: O mestre das finanças e da avaliação corporativa Aswath Damodaran está à frente da Master Class que acontece nos dias 13 e 14 de junho em São Paulo. Damodaran é professor na Stern School of Business, da New York University. Saiba mais sobre o evento: clique aqui.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]

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Estratégias para enfrentar o cenário econômico brasileiro

[vc_row][vc_column][vc_column_text]Para Alonso, o Brasil de hoje é um mercado completamente diferente do que era há uma década, por isso é hora de as empresas adotarem novas receitas para competir no País.

Em artigo publicado no blog da Harvard Business Review, Pablo González Alonso, líder para o mercado brasileiro do Frontier Strategy Group, apresenta duas propostas estratégicas para as empresas serem bem-sucedidas no cenário atual no País.

Ele começa lembrando que após ser um dos mercados mais atrativos para o investimento corporativo na primeira década deste milênio, a constatação nos últimos anos de que o crescimento do Brasil dependia demais das commodities exportadas principalmente para a China, associada à inépcia governamental na gestão da economia, levou a uma mudança do cenário.

Pesquisa realizada recentemente pelo Frontier Strategy Group com executivos da América Latina mostra que as vendas corporativas caíram em média 6% no Brasil no último ano e que a perspectiva no curto prazo não se mostra nada animadora.

Para Alonso não é mais possível neste momento pensar o mercado brasileiro a partir das estratégias adotadas na primeira década dos anos 2000. Atualmente, segundo ele, há duas estratégias que os executivos de empresas operando no Brasil devem considerar.

A primeira é adaptar a proposta de valor da empresa. Com a recessão, a questão do preço dos produtos e serviços passa a ser muito mais sensível. Empresas proativas, segundo Alonso, devem revisitar seus segmentos de clientes e ajustar-se ao poder aquisitivo e ao comportamento dos consumidores neste novo cenário.

Alonso aponta que há muitas organizações que já estão adaptando seus valores a partir de mudanças na precificação, formulação e tamanho do produto e nos serviços associados a eles. Ele cita os casos da Danone, Nestlé, Neugebauer e Bela Vista como exemplos de empresas que têm reformulado seus portfólios, incluindo embalagens individuais ou versões menores de seus produtos, aumentando a acessibilidade dos consumidores a eles.

Uma segunda estratégia é localizar o negócio. A expansão da produção local é um caminho para as multinacionais poderem se beneficiar da atual desvalorização do real para proteger, e até mesmo aumentar, a fatia delas no mercado brasileiro.

No caso de aquisições estratégicas, a depreciação do real é apenas um dos aspectos desse processo. Deve-se levar em conta também que a desaceleração econômica provocou uma queda sensível no valor das empresas no País.

Os executivos devem lembrar, no entanto, que essa estratégia tem de considerar aspectos como o “custo Brasil”. Alonso aponta que, mesmo num cenário de desaceleração, os custos de produção no País ainda têm crescido. Outro fator a se pensar é que muitos componentes, principalmente para indústrias de alta tecnologia, não têm fornecedores locais, o que significa a necessidade de importar esses insumos.

Para Alonso, o Brasil de hoje é um mercado completamente diferente do que era há uma década, por isso é hora de as empresas adotarem novas receitas para competir no País. As estratégias que as levaram à liderança ontem, se mantidas, poderão conduzi-las ao fracasso amanhã.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]

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Estrangeiros anseiam por medidas concretas para investir no Brasil, diz Damodaran

[vc_row][vc_column][vc_column_text]Fonte: Agência Estado (São Paulo, 03/06/2016)

O retorno dos estrangeiros ao mercado financeiro do Brasil depende de medidas concretas de ajuste econômico e de uma solução definitiva para a crise econômica nacional, afirmou o professor de finanças da Universidade de Nova York (NYU) Aswath Damodaran. Para o especialista, prevalece um tom de cautela entre os investidores, que restringem a exposição ao País. Apesar disso, ele entende que o mercado de ações nacional possui potencial de ganho, principalmente no setor de consumo.

“No momento, as palavras dos políticos pouco importam para os investidores (estrangeiros). Houve tanto falatório que eles pararam de ouvir”, afirmou o economista ao Broadcast em entrevista por telefone. “O mercado está esperando para ver medidas concretas. É com base nisso que o Brasil será avaliado”, acrescentou Damodaran, que participa de evento em São Paulo em meados deste mês.

