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Bastam alguns dias numa cidade bacana para repensarmos muita coisa. Ver famílias inteiras passeando por praças, ver crianças brincando na rua, ver idosos conversando em cafés na calçada, todos aproveitando o sol de verão que ainda brilhava às nove da noite em Madri, tudo isso foi um choque para mim, e não deveria ser. Eles estavam sendo madrilenhos e só, eu é que como paulistano e brasileiro tinha perdido a referência do que é a vida civil, social e cosmopolita. Uma tranquilidade dessas, para mim, seria uma disrupção.

Disrupção é um termo interessante e, para mim, ele diz mais sobre o receio dos acomodados em serem destronados por alguma inovação inesperada do que, digamos, uma transformação positiva de qualquer natureza. Quem fala em disrupção, na minha modesta opinião, fala para provocar angústia ou para promover alguma panaceia duvidosa.

Se pensarmos não como executivos, mas como cidadãos e pessoas, ou se pelo menos ouvíssemos as pessoas, veríamos que, para um pobre, disrupção seria comida farta; para um excluído, disrupção seria dignidade; para um paulistano, disrupção seria andar pelo centro da cidade sem medo de ser assaltado.

Disrupção hoje é ver alguém como Satya Nadella, da Microsoft, dizer que está na hora de pensarmos no que os computadores devem fazer, e não mais no que podem fazer. Disrupção é vê-lo abrir um evento como o Build, citando um filósofo que diz que devemos agir pensando na permanência da vida humana genuína.

Disrupção é a cidade de San Francisco banir reconhecimento facial nas câmeras públicas; ou uma empresa privada como a Axon, fabricantes de body cams para policiais americanos, não incluir reconhecimento facial nos seus produtos. Disrupção é Toronto questionar o projeto do Smart City do Google, ou o Congresso Americano questionar a nova moeda do Facebook.

Disrupção, felizmente, voltou a colocar as pessoas em primeiro lugar. A visão tecnocêntrica, a ideia de que tecnologias sejam exponenciais por si só, o discurso de que a raiz dos nossos problemas é a falta de alguma tecnologia cintilante, tudo isso está ficando para trás, e quem ainda insiste nisso, alguma agenda tem.

Nicholas Negroponte, uma inspiração para profissionais como eu, cujas carreiras começaram com o surgimento da web, tinha nos anos 90 a ideia de que mudar o futuro envolvia criar um laptop baratinho e simplificado para que crianças desfavorecidas pudessem ter acesso ao novo mundo da informação digital. Quem hoje se lembra do OLPC – One Laptop Per Child? Quase ninguém, sobretudo porque #deuruim: Negroponte acabou enredado em cipoais de burocracias, governos corruptos, agendas políticas e problemas sociais, e eu mesmo acabei me esquecendo de tudo isso.

Dias atrás, porém, Negroponte volta à cena com uma afirmação desconcertante para muitos (mas música para os meus ouvidos): Ciências Humanas são as disciplinas mais importante para o futuro.

Eu tenho a felicidade de ter um pé em cada mundo, tanto em Exatas quanto em Humanas: quase virei engenheiro da Poli, mas me formei na ECA em Comunicação, e adoraria que mais profissionais tivessem uma bagagem mista como a minha.

Quem vem de Exatas, tende a acreditar em fórmulas universais, em números inquestionáveis, em clareza indiscutível. Quem passou por Humanas, sabe que o mundo humano é complexo, que perspectivas são pessoais e culturais e mudam ao longo do tempo, e que o caminho para o convencimento passa pelo coração e não pelo cérebro.

O século XXI está esfregando na nossa cara uma lição dura: a visão tecnicista, o sonho com modelos e supereficiência e, sobretudo, a ânsia pelo crescimento a qualquer custo custaram caro, tão caro que as gerações futuras pagarão o preço de um estrago planetário que elas não criaram.

Eu sou aluno da Singularity University e consultor certificado em Tecnologias Exponenciais pela ExO Works, mas hoje venho buscando um novo caminho para o meu trabalho. O que me fascina e inspira hoje? Culturas, pessoas, sustentabilidade e, sobretudo, novos paradigmas de colaboração, convivência e realização pessoal.

Isso te inspira também?

René de Paula Jr, hoje líder de Pensamento Exponencial na BRQ, é um profissional com 23 anos de experiência no mercado interativo e seu currículo inclui empresas como Microsoft, Yahoo, Sony e diversas agências digitais como Wunderman, FLAG e AgênciaClick. René é alumni da Singularity University (EP2011) e foi um dos consultores certificados em Tecnologias Exponencias pela ExO Works com participação em vários projetos internacionais.
Produtor independente de conteúdos como podcasts, artigos, videoblogs e palestras, René tem entre seus projetos preferidos o Guia dos Perplexos (www.guiadosperplexos.tv), uma série de 35 entrevistas com pioneiros da internet e o seu podcast diário Radinho de Pilha (www.radinhodepilha.com)

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