Categorias
Blog

O rei e o executivo: lições que o tempo conservou


Quando falamos em modelos de liderança alguns nomes já batidos e conhecidos, em geral de origem norte-americana, vêm em nossas mentes. Isso pode levar-nos a, inocentemente, pensar que é nos Estados Unidos, quase que milagrosamente no vale do silício ou em lugares parecidos ao longo da costa da Califórnia, que nascem as grandes mentes da inovação e gestão.  Deve ser o sol californiano.

Entretanto, tal forma de pensamento revela muito mais de nós mesmos do que da realidade em si. Ensina o que em primeiro lugar? Tal realidade faz ver que amamos aquilo que conhecemos e que quanto menos conhecemos mais tendemos a criar ídolos. Temos aqui a velha heurística da familiaridade explorado por Daniel Kahneman na obra “Rápido e Devagar”.

Neste artigo gostaria de pensar o que é que os líderes de outras épocas e de outros lugares podem ensinar para os gestores da atualidade. Para tanto, escolhi um em particular, de fala portuguesa, que influenciou muito para que os povos lusitanos no Brasil chegassem. O nome deste rei é Dom João I de Avis. E governou Portugal de 1385 à 1433, ou seja, na passagem da Idade Média para o Renascimento.

Este rei medieval, a certa altura do seu governo, ordenou que fosse tecido para si um manto com uma imagem de um camelo carregando quatro sacos. Curioso não? O que significavam estes alforjes. Com esta atitude D. João I desejava lembrar a si mesmo e aos seus fidalgos, isto é, aos seus líderes imediatos, os quatro princípios de uma boa liderança, que são, na linguagem de então:

  1. Temor de mal reger
  2. Justiça com amor e temperança
  3. Contentar corações desvairados
  4. Fazer grandes feitos com pouco fazenda

Vamos traduzir estes quatro princípios para os nossos dias e a atual linguagem da gestão. O primeiro deles, “temos de mal reger” quer tocar um assunto bastante importante e que deve estar presente na vida de cada líder. A responsabilidade para com os seus liderados e para com a sua organização.

Um líder deve recordar que a posição que ele ocupa lhe foi dada por um ato de confiança de um grupo. Ainda que a empresa seja familiar e que o CEO seja o fundador.

Portanto, o temor de mal reger significa, o cuidado de sempre estar em contínuo aprendizado, pois em uma realidade dinâmica a postura mais apropriada que podemos fazer é a de sempre nos pôr em obra. É preciso lembrar da frase de Robert Moses: “Pessoas que amam a coisas como elas são não têm, na contemporaneidade, nenhuma esperança”, isto é, quem cultiva ideias fixas não terá muito espaço em um modelo de sociedade em contínua mutação, como é o nosso.

O segundo ponto trata de uma virtude e duas habilidades ou “inteligências” emocionais. A justiça como caminho e o amor e a temperança como tempero. Vamos pensar um pouco mais sobre isso. No processo da gestão precisamos ser justos, e aqui não estou me referindo a legalismo ou coisas do gênero. Por justiça aqui entendemos a arte da proporcionalidade em, de maneira adequada e ponderada, distribuir e potencializar o bem comum. Vale aqui a advertência do Barão de Montesquieu: “A injustiça que se faz a um é uma ameaça que se faz a todos.”

Por isso, a importância do amor e da temperança, que hoje, poderiam ser traduzidas, ainda que de forma reduzida por, “Empatia” e “Rapport”. É compromisso fundamental do líder criar um espaço de segurança psicológica para que os seus liderados, investidores e partes interessadas possam desempenhar bem os seus papéis e funções. Para aprofundar mais sobre este tema recomendo o livro: “The fearless organization: Creating Psychological Safety in the workplace for Learning, Innovation, and Growth” de Amy Edmondson.

O terceiro ponto, “contentar corações desvairados” poderia soar estranho aos ouvidos e olhos do líder contemporâneo, mas vamos traduzir: Aprender a lidar com os conflitos de interesse, com a diversidade de pontos de vista e com as diferentes opiniões.

Na gestão o grande desafio que encontramos cotidianamente é o de: “como fazer conjugar e concordar discordantes?”. Esta é uma grande habilidade que os líderes devem cultivar e aprimorar, para que assim, se possa chegar ao tão sonhado “time de alta performance”. Uma estratégia que pode ajudar neste sentido é a do community canvas que busca trabalhar com metodológicas ágeis em grupos de interessem, bem como, as atuais metodologias Squad que buscam reunir em si um Mindset e um cultura do crescimento atreladas a medotologias ágeis e comunicação integrada.  

O quatro ponto: “Fazer grandes feitos com pouco fazenda” é o dia a dia de todo gestor, traduzindo: Orçamento curto! Poucos recursos. Qual gestor que na contemporaneidade não foi cobrado de dar resultado com poucos recursos e de maneira rápida? Aliás, inventaram inclusive uma metodologia para isso, a Growth Hacking. Pois bem, como sabemos sempre é preciso fazer mais com menos e esta é a grande máxima que, como líderes, devemos lidar diuturnamente.

Feito isso, nos parece que este rei medieval de um país costeiro da Europa tem muito a nos ensinar sobre gestão. Os sacos que o camelo carrega são os quatro horizontes ou paisagens que cada líder contemporâneo deve ter a sua frente se desejar fazer um bom trabalho e continuar sendo um líder de referência. D. João I ordenou que lhe tecessem um manto para que ele não se esquecesse disto, e o que nós podemos fazer para não nos esquecemos? Pense nisso.

Gillianno Mazzetto é PhD em Psicologia e co-founder da Ei-Psi