Por enquanto, a agenda econômica do presidente em exercício Michel Temer (PMDB) tem entre as prioridades uma proposta de emenda à Constituição (PEC) para criar um teto para o crescimento dos gastos públicos. No entanto, a medida, assim como outros esforços do peemedebista, precisa passar pelo crivo do Congresso, tornando ainda mais essencial a relação de apoio entre o Legislativo e o Executivo.

Para o economista, a deterioração do cenário nacional é fundamentalmente um problema político que está se refletindo no lado econômico. “Os problemas políticos levam mais tempo para serem resolvidos e a solução lógica nem sempre é a solução adotada. É simplesmente política”, afirmou Damodaran, ao indicar que a tomada de decisões é influenciada pelo ciclo eleitoral.

A desconfiança do mercado, diante do imbróglio político, também incide na perenidade da gestão de Michel Temer. O peemedebista assumiu a presidência com o afastamento de Dilma Rousseff (PT) em meio ao processo de impeachment da petista. O compasso de espera do mercado deve permanecer, pelo menos, até a conclusão do impeachment, nos próximos meses.

“Os investidores sabem que o governo em exercício agora pode não ser de longo prazo”, afirmou o especialista. “O mercado quer ver medidas ousadas, que possam perdurar, mas isso só pode ser conseguido em um governo com um mandato”, acrescentou.

Do lado externo, um ponto de alerta para a economia brasileira diz respeito ao enfraquecimento da China. Para o Damodaran, muitas empresas são dependentes do país asiático e, embora ainda esteja crescendo, a economia chinesa tem poucos indicadores confiáveis. “Não se sabe o que está acontecendo”, afirmou. “Só entendemos a realidade dois anos depois do fato. Ficamos sabendo da realidade a partir do relato de companhias europeias, brasileiras e americanas, porque dados oficiais não são confiáveis”, acrescentou.

“Eu observo a receita e os ganhos das companhias que estão expostas ou investiram na China. Isso (a saúde dessas empresas) é o ‘canário na mina de carvão’ (ou seja, um indicador de perigo) e poderá mostrar que os problemas estão vindo”, disse o economista. Para Damodaran, um pouso forçado no país asiático é possível, mas, caso concretizado, o impacto terá de ser enfrentado globalmente. “Não existe mais um porto seguro na economia mundial”, acrescentou.

Empresas

Na avaliação de Aswath Damodaran, quando o apetite estrangeiro voltar ao País, um dos focos no mercado de ações deve ser o setor de consumo, incluindo cosméticos e farmacêuticos, como Natura e Ambev. Para ele, o interesse em consumo deve superar o do setor de recursos naturais, como Petrobras e Vale.

O caso da estatal de petróleo depende também de uma retomada de confiança, uma vez que a empresa tem sido vista como uma extensão do governo no que se refere a políticas públicas, como controle de preços através de valores de combustíveis. “Não dá para ter uma empresa de capital aberto no qual há dúvidas sobre o objetivo de medidas, se elas são voltadas para acionistas ou para o governo”, afirmou.

Para o economista, o problema fundamental da Petrobras é o nível excessivo de endividamento e distribuição elevada de dividendos. A solução é vender ativos, cortar dividendos e ajustar preços de combustíveis, o que exige um grau de separação das intenções do governo. “O problema é que tem de fazer tudo e nenhuma dessas ações será fácil”, apontou.

O momento atual pode ser favorável para a estatal se ajustar, pois o preço do petróleo está tão baixo que “as dores” de tirar o controle sobre os preços de combustíveis são menores do que quando estava em US$ 100 por barril. Caso essa reformulação aconteça, a expectativa também é de melhora da percepção estrangeira sobre o setor corporativo em geral do Brasil.

“Muitos estrangeiros investem no Brasil como se fosse num grande borrão e assumem que todas as empresas são como a Petrobras. Foi isso que tornou a crise da empresa tão prejudicial”, afirmou. “Mas as coisas nunca são tão ruins quanto parecem, nem tão boas. Às vezes, o País passa por um momento difícil e pode ter alguns retrocessos. Mas isso também vai passar”, concluiu (Lucas Hirata).

Nota do Editor: O mestre das finanças e da avaliação corporativa Aswath Damodaran está à frente da Master Class que acontece nos dias 13 e 14 de junho em São Paulo. Damodaran é professor na Stern School of Business, da New York University. Para saber mais sobre o evento clique aqui.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]