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    Ricardo Saldanha

    20/01/2011
    às 14:43

    Categorias: competitividade, conteúdo, estratégia, gestão, gestão 2.0, gestão do tempo, inovação, internet, social network, sustentabilidade, tecnologia, trends & insights

    Déficit de tempo e atenção: males do século

    Apesar dos muitos argumentos em defesa dos ambientes colaborativos corporativos como essenciais à produtividade e à competitividade, salta aos olhos que a adoção dos mesmos pelos colaboradores é sempre o maior desafio em qualquer projeto de implantação ou reformulação de intranets e portais corporativos avançados (no jargão consultivo, desafio = algo que a gente ainda não sabe bem como resolver).

    Nos mais de 10 anos em que atuo como consultor neste segmento, vivo escutando coisas como “o documento está na intranet, mas poucos leem”; “geramos uma base de boas práticas, mas as pessoas insistem em querer reinventar a roda”; “criamos toda sorte de recursos baseados na web 2.0, mas os colaboradores não colaboram (sic) entre si”… A pergunta que fica é simples: por quê?

    Há várias razões concorrentes, que abordarei aqui ao longo do tempo. Mas hoje vamos conversar sobre dois obstáculos que considero os mais basais de todos e que reforçam-se mutuamente: os fatores “atenção” e “tempo“.

    Escassez de atenção

    Falamos sempre em ambientes colaborativos e intranets avançadas como plataformas da gestão da informação. E também como potenciais promotores do que os teóricos chamam de “inteligência organizacional”, tangibilizando muitos aspectos da Gestão do Conhecimento. Tudo muito bonito e importante.

    Entretanto, a base de toda troca e de toda tomada de decisão é o aprendizado (não por acaso, Peter Senge cunhou a expressão “organizações que aprendem”). E, afinal, o que é preciso para aprender? Minha lista teria: reflexão, experimentação (incluindo o erro como parte do processo) e… atenção. E aí nos aproximamos do dilema fundamental que as organizações enfrentam.

    Ele está diretamente ligado a uma regra de ouro da economia “toda abundância leva a uma nova escassez“. Como escreveu Herbert Simon (citado por Chris Anderson no excelente livro “Free“):

    “Em um mundo rico em informações, a riqueza da informação implica a carência de outra coisa: escassez daquilo que a informação consome. O que a informação consome é bastante óbvio: ela consome a atenção de seus destinatários. Dessa forma, a abundância de informação gera carência de atenção.”

    Detalhe: o nosso amigo Simon escreveu isso em 1971 – visionário, não? Afinal, olhe para o mundo atual, hiperconectado. E pense um pouco na sua rotina diária: sim, agora é óbvio: a abundância de informação leva a uma escassez de atenção!

    Ora, se seus colaboradores, trabalhadores do conhecimento que são, vivem essa realidade, então a resposta ao nosso questionamento original pode estar aí. Em parte.

    Tempo ao tempo

    A outra parte da resposta está nos efeitos colaterais que as ondas do Downsizing e da Reengenharia imputaram a todos nós: em nome de uma organização mais enxuta e eficiente, muitas atribuições e papéis que antes eram executados por 2 ou 3 pessoas passaram a ser destinados a uma só, com a promessa de que, em paralelo, os processos seriam simplificados e a tecnologia viria suprir a baixa no headcount.

    Fato é que nem sempre é assim: você hoje tem muito mais trabalho e responsabilidade, os processos “são assim porque sempre foram assim” e a tecnologia muitas vezes parece que atrapalha mais do que ajuda, não?

    É nesse ponto em que o déficit de tempo se soma ao déficit de atenção, impedindo que todos os benefícios propalados pela literatura se tornem realidade… Além de muita informação, temos pouco tempo para processá-la, ruminá-la e transformá-la em conhecimento. Sem tempo para refletir e interagir, não há troca, não há aprendizado – não há inovação.

