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Pessoas: onde está o manual de instruções?


Eu adoro essa história: o professor famosíssimo chega e anuncia para os seus alunos super criativos um desafio novo. Diante deles, folhas de cartolina. O desafio? Construir algo excepcional com este material singelo.

Construir era um conceito inscrito no próprio nome dessa escola revolucionária em Weimar, Alemanha: Bauhaus vem parte de bauen, construir em alemão, parte de Haus, casa. O professor era o ilustre Josef Albers, e ali nasceu boa parte do modernismo do século XX.

Pois bem: cartolina. Mãos à obra. Algum tempo depois o professor retorna e encontra maravilhas: uma torre Eiffel de cartolina, uma catedral gótica de cartolina e, entre outros prodígios, uma decepcionante tenda feita de cartolina dobrada em V.

O professor olhou, olhou e escolheu a obra mais impressionante: a tenda em V. Espanto geral. Como assim premiar o aluno que se esforçou menos?

Albers explicou: uma catedral gótica é a expressão máxima da construção em pedra e a torre Eiffel é o triunfo da estrutura em aço, e cada uma explorou ao limite o que aquele material era capaz, pedra e ferro. Usar papel para emular ferro ou pedra era uma escolha pobre. Já a tenda em V explorou algo que só a cartolina era capaz: de ser dobrada e manter a rigidez sem perder a leveza. Em suma: foi premiado quem usou a cartolina não como aço, não como pedra mas como só a cartolina pode ser usada.

Linda a história, e eu a usei inúmeras vezes para argumentar que internet era como cartolina, algo novo, e que não adiantava usar a internet como revista ou como TV ou como cartaz… porque internet era interativa e deveríamos descobrir do que a internet é capaz e explorar isso ao limite. Faz sentido até hoje, não?

Pois bem… acho que me equivoquei, e está mais do que na hora de me retratar. Sim, internet é interativa, mas internet só é interativa se pessoas interagirem, e de pouco adianta entendermos a tecnologia toda ou tudo o que é único do digital se… não entendermos do que as pessoas são capazes ou não, e é por isso que eu conto hoje esse episódio de outra maneira.

Imaginemos que o teu desafio seja construir algo inédito, inovador, incrível… com pessoas. Tenho certeza que alguém vai propor alguma coisa em que pessoas são tratadas como robôs ou como formigas ou como jumentos com uma cenoura pendurada adiante ou como anjinhos celestiais ou como cavalos de corrida ou como tubarões carniceiros ou como Dalais Lamas inabaláveis ou como mártires suicidas ou como… a lista não tem fim, é só pensar em diferentes culturas corporativas que eu e você já conhecemos de perto ou metodologias da moda que prometem transformações instantâneas, ou palestras vaporosas ou TED’s incríveis.

Pessoas não são cartolinas em branco que a gente dobra como bem entende ou escreve em cima o que bem quiser, pessoas são um bicho à parte, e para entender a nossa espécie um pouco melhor o que mais me ajuda, hoje, é pai da Origem das Espécies, Darwin.

É sempre bom lembrar de Darwin porque normalmente lembramos dele de maneira torta, como se o resumo da sua ópera fosse a luta pela vida e a sobrevivência do mais forte, o que é falso. Darwin não é o pai do mata-mata ou do salve-se quem puder, ao contrário: foi ele que nos mostrou que herdamos dos nossos avós primatas a colaboração, o senso de justiça, a empatia, o cultivo das relações, o valor da vida em grupo.

Herdamos também outras coisas não tão louváveis assim, como a hierarquia, a malandragem, a violência fácil e a desconfiança com quem é de fora.

Somos criaturas grupais, e nada é mais temível do que ser excluído, ser rebaixado ou ser abandonado, e isso explica porque tantas metodologias acabam funcionando mal: por mais que a gente seja capaz de aprender e seguir novas regras, basta as coisas ficarem incertas, basta uma estremecida nas regras do jogo e voltamos a pensar como nossos antepassados tribais na floresta (que tinham e ainda têm um cêrebro idêntico ao nosso, o hardware e o sistema operacional são os mesmos).

