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5 razões pelas quais essas inovações são nossa melhor aposta para superar a pobreza


Todo ano, são gastos centenas de bilhões de dólares para auxiliar países subdesenvolvidos e em desenvolvimento a erradicar a pobreza. Com certeza, alguns progressos foram feitos. Nas últimas décadas, não só a porcentagem de pessoas vivendo em extrema pobreza caiu, como também mais pessoas ao redor do mundo estão vivendo mais.

Apesar disso, a realidade é que a verdadeira prosperidade — processo pelo qual mais e mais pessoas de uma região melhoram seu bem estar social, econômico e político — está longe do alcance de muitos. E quando nos aprofundamos na questão, descobrimos que a maioria daqueles que escaparam da pobreza são de um único país — China — que recebeu relativamente pouca assistência em relação a outras nações. Inclusive, o número de pessoas vivendo em extrema pobreza aumentou em algumas regiões que receberam investimentos significativos em programas de combate à pobreza, como a África Subsaariana. Por que esses esforços não estão produzindo os resultados esperados?

As pesquisas do núcleo de Prosperidade Global do Clayton Christensen Institute sugerem que a prosperidade não é gerada pela injeção bem intencionada de recursos de países ricos em países pobres. Ao contrário, a prosperidade cria raízes quando as organizações investem em um determinado tipo de inovação: as inovações criadoras de mercado (ICMs). Essas inovações transformam produtos complicados e caros em produtos simples e acessíveis, permitindo que mais pessoas possam se beneficiar deles. O que faz as ICMs tão especiais? O mercado que elas criam tem um efeito dominó de sustentabilidade econômica, tirando milhares, senão milhões, da pobreza nesse processo. As inovações criadoras de mercado têm um impacto importante por cinco razões:

Criam empregos
ICMs focam em não-consumidores, pessoas que até então estavam impossibilitadas de acessar os produtos e serviços existentes no mercado. E os não-consumidores costumam ser maioria em nações mais pobres. Para atender esse enorme segmento da população, estes novos negócios precisam contratar mais pessoas para produzir, distribuir, vender esses produtos e prestar serviços.

Levam a investimentos perenes em infraestrutura
A infraestrutura é um fator fundamental para o funcionamento de qualquer sociedade. Mas como pontua o economista dinamarquês Bent Flyvbjerg, muitos projetos falham em cumprir o potencial de desenvolvimento econômico prometido. A realidade é que a infraestrutura é incrivelmente cara para se desenvolver e se manter. É aí que entram as inovações criadoras de mercado.

Pelo fato de a infraestrutura ser limitada em países subdesenvolvidos e em desenvolvimento, quem desenvolve as ICMs não tem outra escolha a não ser sanar esses gaps com investimentos próprios. Diferente de projetos subsidiados pelo governo, esses investimentos são, sem dúvida, mais duradouros porque estão atrelados ao atendimento de uma necessidade de mercado.

Considere o impacto no desenvolvimento da Nigéria provocado pela da Tolaram, que criou um mercado para macarrão instantâneo naquele país. Apesar de a Tolaram estar no mercado de alimentação, a falta de logística na Nigéria demandou que a empresa construísse sua rede de caminhões, vans e recursos humanos para preencher essa lacuna. A companhia também é fornecedora da sua própria energia, com a operação de 13 plantas ao redor do país, evitando a dependência do fornecimento público que é, na maioria das vezes, imprevisível. A Tolaram fez esses investimentos para atender o seu próprio negócio. Mas ao fazer isso, sustentou e desenvolveu as regiões em que operava.

Fortalecem instituições
A criação bem sucedida de novos mercados resulta no fortalecimento das instituições necessárias, como os sistemas legal e regulatório, e até mesmo instituições de ensino, quando elas se tornam essenciais para sustentar e ampliar esse mercado.

Por exemplo, antes da empresa IguanaFix criar um novo mercado para serviços de reformas habitacionais na Argentina, a maioria dos empreiteiros trabalhava na economia informal, sem registro dos seus empreendimentos ou pagamento de impostos. Tudo mudou quando a IguanaFix tornou a formalização simples e acessível para eles. Aderindo ao mercado formal, esses prestadores de serviços podem acessar clientes corporativos, seguros trabalhistas e de saúde e abrir, pela primeira vez, contas bancárias. Em contrapartida, eles passaram a cumprir a lei e pagar seus impostos.

É importante ressaltar que, antes da IguanaFix, já existiam leis, sistemas e instituições às quais os empreiteiros deveriam responder. Mas foi quando a IguanaFix criou um novo mercado que os incentivos para essas pessoas mudaram e as instituições foram capazes de funcionar da maneira prevista.

Trazem consumidores para o mercado formal, gerando mais arrecadação para o estado
Assim como as outras inovações, as ICMs geram receitas significativas para o governo. Mas o que faz com que essas inovações sejam especiais é que elas trazem os não-consumidores (que até então dependiam de improvisos e atalhos) para dentro do mercado formal de consumo, transformando-os em contribuintes. Com mais receita de impostos à sua disposição, o governo pode investir nas comunidades, fortalecer suas instituições e prover melhores serviços à população.

São um poderoso remédio contra a corrupção
Na pesquisa do Clayton Christensen Institute, os especialistas descobriram que a corrupção é um tipo de atalho — uma forma de progredir quando existem poucas opções melhores. Um policial extorque o cidadão porque ele não consegue pagar pela educação de seus filhos. Um funcionário de hospital aceita suborno pois seu salário não é suficiente para se manter. Inovações Criadoras de Mercado mudam essa estrutura de incentivo, criando riqueza e fortalecendo leis e instituições de controle que combatem a corrupção. A corrupção se torna, então, menos atrativa quando há formas melhores de progredir e maiores chances de ser punido.

Muitos dos países mais ricos da atualidade, dos Estados Unidos à Coreia do Sul, criaram prosperidade para as suas populações fomentando a inovação. Ford, Samsung, Kia e incontáveis outras grandes empresas têm, todas elas, em comum o seguinte: criaram novos mercados em suas respectivas indústrias e contribuíram para o desenvolvimento dos países nos quais elas operam. Quando se trata de desenvolvimento econômico, são as ICMs que abrem o caminho. Mas os governos e as organizações de desenvolvimento ainda possuem um papel importante: cabe a eles acender a chama, encorajando a sua proliferação.


Efosa Ojomo é pesquisador sênior do Instituto Christensen e co-autor de “O paradoxo da prosperidade: como a inovação pode tirar nações da pobreza”. Efosa pesquisa, escreve e fala sobre maneiras pelas quais a inovação pode transformar as organizações e criar prosperidade inclusiva para muitos em mercados emergentes.

Texto original publicado por Clayton Christensen Institute, think tank sem fins lucrativos e apartidário dedicado a melhorar o mundo por meio da inovação disruptiva.