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No centro do Brooklyn, há uma via comercial do bairro que está fechada para os carros. Tecnicamente, pelo menos. A Fulton Street é uma rua utilizada somente para o tráfego de ônibus, entretanto, cerca de 3.000 carros por mês passam por ela ilegalmente. Isso cria problemas para os ônibus e seus 20 mil passageiros diários, que precisam da pista livre para compensar o tempo em suas rotas lotadas, e para os pedestres e ciclistas, que também dependem da via livre de carros para uma viagem mais segura.

A Downtown Brooklyn Partnership, uma organização sem fins lucrativos que apoia o desenvolvimento local, queria acabar com o tráfego ilegal de carros nas ruas por um tempo, mas eles não sabiam de qual avenida esses veículos estavam vindo. Recentemente, descobriram que cerca de 84% dos carros ilegais estavam saindo da Flatbush Avenue, a movimentada avenida que corta a Fulton. Sabendo disso, a empresa começou a implementar novas sinalizações e monitorar de forma mais estrita a interseção para garantir que a rua permanecesse livre de carros.

Para isso, contaram com a ajuda da base de dados de uma startup chamada Numina, que usa sensores para medir todos os objetos na paisagem urbana e como eles interagem uns com os outros. Suas câmeras montadas em poste de luz capturam carros, pedestres, ciclistas e ônibus (bem como sacos de lixo, móveis de rua, carrinhos de bebê e muito mais). Elas detectam onde e quantos desses objetos diferentes estão se movendo pela paisagem urbana sem levantar as questões de vigilância que geralmente vêm com a tecnologia baseada em sensores: a Numina não usa o reconhecimento facial ou o sistema de detecção de placas de licença. Está apenas procurando por objetos e padrões.

Quando aplicada em uma paisagem urbana, a tecnologia pode rapidamente criar uma mudança tangível nas cidades. Mas enquanto essa nova tecnologia é uma categoria ainda em expansão – a AngelList conta com mais de 500 startups nos EUA -, as empresas, muitas vezes, lutam para provar aos outros e a si mesmas que ela pode, de fato, funcionar. Ao contrário do que acontece em algumas organizações de mídia social ou de privacidade de dados – que podem conduzir os pilotos por meio de canais digitais -, uma startup de tecnologia urbana precisa se inserir no ambiente para provar que é viável, e conseguir a permissão das cidades para executar pilotos de tecnologia urbana pode ser uma luta.

O New Lab, um centro de tecnologia do Brooklyn, inaugurado em 2016 para ajudar as startups a crescer, reconheceu esse desafio. Sua ideia é juntar empresas de tecnologia urbana e montar um piloto para ser aplicado no bairro. Dessa forma, a cidade poderia ter uma noção do que a tecnologia poderia fazer, e as startups poderiam provar que o modelo é viável. “As empresas de tecnologia urbana precisam de oportunidades reais de piloto para ajudar a provar que seus produtos funcionam e, para isso, precisam estar em ambientes urbanos reais”, diz Shaina Horowitz, diretora do Urban Tech Hub do New Lab. “Para que isso funcione, precisamos de partes interessadas na mesa: líderes da cidade, agências e empresas locais.”

A iniciativa conhecida como The Circular City atende a essas necessidades. O New Lab selecionou três startups de tecnologia urbana para participar e discutir sobre o projeto com líderes locais como o presidente do Brooklyn Borough, Eric Adams, e agências como a DBP e a New York Economic Development Corporation. Conseguir que líderes locais e do setor participem e se conscientizem sobre o projeto “esvazia alguns dos medos que existem em torno do que é preciso para implantar novas tecnologias em uma cidade”, diz Horowitz. O teste piloto de seis meses fez com que os líderes vissem de perto como a tecnologia poderia realmente ser um ativo.



Cada uma das três startups trouxe capacidades diferentes para a cidade. Numina usou sua tecnologia de sensores não apenas para rastrear o tráfego de carros ilegais na Fulton Street, mas para examinar como andaimes de construção fazem com que os pedestres mudem seu caminho, e às vezes os obriga a andar na rua. A Carmera, outra startup que usa sensores embutidos em veículos para coletar dados para carros autônomos, forneceu informações sobre a densidade das ruas e onde eles perderam por pouco os acidentes com pedestres e ciclistas. Os dados de ambas as empresas devem ajudar a informar a cidade sobre onde instalar medidas de segurança nas ruas, como faixas de pedestres e ciclovias.

A terceira startup, Citiesense, não cria dados, mas os agrega. A plataforma da Citiesense captura tudo o que existe na rua, desde vendedores de comida e bicicletários a restaurantes e novas construções. O fundador Starling Childs diz que o Citiesense integrará dados do Numina e da Carmera para que os grupos de vizinhança possam visualizar os fluxos de tráfego em suas ruas e calçadas. Isso pode ajudar um bairro como o Brooklyn a perceber que eles não têm bicicletários suficientes para acomodar o número de ciclistas que transitam por lá.

O ponto principal da iniciativa The Circular City, que continuará a se desenvolver após este primeiro teste, é levar a tecnologia urbana e os dados com os quais ela trabalha para fora da teoria, e colocá-la nas mãos de pessoas que podem realmente usá-las com o objetivo de transformar as cidades.

2019-03-11