    Contradições do mundo moderno

    Isso nos leva a uma encruzilhada: vivemos em um mundo hiperconectado, temos as tecnologias para fazer da empresa um grande e integrado “cérebro”, mas não oferecemos os demais recursos necessários para que as sinapses aconteçam de fato. Estamos na Era do Conhecimento, mas sacrificamos as condições basais para que os seus enormes benefícios sejam amplamente incorporados.

    Em outras palavras: queremos que as pessoas colaborem, mas não damos a ela o tempo necessário para que reflitam sobre o processo e suas oportunidades de melhoria (queremos, ao contrário, que elas façam mais e mais processos, vistas não como trabalhadores do conhecimento, mas sim – e ainda – como parte de uma linha de montagem). Temos uma enorme gama de informações, sem limites logísticos para entregá-la aos destinatários, mas continuamos empurrando “tudo para todo mundo” nas intranets básicas da vida, contribuindo para aumentar o déficit de atenção (ao invés de diminuí-lo).

    Steven Johnson, no seu igualmente excelente “Emergência“, já falava sobre isso, utilizando como metáfora a diferença entre passar de carro pela rua, com os vidros fechados e o ar condicionado ligado, e andar a pé no mesmo trajeto, quando você interage com as pessoas, sente os odores do hortifruti e reflete sobre o caminho – e sobre a vida.

    De certa forma, parece que estamos aceitando a velocidade da infovia como paradigma para a nossa própria rotina – a questão é que ainda somos seres humanos (felizmente) e isso faz com que da rapidez só tiremos a pressa.

    Falando especificamente de intranets e portais corporativos, isso nos leva ao post anterior: fazer a informação chegar ao destinatário certo, de forma pró-ativa e considerando seu contexto, é uma necessidade (e uma obrigação) num mundo dominado pelo déficit de atenção e de tempo. E vai nos levar também ao próximo post, onde pretendo abordar essa e outras estratégias para quebrar o círculo vicioso e, de fato, contribuir para que a abundância de informação se transforme em valor efetivo.

    Até lá, aguardo os comentários de vocês sobre as mal traçadas acima – respondo a todos, prometo!

    @InstitutoIP

    » Comentários

    • Alexandra Delfino de Sousa

      21/01/2011 -

      Parabéns pela abordagem que nada tem de superficial, Ricardo. Conseguiu me manter atenta a todos os parágrafos e me fez refletir sobre mil aspectos da questão. Compartilho apenas algo que me veio à cabeça: “É tanta coisa no menu que eu não sei o que comer” (Raul Seixas, Óculos Escuros). Ah, e também uma esperança: que façamos melhores escolhas, mais em sintonia com o que realmente importa para nossa vida – o que, é claro, independe da tecnologia de apoio.

    • Sérgio Storch

      24/01/2011 - www.contentdigital.com.br

      Ricardo, mal traçadas linhas nada! Um post dos mais relevantes para quem pensa ambientes colaborativos para sua empresa. Tenho uma pequena complementação para a sua observação de que “fazer a informação chegar ao destinatário certo, de forma pró-ativa e considerando seu contexto, é uma necessidade”. Mesmo isso já é insuficiente, pois só essa informação já é avassaladora. E, por outro lado, ninguém, nem mesmo o destinatário, são capazes de saber a priori qual é a informação que lhe será mais útil. Qualquer pré-seleção leva à possível perda das melhores oportunidades. Só vejo uma saída para este “mato sem cachorro”: afiar as capacidades cognitivas das pessoas para que “sintam” a cada momento o que deve ou não deve ser priorizado para leitura. Em outros termos, afiar a inteligência e a percepção. Yoga? Meditação? Tai chi? De qualquer forma, acho que a resposta está menos na gestão de conteúdo do que na educação do olhar e do sentir. Escrevi um post sobre isso semana passada. Veja lá: “A quinta disciplina, o samba e o recall dos parlamentares”.

