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A pós-modernidade nas organizações, segundo Jorge Forbes


“Não sei se a gente sai melhor da pandemia, mas tenho a convicção de que sairemos diferentes. Melhor ou pior depende do que cada um entende por essas coisas. Mas, a meu ver, estamos lidamos com um mundo menos padronizado, e isso exige que cada um invente uma solução para si. Vejo a a criatividade como um dos elementos essenciais ao humano, então é possível que saiamos melhores”.

Assim interpreta o médico psiquiatra, presidente do Instituto da Psicanálise Lacaniana e professor de curso sobre liderança empresarial da escola Saint Paul de Negócios, Jorge Forbes. Em debate promovido pela rádio Jovem Pan, Forbes afirmou que, na quarentena, os acontecimentos dos espaços maiores hipertrofiaram, tendo nossos lares como palco.

Mas antes mesmo do mundo ser surpreendido pelo coronavírus, Forbes, que é um dos maiores especialistas mundiais em psicanálise lacaniana e vencedor do Prêmio Jabuti (2013), já chamava atenção para uma importante transição social: a passagem da era moderna para a pós-moderna.

Em entrevista exclusiva à HSM Management, o autor do livro “Você quer o que deseja?” trouxe sua percepção das características pós-modernas no ambiente empresarial. Selecionamos alguns dos pontos abordados na edição 129 da revista.

Como é o mundo pós-moderno, a TerraDois?
É como se tivéssemos mudado de planeta. Ele é geograficamente igual ao anterior, mas se olhar como as pessoas vivem é totalmente diferente. Ninguém nasce ou cresce do mesmo jeito, ninguém anda, casa, estuda, trabalha, se aposenta ou morre como antes. Temos de reaprender tudo.

Que diferenças de TerraDois afetam as organizações?
A diferença fundamental entre TerraUm e TerraDois é que a primeira é uma sociedade verticalizada, enquanto a segunda é horizontalizada. É uma diferença imensa. O modo de ser de uma época é chamada de período ético (o termo grego ethos é a disciplina que estuda o caminho do comportamento). Nos últimos 2,5 mil anos, tivemos três períodos éticos e, agora, vivemos o quarto [veja a figura abaixo]. As três primeiras éticas mudam a transcendência, mas não a arquitetura: são todas verticais, padronizadas. Já a era atual muda de transcendência e de arquitetura. É uma sociedade em rede, sem padrão. Isso abre espaço para a criatividade e, ao mesmo tempo, leva a mais responsabilidade. Se diante do padrão temos de ser disciplinados, diante do criativo precisamos ser responsáveis. Estamos em uma sociedade que é menos padronizada e mais criativa. Agora, é preciso dizer que a criatividade demora para ser reconhecida e isso gera muita angústia.

Será que o Brasil pode ter vantagens nesse contexto pós-moderno?
Sim. O curioso é que o brasileiro sempre acha os países nórdicos ótimos, nos quais a assepsia das relações é a tônica. O modelo da vanguarda mundial, na verdade, é o Brasil. Nós exportamos o modelo do laço social para a pós-modernidade. Agora, apesar de praticarmos isso, ainda não entendemos que não se trata de uma brincadeira. É incrível que as empresas brasileiras, em vez de criar seus modelos com base em nossa cultura, buscam copiar a forma de funcionamento das norte-americanas. São ignorantes e acovardadas! O problema é que nós não nos legitimamos.

Até que ponto o sebastianismo luso-brasileiro não sabota isso?
De fato, temos um modo de ser infantil, por sempre esperar que o outro resolva nossas mazelas. O Brasil, como qualquer organismo social, é vivo e contraditório. Mas, de outro lado, o Brasil e o brasileiro têm, há muito tempo, flexibilidade e horizontalidade no laço social. Repare que o brasileiro não se assusta com globalização, nem com a pós-modernidade. Há muito ele desconfia das hierarquias e das tradições. Não é à toa que
nós mal conhecemos o nome de família das pessoas, que estabelecemos uma intimidade imediata com os outros, que falamos de nós mesmos com bastante facilidade. A vantagem brasileira realmente já existe, resta incorporá-la.

O que as empresas brasileiras podem fazer para incorporá-la?
Vale para as empresas uma recomendação de Goethe, da qual Freud gostava muito. Goethe dizia: “Aquilo que herdaste de teus pais, conquista para fazê-lo teu”. As empresas brasileiras herdaram do jeito de ser brasileiro a vantagem de saber trabalhar e produzir no laço social horizontal, criativo, flexível. Falta se apoderar dessa característica e desistir
da cultura do vira-lata – os meus problemas só o outro consegue resolver. As empresas precisam finalmente descobrir que já temos no Brasil a característica mais importante da globalização – e usar isso a seu favor.

Você fala no líder pós-moderno, mas algumas organizações
que se horizontalizam sugerem a ideia de abolir líderes…

Como não querem perder o bonde, as empresas fazem dois tipos de tentativas de passar de TerraUm para TerraDois: o superficial, que é adequar-se a certos modismos atuais; e o real, de mudar a estrutura de vertical para horizontal. No modismo, a mudança acontece só na aparência: os gestores mudam os nomes dos cargos, rebatizam o código de conduta como código de ética, mostram que são radicais com esse discurso de abolir líderes, mas não criam realmente mecanismos de correção dos comportamentos. Não havendo mudança estrutural, não adianta nada.

O que você mais destacaria nas características da nova liderança?
Eu destacaria a importância da diversidade. O líder moderno estimula eficiência – ser cada vez melhor na mesma coisa – e o pós-moderno privilegia a criação da diversidade. As empresas falam muito sobre diversidade, porém é mais para fora do que para dentro. Sabe por quê? Diversidade traz angústia, o tempo todo. Como eles não sabem
lidar com angústia, querem acabar com ela. Angústia na psicanálise é igual a colesterol na clínica médica. Não dá para tirar o colesterol da pessoa, mas existe colesterol bom e ruim, e temos de transformar o ruim em bom. Também não dá para tirar a angústia das pessoas, mas dá para transformar a angústia ruim em boa.

Jorge Forbes se apresentará na Expo Now! no próximo dia 30, abordando o chamado “novo normal”. Para assistir, basta se inscrever neste link.