Quando eu ingenuamente achava que bastava entender teoria das redes para aproveitar o melhor da internet, faltou (e como faltou) eu reconhecer que um traço humano, demasiadamente humano muda completamente o que as redes são capazes de fazer: a homofilia, a nossa inescapável preferência por tudo o que parece conosco.

Homofilia explica porque criamos panelas, porque criamos grupos no whatsapp com gente que pensa parecido, porque contratamos gente com o mesmo perfil sempre e porque rejeitamos, com maior ou menor delicadeza, quem é visivelmente diferente de nós.

Se eu falar para uma plateia “quem é intolerante levanta a mão”, curiosamente ninguém fará isso e é por isso que eu nunca me falei isso, mas em toda palestra que faço eu mostro esse cenário: imaginem uma empresa em que metade das pessoas torce para um time e metade torce para outro. Para tornar isso mais concreto, pensemos numa empresa gaúcha onde metade torce pro Grêmio e metade pro Inter (ou Flamengo versus Fluminense, ou Palmeiras versus Corínthians ou….).

Se você chega na empresa e vê que os funcionários estão todos agrupadinhos por time como na figura abaixo, cada um no seu quadrado, você pensa: uau, o pessoal aqui é intolerante mesmo, ninguém quer ficar próximo do torcedor rival.

Se os funcionários espontaneamente se distribuíram assim, em ilhas, enclaves, panelas… isso deve ser sinal de uma intolerância total, não?

Não. A equipe chegou a essa situação mesmo sendo profundamente tolerante e generosa e todos ali se comportam de uma maneira civilíssima: se eu estiver isolado eu me sinto mal, mas se eu tiver ao meu redor pelo menos dois torcedores do meu time estou feliz, mesmo que os outros seis sejam rivais. Apenas dois.

Pois bem, se você quiser ver ao vivo e a cores como essa turma tão boa-praça acaba se isolando em silos, experimente esse joguinho interativo chamado a Parábola dos Polígonos: aquilo que começa com todo mundo distribuído ao acaso termina, mesmo com uma tolerância tão alta, em uma concentração inacreditável. (Se você quiser ver um demo rápido, eu fiz este vídeo curtinho)

Homofilia. Um tiquinho de nada e pronto, já nos polarizamos. A questão é: se é algo instintivo, se é algo tão automático e se é algo tão perigoso, como evitar que a polarização aconteça?

Voltemos à internet. Pensar em redes e conexões de maneira abstrata e criar plataformas e redes sociais permitindo que as pessoas se organizassem livremente não parecia algo preocupante, pelo contrário, parecia uma libertação. Era assim que eu pensava há vinte e cinco anos, mas hoje vejo que não levar em conta o quanto nós somos capazes de distorcer as redes e criar trincheiras e máquinas de guerra digitais foi um erro difícil de digerir, e não fui só eu a errar.

Eu queria um mundo mais diverso, mais horizontal, mais livre, sobretudo porque acreditava que a nossa espécie evolui de verdade e cria universos incríveis quando fomentamos a diversidade, a colaboração, a multidisciplinaridade, e é nisso que acredito e aposto até hoje com as bençãos do próprio Darwin, que reconhecia o quanto a riqueza da vida se deve à colaboração e à interdependência.

Um livro maravilhoso que me ajudou muito a enxergar com clareza o poder dessa combinação entre redes digitais e essa nossa espécie grupal tão fascinante foi The Human Networks de Matthew O. Jackson, que eu resumi e recomendei no meu blog Leia Vale a Pena. Gente não é papel em branco e nem dá para dobrar tão fácil, mas se levarmos sempre em conta aquilo que nos torna mais humanos ou mais desumanos, conseguiremos criar juntos uma humanidade melhor.

René de Paula Jr. é um profissional com 25 anos de experiência no mercado interativo e seu currículo inclui empresas como Microsoft, Yahoo, Sony e diversas agências digitais como Wunderman, FLAG e AgênciaClick. René é alumni da Singularity University (EP2011) e é um consultor certificado em Tecnologias Exponencias pela ExO Works com participação em vários projetos internacionais. Um de seus projetos pessoais preferidos são as dicas de leitura no Leia, Vale a Pena