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Ricardo Saldanha
04/02/2011
às 12:33Categorias: ensinamentos, estilo e comportamento, história, inovação, trends & insights
Futuro e presente de mãos dadas com o passado
Todos vocês já devem ter visto a excelente iniciativa que a HSM Online lançou: refiro-me ao Mosaico, que faz um crowdsourcing de tendências sobre temas como Web, Brasil e Liderança, dentre outros. Eu deixei lá os meus dois pitacos.
O primeiro deles fala sobre a ubiquidade da computação em nossas vidas. Tem a ver com o fato de que, cada vez mais, o futuro é hoje, tamanha a compressão do ritmo das inovações. E não estamos falando de questões tecnológicas, puramente: a onipresença do meio digital, que faz com que comece a se tornar ridículo falar em virtual x real, afeta nosso modo de pensar, nossas relações – nossa sociedade.
Mas não existe futuro sem passado e presente – base da reflexão da minha segunda previsão. E as rupturas (as famosas “quebras de paradigmas”) precisarão sempre conviver com o legado – e serão diretamente influenciadas por ele, numa “luta de bastidores” entre o velho e o novo, onde, por definição, nenhum dos dois vence completamente.
Hoje, particularmente, a provocação do Mosaico se mistura a um sentimento de nostalgia (no final do post eu conto o porquê…). Puxando no meu baú de recordações, encontrei pérolas que nos mostram o quanto muito do que teorizamos e vislumbramos pode ser sentido na pele – e na história pessoal. Vejam só:
- Vi o primeiro computador aos 14 anos de idade (portanto, 28 anos atrás), na casa de um amigo de colégio, André Machado. O pai dele, médico, usava intensivamente um Apple II – e até tinha livros escritos sobre programação. O bicho “já” tinha monitor colorido, som e drive de disquetes de 5 1/4 – uma máquina turbinada, portanto.
- No mesmo ano, se não me engano, meu pai acabou comprando um micro pra mim também, de tanto que eu pedia: era um TK-82C, com 2Kb de memória (não, você não leu errado, é isso mesmo). Mas eu não estava tão mal assim: compramos o micro de segunda mão e ele veio com uma expansão de memória, que atingia sensacionais 16Kb. O teclado era de “membrana” (ou seja, era liso e funcionava sob pressão… uma maravilha…), usava fita cassete para armazenagem e era ligado na TV. Claro, não tinha som, nem imagem colorida…
- Existia praticamente uma única publicação voltada pra microinformática: a revista Microsistemas. Ela aceitava contribuições dos leitores e eu tive a primeira experiência de ver “dicas” minhas publicadas para o mundo… As demais revistas eram importadas e traziam muitas vezes o código hexadecimal de jogos e programas, que você teria que digitar, um a um, no tal teclado de membrana, para compilar e então rodar (caso não tivesse cometido nenhum erro). Só doido para fazer isso, não (pois é, eu e meu primo “perdemos” muitas tardes de sol, para desespero dos meus pais, formando dupla para digitar os tais códigos enquanto o outro ditava…).
- No centro do Rio de Janeiro, existia apenas uma loja de informática – a Clappy Computadores. Ela exibia o CP-500, talvez o primeiro all-in-one do planeta. Era meu sonho de consumo – e eu nunca cheguei a ter um (traumas de infância a gente nunca esquece).
- Depois, veio o Applle IIe (o e no nome vinha de enhanced – aperfeiçoado) e começaram a fabricar clones nacionais. Digitei muuuuitas teses para professores da UFRJ em um micro como esse – ainda sem HD, mas já com duas unidades de disco (numa rodava o Wordstar, editor de texto; na outra salvava-mos os dados).
- Eis que entrei para a família PC, com um XT (aí sim, com HD, mas ainda com monitor de fósforo verde). Quando minha primeira filha nasceu, em 1992, cheguei ao nirvana, comprando um 486.
A “saga” que relatei acima se deu, portanto, no intervalo de 9 anos. Começavam os BBSs, não havia internet – e meu primeiro modem transmitia a uma velocidade de 2.400 Kbps, via linha discada (os últimos modens para linha discada atingiam 56.000 Kbps… e hoje isso é ridiculamente “estreito” perto da banda larga mais básica do mercado).
Sim, estou ficando velho. E esse envelhecimento vem cada vez mais rápido, no sentido de que as novidades se sucedem de tal forma que você se surpreende quando encontra um modelo “antigo” de celular na gaveta – e ele não tem nem 5 anos.
Paradoxalmente, ainda há milhões de excluídos digitais nos dias atuais. E mesmo que o acesso pleno chegue, isso ainda não significará inclusão plena (assim como saber desenhar as letras do alfabeto não faz de ninguém um ávido consumidor de livros, muito menos um intelectual).
No mundo corporativo, onde transito, é ainda mais fácil ver essa janela de interseção de eras que vivemos – é o que eu chamo de “esquizofrenia da transitoriedade”. Temos a cabeça presa ao passado, via modelos mentais; mas as mãos e os olhos nas telas e teclados de uma nova realidade. Hardware e software caminham absurdamente mais rápido do que Peopleware – e isso não pode ser desconsiderado.
Fato é que, quando o futuro se aproxima tanto do presente, como agora, o passado nos espreita mais de perto. Faça silêncio e concentre-se: é possível ouvir o ranger de dentes dessa tensão permanente entre o novo e o velho, acredite.
P.S. – Reflexões assim, só mesmo em dia de balanço – leia-se, dia de aniversário. Hoje, 4/2, é o meu quadragésimo segundo – um ano a mais, um ano a menos.
@InstitutoIP
» Comentários
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Clara
11/02/2011 - www.facebook.com/clara.martinsmachadoOi, entendo exatamente como você se sente…
Vi meu primeiro pc aos 4 anos na casa do meu primo, apenas com DOS.
Aos 8 anos meu pai comprou o primeiro pc, já com win3.11
Aos 10 anos comecei acessar a web, usava o MIRC, fazia site e tudo mais (mal feito né?:P)
E hoje em dia vejo como está a web e é como se eu não soubesse mais nada sabe…Bem complica, humildade nessas horas é importante:-)
bjs -
Ricardo Saldanha
14/02/2011 - www.intranetportal.org.brPois é, Clara, as inovações nesse segmento se sucedem de forma exponencial. Nem é preciso ser velho de fato para ter a sensação de nostalgia…
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Alexandre Mendes
17/02/2011 -Alexandre Mendes – alexmpb@globo.com – muito interessante esta reflexão, nos fez pensar no passado e presente, ali, grudados e ao mesmo tempo o futuro já esta aí, rapido, nos chamando a participar. Esta tua volta ao passado foi otima. Boa sorte!
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Ricardo Saldanha
18/02/2011 - www.intranetportal.org.brAlexandre, que bom que gostou. A gente costuma sempre olhar pra frente e a velocidade da inovação é algo bem óbvio, mas não sei se esse sentimento de que, com isso, o passado também parece mais perto, é comum a todo mundo. Também acho que é importante não esquecer dele, temos um legado a trabalhar (odeio esses discursos do tipo “reinvente-se”, “destrua sua empresa e comece de novo”… é muito bom pra vender livro – e só).
Espero contar contigo nos próximos posts – já estou escrevendo um sobre os motivos que fazem com que o senso comum associe “colaboração” à perda de tempo…
[]s,
Saldanha



