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A resposta global ao COVID-19, por Efosa Ojomo


Em um recente artigo para o Wall Street Journal, o famoso historiador Jared Diamond escreveu que, “Covid-19 pode acabar por aumentar a desigualdade existente entre países”.

Diamond está correto. No Brasil, por exemplo, já se pode ver o vírus desproporcionalmente afetando comunidades mais pobres e favelas, criando uma série de retrocessos que aumentando ainda mais a pobreza e as desigualdades relacionadas. Entretanto, a proposta apresentada por Diamond deixa de levar em consideração o ponto central da questão: “O desafio para o futuro será o de ter certeza que máscaras, vacinas, tratamentos e ventiladores se tornem disponíveis para todo o mundo. Se estes não se tornarem disponíveis, estaremos todos vulneráveis.”

Infelizmente, ele cai na armadilha de enquadrar o desafio como uma falta de recursos e a solução proposta provavelmente não irá produzir resultados duradouros e que garantam um progresso significativo na redução de desigualdades. De fato, o mesmo enquadramento é sustentado pelas comunidades globais que tentam resolver a pobreza, bem como por tantas empresas com seus bem intencionados programas filantrópicos. Infelizmente, esta não é a solução.

Transferência de recursos raramente ajuda na construção de competências locais.

Em 1949, o então presidente americano, Harry Truman, em seu discurso de posse, popularmente referenciado como o discurso de Quanto Pontos, introduziu o conceito de desenvolvimento internacional que conhecemos hoje. Truman provocou os americanos a “embarcar em um novo e corajoso programa para gerar benefícios para os avanços científicos e progresso industrial disponíveis para o crescimento de áreas subdesenvolvidas.”Este discurso, sem o conhecimento do presidente, despertou o primeiro programa americano de ajuda internacional global. E também levou a criação do que se tornaria a Agência Americana de Desenvolvimento Internacional (USAID).

Mais importante do que o discurso de criação do novo programa, foi como o presidente formatou o problema de “áreas subdesenvolvidas”como as com falta de recursos técnicos e materiais. A solução então proposta foi transferir recursos dos Estados Unidos e de outros países desenvolvidos para o mundo subdesenvolvido. Entretanto, o próprio Presidente Truman reconheceu mais tarde que, “os recursos materiais que nós podemos suportar para o uso e assistência de outras nações é limitado”, ele também destacou que “o imponderável é que nossos estoques de conhecimento estão constantemente crescendo e não são exaustivos”. Em outras palavras, os Estados Unidos transferirem conhecimento para países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, seria a solução para trazer prosperidade para estes, assim como os Estados Unidos também prosperariam.

Esta abordagem inicial criou uma indústria global de desenvolvimento onde organizações internacionais de ajuda de países ricos gastam mais de US$ 140 bilhões em ações oficiais de assistência e desenvolvimento (esta soma não inclui recursos de fundações e organizações privadas). Ainda assim, com a exceção de alguns países como China, Índia e Vietnam, recentes progressos para eliminação da pobreza tem caminhado a passos lentos. Isto ocorre porque a transferência de recursos cria uma dependência e impede a oportunidade para que comunidades desenvolvam suas próprias competências. Esta dinâmica, pela sua natureza, é inerentemente insustentável – uma vez que, assim que o dinheiro para uma iniciativa especifica acaba, comunidades são deixadas em situações não muito melhores do que antes da iniciativa.

O propósito em si de transferir recursos para aqueles que necessitam não é ruim em sua natureza.  A maioria das nações prósperas, como Alemanha, França, Coreia do Sul e Taiwan receberam recursos externos em sua jornada rumo a prosperidade. Mas tais recursos só geraram progresso duradouro quando as comunidades tiveram tempo, expertise e sistemas implantados para absorver tais recursos. Em outras palavras, recursos devem ser transferidos em um contexto que alinha as competências locais de cada região.

A mesma lógica pode ser aplicada as relações que empresas e empreendedores tem com comunidades carentes e desatendidas. As ações de voluntariado empresarial e filantropia são importantes e necessárias, mas, infelizmente, não vão trazer prosperidade e desenvolvido para os beneficiados, além de corrermos o risco de que estas ações sejam canceladas a partir do momento em que haja uma necessidade de redirecionamento de recursos ou redução de custos por parte dos doadores.

RECURSOS SOMENTE CRIAM PROGRESSO DURADOURO QUANDO COMUNIDADES TEM TEMPO, EXPERTISE E SISTEMAS LOCAIS PARA ABSORVÊ-LOS – EM OUTRAS PALAVRAS, RECURSOS DEVEM SER PROVIDOS EM UM CONTEXTO QUE ALINHE COM AS COMPETÊNICAS LOCAIS DE CADA REGIÃO.

No Paradoxo da Prosperidade, Como a Inovação é Capaz de Tirar Nações da Pobreza, o livro de minha coautoria, Efosa Ojomo, com o falecido professor da Harvard Business School, Clayton Christensen, é descrito o papel indispensável que a inovação pode desempenhar no papel de ajudar nações a prosperarem. O livro identifica limites que os modelos comuns de desenvolvimento econômico oferecem e apresenta um novo framework para o crescimento econômico baseado no empreendedorismo e inovações criadoras de mercado. Estas inovações focam menos em resolver os sinais ostensivos de pobreza e propõe uma oportunidade de verdadeiramente se criar prosperidade para pessoas em economias emergentes e suas comunidades.

Concebendo o desafio para o nosso futuro, onde recursos estariam disponíveis para qualquer um, pode parecer simples e inofensivo, mas não é. Do ponto de vista interno ou externo, é provável que a relação doador-beneficiário tem o potencial de fazer com que comunidades vulneráveis se tornem mais dependentes dos ricos, principalmente nas relações desenvolvidas em razão da pandemia. Em vez disso, a comunidade global e empresarial deveriam se concentrar em desenvolver as capacidades locais para aqueles com menos recursos sejam capazes de resolver seus próprios problemas e não precisem mais contar com a generosidade daqueles que possuem mais recursos. Até então, o fornecimento de recursos apenas servirá para tratar os sintomas de uma doença que é ainda mais profunda.

Efosa Ojomo é Pesquisador e Senior Fellow no Clayton Christensen Institute.

Artigo originalmente publicado no blog do Christensen Institute. Tradução e adaptação: Christimara Garcia, fellow volutária no Clayton Christensen Institute.