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Adriana Salles Gomes
26/02/2012
às 20:04Categorias: ensinamentos, gestão 2.0, gestão de pessoas, hsm management
Highlights HSM Management: A abundância no mundo dos negócios, por David Ulrich
A palavra “abundância” parece um tanto estranha ao universo corporativo. Quando se trata de capitalismo, e principalmente das empresas, escassez sempre foi o conceito-chave. O dicionário Houaiss, por exemplo, apresenta escassez como um termo econômico que significa “falta de um bem ou serviço em relação à sua necessidade”. Ou seja, é a própria definição do mundo em que vivemos: um lugar com pessoas cheias de necessidades e desejos que não são atendidos devido à falta de recursos e que se tornam oportunidades de negócios.
Recentemente, Dave Ulrich (talvez o grande especialista em gestão de pessoas do momento e certamente um dos meus favoritos) cunhou a expressão “organização abundante” para se referir a um tipo de empresa ideal para os nossos tempos, que é bem-sucedida financeiramente, mas comprometida a ser um ambiente que dá sentido à vida das pessoas que ali trabalham.
Eu o entrevistei com exclusividade (saiu na revista janeiro-fevereiro, nº 90), e Dave resumiu os conceitos desenvolvidos em seu último livro com a esposa Wendy, “Por que trabalhamos”. Ele argumenta que, embora bons demais para ser verdade, eles podem ser viáveis, sim, neste mundo em constante mudança. A seguir separei um aperitivo da entrevista.Por que a expressão “organização abundante”? Abundância, ou fartura, dá uma impressão de haver recursos em excesso para funcionários e clientes…
Abundância como o ato de encontrar significado na vida não é um conceito novo em si, apenas sua aplicação aos negócios o é. Se as pessoas agem a partir da emoção e de valores, é porque querem encontrar significado em sua vida –e elas têm agido assim mesmo no ambiente de trabalho. E isso dá certo! O livro Em busca de sentido, um clássico do psiquiatra austríaco Victor Frankl, já mostrou que, mesmo nas piores circunstâncias, as pessoas que encontram sentido sobrevivem às que não. Sobreviver é um sinônimo de sucesso nesse contexto.
Como isso veio parar nos negócios? Está relacionado com os autores mesmo. A paixão de Wendy [Ulrich] é auxiliar as pessoas a se curar de traumas pessoais e psicológicos, enquanto a minha é ajudar a criar organizações competitivas. Um dia, percebemos que nossos interesses se complementam; nós nos demos conta de que prestar assistência às pessoas para que encontrem sentido em seu ambiente de trabalho não só ampara o indivíduo, que despende uma quantidade enorme de energia pessoal e emocional no trabalho, mas também capacita a organização a servir melhor clientes, investidores e comunidades, o que conduz a estar mais bem preparado para a competitividade.
O termo “abundância”, para nós, quer dizer “o suficiente e mais”, algum excesso. Achamos que as organizações podem se tornar ambientes em que há o suficiente e mais. Esse “mais” se refere a dar sentido à vida, a ter um propósito.Como esse conceito de “abundância” vem repercutindo nas organizações desde que você o lançou? Seus clientes já o abraçaram? Posso imaginar que haja um pouco de abundância aqui e ali, mas não em todo aspecto que você mencionou em seu livro…
Há um trabalho maravilhoso de um grupo de colegas que se autodenomina Positive Organization Science (POS). Eles adaptaram o pensamento de líderes da psicologia que definiram a psicologia positiva e descobriram que, quando as organizações se envolvem em comportamentos positivos, elas desabrocham e têm sucesso sustentável.
A maioria de nós já teve experiência desse comportamento positivo trabalhando em uma organização, nem que tenha sido por um breve momento. É quando ficamos ansiosos para ir ao trabalho, concentramos nossos melhores esforços nele, nos identificamos.
Há empresas famosas por dar esse sentido a seus funcionários, sim, como a Herman Miller, com sua paixão pelo design; o Google, com seu compromisso com a inovação; e a Zappos, com seu foco forte no consumidor. Mas ainda são poucas.Você poderia definir os seis itens componentes da abundância organizacional em termos bem práticos?
Eles são: esperança, criatividade, resiliência, determinação, inventividade e liderança.
• Esperança é ter a expectativa de que virão os melhores resultados no futuro.
• Criatividade é enxergar as alternativas não vistas.
• Resiliência é tentar de novo, e de maneira nova, a partir do aprendizado.
• Determinação é a tenacidade duradoura.
• Inventividade não é criatividade, e sim como eu chamo conquistar a capacidade de sustentar a ação.
• Liderança é a arte e a ciência de fazer as coisas acontecer.Eu lhe faço uma correlação com algo bem cotidiano: espero ter uma refeição boa, não ruim; a boa refeição exige criatividade para preparar a comida de maneira única, em vez de ser algo repetitivo; quando a comida não é bem preparada, aprendemos e melhoramos; estamos determinados a ter boas refeições ao longo do tempo, não uma vez só; somos inventivos quando recorremos aos outros em busca de conselhos para aprimorar e variar as receitas; e líderes são os chefs que criam o cardápio e a experiência da refeição.
O discurso corporativo tem sido visto como mensagens de best-sellers de autoajuda e muitos (funcionários, inclusive) o rejeitam como se fossem afirmações óbvias, artificiais ou manipuladoras. Como um líder pode falar sobre motivação a partir do sentido e evitar esses rótulos de autoajuda?
A melhor maneira de superar os truísmos superficiais da autoajuda é transformar as ideias em ações de impacto. Alguns líderes pulam de um modismo a outro em gestão e aprendem o vocabulário desvinculado das ações. Assim, criam um ciclo vicioso de promessas de desempenho que leva ao cinismo e ao ceticismo.


