Os verbos em extinção

Aos poucos, a era digital deixa de ser de dados para se tornar de dedos e os verbos usados para caracterizar a tecnologia, vão inexistindo
Outro dia precisei explicar a um menino de seis anos o que é um “disk pizza”. Ele até suspeitava que era um serviço de delivery, só não entendia o real significado da palavra “disk”.
Para alguém que jamais usou um telefone de disco, o fato de a pizzaria ter escrito o nome em inglês, para ficar mais chique – e menos italiano –, confundiu ainda mais a cabeça dele, achando que era um “hard disk” virtual com receitas de pizza. Algo como um “Wikipizza”.
Esse acontecimento me fez pensar com meus botões do teclado em como a evolução da tecnologia está colocando alguns verbos em extinção.
O próprio termo “baixar” está com os dias contados, pois serviços como o iCloud, aliados à evolução e democratização da banda larga, farão com que, cada vez menos, você precise instalar coisas no HD da sua máquina.
Hoje, quase tudo é acessível a qualquer hora e de qualquer lugar e, em breve, também será de qualquer device. E as gerações vindouras jamais saberão que essa única tela interativa um dia já teve vários nomes diferentes como computador, televisão, celular, MP3 Player, tablet.
Contudo, quando esse dia chegar, muitos outros verbos já terão ficado pelo caminho. O próximo, com certeza, será “teclar”, um dos mais conjugados na década de 1990 – virando símbolo de uma geração de jovens que gastava inúmeras horas em salas de bate-papo, muito antes dos comunicadores instantâneos dominarem o universo dos xavecos à distância. E já estou até me preparando para um dia esclarecer a alguma outra criança o que significava a frase ‘quer teclar comigo?’.
Afinal, as futuras gerações mal saberão o que é um botão. Elas nascerão rodeadas de objetos com tecnologia touch – basta observar os bebês de hoje passando o dedo na tela da TV, como se fosse um iPhone, para perceber que, daqui a algum tempo, o controle remoto virará um objeto de museu.
Em breve, esses novos usuários (outro termo que está na UTI) não vão querer mais controlar remotamente os aparelhos eletrônicos, mas sim ter o controle direto de tudo à sua volta. E nada mais intuitivo do que fazê-lo por meio de um simples toque. Assim, aos poucos, a era digital deixa de ser de dados para se tornar de dedos.
Com a morte anunciada dos botões, “clicar” é outro verbo que vai se aposentar em breve. Os mouses, coitadinhos, não sobreviverão por muito tempo – e por mais que as câmeras digitais ainda preservem o barulhinho charmoso do clique, nossos bisnetos fotógrafos jamais dirão que “clicaram uma modelo”. A não ser que façam algum trabalho de moda com estética “retrô anos 2000”.
Antes que os analógicos de plantão reclamem, não adianta ficar se lamentando. É um fato! Parafraseando o “recém-uploadado” Steve Jobs: “A morte é o grande agente transformador da vida. Ela tira do caminho o que é velho e abre espaço para o que é novo”. E graças a ele, falta pouco para o mundo se tornar 100% interativo.
Pena que Steve Jobs não estará mais aqui pra meter o dedo.
Eco Moliterno é professor da Miami Ad School/ESPM.
Portal HSM
06/12/2011
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Comentários
seg, 12/12/2011 - 16:10
A evolução tecnológica sempre impactou a comunicação de forma geral, foi assim quando o carro substituiu a carroça ou quando a máquina de lavar aposentou as lavadeiras. Ainda bem que a vida é uma eterna evolução, do contrario seria um tédio.
Parabéns pelo artigo.
sab, 12/10/2011 - 12:17
Abordagem muito interessante e, até mesmo, preventiva. Parabéns!
Agora, fico a perguntar: o que ainda vem por aí?
Sds
ter, 12/06/2011 - 17:09
Para pensar!
ter, 12/06/2011 - 17:08
Para pensar...
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