      Um abraço

    • Ricardo Saldanha

      24/01/2011 - www.intranetportal.org.br

      Alexandra, fico feliz em ver que o longo post não foi suficiente para reduzir o teu ímpeto de chegar às conclusões que propus. É, de fato, tema que leva a muita reflexão, não?

      Sérgio, meu grande amigo, obrigado pelas gentis palavras. Concordo com você que cuidar do ser humano é o que há de mais basal em toda essa história, mas acho que isso não pode nos desviar da missão de fazer o melhor ambiente colaborativo possível, foco prioritário do post, levando em consideração os aspectos de tempo e atenção. Em outras palavras: mesmo colaboradores com capacidades cognitivas apuradas merecem um ambiente digital que procure se antecipar às suas necessidades. Só discordo quanto ao fato de que a pré-seleção leve sempre à perda das melhores oportunidades: em tese, o risco sempre existe, mas na prática uma boa análise de negócio e uma estrutura colaborativa rica podem, ao contrário, evidenciar onde essas oportunidades ricas estão.

      []s,
      Saldanha
      @ricardosaldanha

    • José Eugênio Grillo

      25/01/2011 -

      Olá, Ricardo, bastante pertinentes os 2 posts da série. Dado ao dinamismo dos contextos digitais dentro (em menor grau) e fora (cada vez maior e aumentando) das organizações, é urgente o fomento dos ambientes colaborativos nas organizações principalmente quanto às redes sociais, assunto cada vez mais frequente aqui no Portal HSM. No segmento estratégias para empresas nas redes sociais há uma série muito interessante de posts publicados em 2010 pelo prof. Silvio Meira em http://migre.me/3JZqp, onde, no futuro, os ambientes colaborativos internos se integrarão aos ambientes colaborativos externos. Bom, o tempo e a atenção serão ainda escassos.
      abs,
      @grillojotae

    • Sérgio Viegas

      25/01/2011 - www.icci.org.br

      Muito bem escrito Ricardo. A sociedade convencionou falar que tempo é dinheiro e que não temos tempo. Realmente o tempo está curto para as decisões e atividades do dia a dia, mas o tempo passa, não o controlamos. Controlamos nossa atenção no tempo. O tempo se desprende da atenção humana. Aprender a gerenciar a atenção é o caminho mais curto para melhorar a produtividade. Abraços !!
      Sérgio Viegas

    • Elizabeth Merlo

      26/01/2011 - www.micvitoria.com.br

      Sim, Ricardo, cada vez mais precisamos lembrar que o ócio criativo de Domenico De Masi merece ser praticado. Só assim vamos conseguir viver nossas “destruições criadoras” tão fundamentais ao processo de inovação. Sucesso!

    • Ricardo Saldanha

      26/01/2011 - www.intranetportal.org.br

      Elizabeth, você citou justamente quem eu considero que melhor captou essa questão da necessária contrapartida de tempo e atenção para que as promessas da nova era se concretizem. Só lamento profundamente que a expressão tenha sido traduzida como “ócio criativo” – além de hermética, ócio tem sempre uma conotação negativa na nossa língua… e isso prejudica a assimilação da proposta dele, acredito.

      Sérgio, concordo com você e acredito que ambientes digitais ricos, pró-ativos e “inteligentes” são um elemento importante para o gerenciamento da atenção.

      José Eugenio, obrigado pelos elogios. Vou ver os posts que vc indicou, obrigado por compartilhá-lo conosco.

      []s,
      Saldanha

    • Ricardo Saldanha

      08/02/2011 - www.intranetportal.org.br

      Amigos leitores, quero compartilhar com vcs dois links que têm tudo a ver com o tema do meu post acima – espero que gostem:
      - How To Capture Attention: Attentionomics in the Age of Content Decay http://slidesha.re/dJsxBc
      - Recovering from information overload http://www.mckinseyquarterly.com/Organization/Talent/Recovering_from_information_overload_2735

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