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A taça dos bons negócios

De um jantar com Peter Drucker nasce a paixão por vinhos e a consciência do quanto esta bebida pode estar ligada ao mundo dos negócios. Leia esta história.

Vou repetir uma historia que já contei, mas é o melhor inicio de texto que pensei para este novo tema, portanto, não pare de ler nos primeiros paragrafos pois o novo virá logo a seguir.

Já no crepúsculo de sua vida, o pensador e economista Peter Drucker, o pai da moderna ciência da Administração, recebeu-me para um jantar em sua casa, em Claremont, na Califórnia (EUA). A longa conversa foi regada por um ótimo vinho Napa Valley. Homem de múltiplos conhecimentos, Drucker discorria sobre qualquer assunto, da gestão de grandes empresas ao desenho urbano das cidades brasileiras.

Em certo momento, manifestei-lhe uma curiosidade.
- Professor, como o senhor consegue saber tanto, com tanta profundidade, sobre tantos assuntos? Com um sorriso quase adolescente nos lábios, ele me respondeu:
- Easy, Julio, easy. Quando eu tinha vinte e poucos anos, resolvi eleger um assunto, fora de minha área profissional, e estudá-lo a fundo durante cinco anos. Depois, passei a outro. Hoje, com mais de 90 anos, posso afirmar que conheço relativamente bem pelo menos uns 14 temas.

Naquele momento, sem hesitação, decidi copiar aquele método quinquenal de estudo. No entanto, Drucker prosseguiu dissertando sobre a busca do conhecimento.
- Sabe Júlio, quando tomei essa decisão há 70 anos, levava mais tempo para encontrar o conteúdo do que para estudá-lo e absorvê-lo. Hoje, com a Internet, grandes livrarias e inúmeras bibliotecas, a minha recomendação é que você eleja dois temas a cada três anos.

Dessa forma, refiz imediatamente minha agenda futura. Nos três anos seguintes, passei a me dedicar ao estudo de dois temas que sempre tinham me fascinado: a Filosofia e o universo dos vinhos. Assim, comecei a adquirir livros, realizar pesquisas na Internet, assistir a conferências e a vivenciar experiências nessas duas áreas. De repente, percebi que ultrapassara a trinca de anos e continuava dedicado a estudar esses mesmos dois assuntos. Haviam se convertido em paixões.

Depois de refletir sobre a questão, encontrei uma justificativa: ambos os temas eram extremamente complexos, ricos e inesgotáveis. Convenci-me de que pesquisar o mundo das ideias e o mundo dos vinhos era uma tarefa sem fim. Ainda que vivesse 1000 anos, restaria muito a aprender.

Bebida da práxis

Aos poucos, descobri que o vinho também mantinha íntima relação com o mundo dos negócios. Grandes empreendedores, como os antigos egípcios, geraram riquezas por meio da fabricação da bebida. Nas câmaras dos faraós, aliás, os arqueólogos localizaram inscrições que mostravam as diversas fases da preparação, da colheita até a fermentação.

Na tumba do faraó Tutancâmon, foram encontradas dezenas de ânforas de vinho. Algumas delas apresentavam detalhes da área de plantio, safra, designação do comerciante e até adjetivos de qualidade. Vale lembrar que surgiu no Egito a profissão de provador de vinhos.

A produção em escala também seria fundamental para o desenvolvimento cultural e econômico da Grécia. Bebida preferida do Deus Dionísio, era consumida por gente de todas as classes. Cerca de 1000 anos antes de Cristo, os gregos já plantavam videiras em outras regiões da Europa, começando pela Sicília e pelo sul da península itálica. Veja leitor, que excelente exemplo de globalização econômica.

O vinho também acompanhou de perto a ascensão romana. Movimentou a economia, gerou ocupação laboral, saciou a sede dos exércitos e alegrou as festas nas grandes cidades do império. Na região de Nápoles e Sorrento, encontravam-se alguns dos melhores vinhedos. E muitos empreendedores enriqueceram, produzindo e comercializando variedades caprichadas, de excelente sabor. Foi o caso do pessoal que fabricava o renomado Opimiano, cuja safra de 121 a.C. foi consumida por mais de um século.

