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O Brasil sob um novo ponto de vista


Escolhido como um dos afrodescedentes mais influentes do mundo, em 2018, pela organização Most Influential People of Africa Descent, Paulo Rogério Nunes é o baiano que você precisa conhecer.

Publicitário de formação, Nunes é co-fundador da aceleradora de negócios de impacto social, Vale do Dendê, e também sócio da Afar Ventures, consultoria de diversidade e atração de investimento para países emergentes. Autor do livro “Oportunidades invisíveis”, Nunes foi escolhido para discursar no primeiro evento internacional da Fundação Obama, em Chicago.

Em entrevista exclusiva ao blog da HSM, Nunes mostrou como a aposta na diversidade pode colocar o Brasil entre as maiores economias do mundo.

Paulo, você se sentou à direita do ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em reunião privada com jovens lideranças brasileiras e pôde falar sobre a questão racial no Brasil. Na sua percepção, a imagem que se tem do Brasil nessa pauta está quão próxima da realidade?
PRN – Na minha opinião, o Brasil não percebe o potencial da sua diversidade e não se percebe como um país multi-cultural. E isso nos impede de exercermos todo nosso potencial enquanto um país de dimensão continental, com diversas regiões, sotaques, cosmovisões e maneiras de ver o mundo. Os Estados Unidos, por exemplo, possuem a compreensão do poder da diversidade e atraem os maiores cérebros, as mais brilhantes mentes, incorporando grupos de diversos países à economia local. Isso reflete em expansão de mercado, mais inovação e, por consequência, liderança. O Brasil perde oportunidades por não se entender como um país que deva ativar sua diversidade, estimulando uma proporcionalidade econômica. Fora daqui, ainda há uma visão limitada de Brasil. Muitas pessoas desconhecem o tamanho da comunidade afro-brasileira e nossa pluralidade regional, com polos para além de Rio e São Paulo. No momento em que o Brasil conseguir vender uma imagem mais próxima à realidade, conseguirá exercer uma influência maior no cenário internacional. Não à toa, não temos um instituto de promoção da cultura brasileira pelo mundo. A Alemanha tem o Goethe Institut, a França o Institut Molière, A Espanha o Instituto Cervantes e o Brasil poderia ter um Instituto Machado de Assis – um escritor afro-brasileiro, para promover a cultura brasileira pelo mundo. Mas isso não existe.

Tendo percorrido 20 países, abordando a temática da diversidade, você acha que há um denominador comum na inserção da diversidade como prática em organizações e órgãos políticos?
PRN – Há um denominador comum nas práticas de diversidade fora do Brasil sim, e é a ideia de proporcionar aos grupos historicamente discrimados acesso a esferas mais altas da economia. Seja na diversidade dentro das corporações, no acesso à cadeia produtiva ou na promoção da publicidade desses grupos. Esse é um ponto comum em países como Canadá, Reino Unido e África do Sul, mas que no Brasil ainda é algo muito recente.

Você fala bastante sobre a importância da comunidade deixar de ser apenas consumidora para se tornar também produtora de riquezas. Como você acredita que as empresas podem trabalhar um formato híbrido entre a filantropia e o estímulo à potência econômica reprimida das comunidades afro-brasileiras?
PRN Eu gosto muito do formato híbrido de filantropia com estímulo ao potencial econômico. É necessário que as empresas separem parte de suas verbas para realizarem filantropia e fornecerem assistência – já que estamos falando de um país ainda muito desigual. Mas, em paralelo, as corporações devem trabalhar para que as pessoas dependam cada vez menos de medidas como essas, podendo se empoderar economicamente e sair desse ciclo de pobreza. Isso só ocorrerá quando as empresas passarem a olhar esses territórios como agentes econômicos e essas pessoas como potenciais parceiros. Em termos práticos da cadeia produtiva, vemos iniciativas como Billion Dollar Roundtable e Supplier Diversity Development Council, que propõe iniciativas em que as empresas se comprometem a comprarem uma quantia significativa na mão de grupos historicamente discriminados. Na Billion Dollar Roundtable, por exemplo, a condição para entrar nesse clube é comprar US$ 1 bi/ano de grupos minoritários, especialmente os afro-americanos. Se não fizermos algo nesse sentido no Brasil, será difícil chegar a um cenário mais equiparado na economia.

Em algumas entrevistas, você diz que descobriu Salvador pelo olhar estrangeiro. Na sua opinião, o que falta ao brasileiro para que ele crie essa percepção positiva do potencial nacional?
PRN – Recebi muitos turistas em Salvador, e nesse contato com eles via como ficavam maravilhados com a cidade, gastronomia, dança e maneira de ser. O Brasil não valoriza esse fator competitivo, nosso soft power. A cultura brasileira pode ser exportada para todas as partes do mundo. Isso já é feito sem nenhum tipo de apoio ou investimento na capoeira, que está em mais de 180 países, e no próprio samba que conquistou uma relevância internacional muito grande. Temos muitos produtos globais potenciais que estão represados por conta do fastio empreendedor, do fastio econômico dos grupos que preferem não investir em inovação.
Países que, por muito tempo, foram mais pobres que o Brasil, como China e Coréia do Sul; ou países nórdicos como a Dinamarca, conseguiram se posicionar na questão tecnológica e sustentável. O k-pop, que era uma música local da Coréia do Sul, se tornou um fenômeno global. O Brasil tem plenas condições de exportar sua cultura e nosso know-how dessa maneira, mas são negócios que não escalam por falta de visão dos empresários. A música afro-americana explodiu para o mundo e promoveu os EUA através do jazz, do blues, do hip-hop. O Brasil tem tudo para vender sua criatividade, inovação e diversidade, com competitividade, para atrair turistas, exportar cultura e criar novos produtos.

O olhar da inovação é proposto em diversos cursos corporativos mundo afora. Para você, qual a maior escola para exercitar esse olhar?
PRN – A maior escola para isso é a rua, sair da bolha. Os publicitários, mercadólogos, profissionais de marketing, de tendências e futurismo, vivem em uma bolha. Não conhecem a cidade onde moram, não conhecem o Brasil. Isso faz com que tenham uma limitação muito grande, copiando o que tem fora do país. Temos tudo para inovar com a nossa realidade. É mais difícil? Sim. Mas se não houvesse dificuldade, não seria inovador. A ideia de inovar, a partir do nosso ponto de vista é fundamental.

Você se divide entre o mundo corporativo e o cenário social, baseado na sua vasta e plural experiência, onde se encaixa a política nas questões de diversidade?
PRN – As políticas de diversidades devem se encaixar nos dois polos, no cenário social e no mundo corporativo. Transitando pelo investimento de impacto social privado, core business das empresas, visão de negócio, ampliação de market share, fidelização de clientes, publicidade, marketing… Trabalho com os dois mundos e disso veio a tônica do meu livro “Oportunidades invisíveis”. Nele, relato como esses extremos precisam se encontrar para gerar mais diversidade corporativa, que é um caminho fundamental para a inovação. Apresento empresas que criaram produtos e serviços que ganharam escala e possuem potencial disruptivo. Mas isso, aqueles que vivem na bolha não conseguem enxergar.