Nos períodos seguintes, o vinho ganhou uma aura divina também para os cristãos. Afinal, simbolizava o sangue de Jesus Cristo. Sua taça firmara um acordo diferente, de fé e amor com os discípulos. Durante séculos, a Igreja manteve extensos vinhedos nos mosteiros europeus. A bebida era produzida para a Eucarística, para o consumo dos religiosos e, em muitos casos, também para o comércio.

Por milhares de anos, portanto, o vinho que inspirou ideias também constituiu um segmento econômico importante, que abrangia a atividade agrícola, empreendimentos fabris e redes de distribuição e vendas. O mundo civilizou-se ao sabor dos vinhos. Onde havia uma rota estabelecida de comércio, estabeleciam-se trocas culturais e gerava-se riqueza. Se o vinho de um povo encontrava outra cultura, inibia-se nesse eixo o gosto pela guerra.

Degustação para negociantes

Não sou enólogo tampouco sommelier. Considero-me apenas alguém que adora vinhos e que não gostaria de morrer sem perscrutar um pedaço desse fascinante universo. Digo “pedaço” porque uma vida não é suficiente para se conhecer 1% das histórias do universo do vinho.

Nos últimos anos, porém, tenho visitado diversas regiões vinícolas pelo mundo, como o Douro, a Borgonha e as áreas de cultivo e fabricação do Chile e da Argentina. Ao encontrar pessoas das mais diferentes culturas, etnias e condições sócio-econômicas, certifiquei-me de que o vinho patrocina entendimentos, conciliações e, sim, bons negócios. Diferenças e ressentimentos frequentemente submergem no redemoinho suave que energiza cada taça.

O vinho estabelece amizades, propicia o aprofundamento do debate e sugere reflexões compartilhadas, com elegância e mais franqueza. Para quem pretende fazer negócios, vale a pena estudar mais sobre sua história, seu encantamento e os rituais que o cercam. Essa bebida maravilhosa estabelece sinergias, inspira a solidariedade e desperta a capacidade dialética de se compreender melhor o interlocutor.

Quer a iluminação resultante do debate franco? Quer estabelecer um bom acordo de negócios? Comece, pois, pela degustação. Convoque as pessoas. Depois, escolha um bom vinho e compartilhe-o com generosidade e alegria.

Por Carlos Alberto Júlio (Empresário, palestrante, professor e autor. Vice-presidente do conselho de administração da Tecnina e conselheiro da Camil Alimentos. E-mail: julio@carlosjulio.com.br
 

HSM Online
22/04/2010

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por: Carlos Alberto Júlio
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Comentários

Vinho

Bom texto. Pode convencer a quem não gosta de vinho a começar a beber para fazer negócios.Mas que beber um bom vinho sempre merece um momento, seja qual ele for; negócios, namoro, celebração, amizade, solidão. Viva o sabor do vinho! viva a conquista de bons negócios!
Descobri isso a alguns anos, o vinho transcende a bebida e o ato volumoso de beber como comumente acontece com a cerveja.Acompanhado de uma boa água para despertar o paladar e um acompanhamento equilibrado, uma garrafa fornece mais de uma hora de boa conversa e degustação (já marquei isso), sem ninguém perder o equilíbrio, mas aproximando na medida certa.Parabéns pelo texto.lorenzo busatowww.gruposupera.com.br
Esta história é realmente muito interessante e fascinante, eu já tinha visto o Prof. Carlos Júlio comentar sobre este épico momento em uma entrevista em um canal fechado do qual não me recordo o nome.Eu sou um apaixonado por Management e tenho como inspirações, obviamente Drucker, mas também o prof. Carlos Júlio, que ainda não tive o prazer de assistir uma aula ou palestra.Sucesso

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