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Empresa familiar: onde a empatia deveria reinar

A colaboração é um dos aspectos que Stephanie Brun de Pontet enfatiza em sua atuação junto a familiares que são também sócios e colegas de trabalho. A consultora observa que a capacidade de desenvolver empatia é uma preocupação que emerge com frequência em seu trabalho com as famílias proprietárias. “A empatia e a compreensão genuína entre as pessoas são críticas para o bom funcionamento da sociedade e certamente essenciais na família”, diz ela.

Segundo a consultora, “procurar entender o ponto de vista dos outros é sempre uma boa ideia, não importando se as relações familiares são caracterizadas por carinho e compreensão ou por frustração e conflito”. É o que lemos no blog do The Family Business Consulting Group, firma na qual Pontet é sócia de John Ward, com quem alternará o microfone durante o Special Management Program HSM – Family Business 2011, nos dias 11 e 12 de maio.

A empatia é a capacidade humana de nos colocarmos no lugar do outro. Num nível patológico, como explica Daniel Goleman, autor de Inteligência emocional (ed. Objetiva), é apenas uma capacidade cognitiva, que não faz com que de fato sintamos o que o outro sente, nem que sejamos compassivos. “Há pessoas que entendem como você vê uma questão, mas não ligam para você”. É o caso do narcisista patológico ou do sociopata, que possuem blindagem emocional.

Entre quaisquer membros de uma organização, espera-se que exista uma real preocupação com o outro, que as pessoas desejem ajudar umas às outras, porque conseguem perceber quando alguém precisa de apoio. Se estamos falando de parentes que trabalham juntos, a necessidade de empatia torna-se ainda mais evidente. No entanto, na empresa familiar, “as emoções tendem a ser cruas e intensas”, afirma Pontet. “Os homens e mulheres de negócios mais inteligentes e racionais parecem, de repente, ser irracionais, crianças petulantes, quando tentam negociar uma questão carregada de emoções”, observa.

Negociamos o tempo todo, e negociar pode ser mais difícil quando o interlocutor é nossa mãe-chefe ou nosso irmão-par. Pontet comenta que, quando a resposta de uma das partes parece ser muito fora de propósito, ou seja, com forte e destrutiva carga emocional, ela traz confusão e medo para a sala de reuniões, o que pode tornar as conversações menos produtivas e eficazes.

O conselho da especialista é que as pessoas sejam estimuladas a verbalizar seus sentimentos e medos, bem como o resultado que esperam da negociação. “Isso também as ajuda a encontrar pontos em comum.” Além disso, é preciso fazer um esforço consciente. “Conforme você tenta escutar e compreender a outra parte, assuma que ela é uma pessoa racional, bem-intencionada e tente considerar por que pessoa tão boa enxerga a questão daquela maneira”, recomenda.

E o que acontece quando sentimos que não somos compreendidos, ainda que seja por nosso pai, com quem convivemos desde sempre? “Você pode sentir a ansiedade de não pertencer ou não ser aceito, um stress que é mais intenso quando se trata do grupo familiar”, elucida a psicóloga. No contexto da família proprietária, se um indivíduo não se sente verdadeiramente aceito pelos demais membros do grupo, pode tornar a cooperação impossível.

Emoções entrecruzadas no grupo familiar

A carga afetiva na empresa familiar pode ser bastante pesada, porque a comunicação entre os familiares no âmbito da empresa, e em nome de um ideal, será eventualmente contaminada pela força do inconsciente. Essa característica torna a empresa familiar singular na visão de Roberto Rosas Fernandes, psicólogo e analista junguiano, acostumado a receber em sua clínica empresários que, durante o percurso da análise, se veem às voltas com a rivalidade entre parentes ou com a angústia da própria sucessão.

Fernandes explica que as questões que afetam as relações na empresa familiar são simplesmente humanas: “Por exemplo, o filho pode sentir que sua criatividade está sendo ameaçada de anulação pelo pai. Este, por sua vez, pode sentir que seu poder está sendo ameaçado pelo poder crescente do filho mais velho, ou, ainda, os filhos podem competir por prestígio e pelo olhar do pai. Tudo isso é frequente”.

Tais emoções afloram pela força dos complexos da psique, conceito desenvolvido por Carl Jung. “Os complexos mal-trabalhados são emoções infantis, geralmente destrutivas, rancorosas, de competitividade ou de busca de espelhamento e reconhecimento”, esclarece o analista, que prossegue: “Quando um complexo negativo é ativado, seja nos pais, nos filhos ou entre marido e mulher, justamente a empatia será abalada, porque as relações serão distorcidas”.

Ele ainda explica que uma empresa familiar tem de lidar com o excesso de proximidade entre os membros da família, o chamado “incesto espiritual”, que nada mais é do que uma mistura simbiótica entre as psiques de seus membros, que impossibilita ou torna mais difícil a empatia. Mais ainda, dificulta a objetividade do princípio de realidade necessário para que os negócios corram bem.

Nesse caso, a recomendação do analista é que haja entusiasmo pelo autoconhecimento e que se busque uma psicoterapia que ajude as pessoas a tomarem consciência dos conteúdos inconscientes que podem levar a sociedade familiar a ter sérios problemas. Conhecer-se facilitará o desenrolar da conversa sincera sobre as emoções que Pontet recomenda aos negociadores.

“Conhecer a mim mesmo é mais do que conhecer minhas aptidões e inclinações no âmbito dos negócios. Significa conhecer minha sombra, conhecer a hostilidade que tenho em relação aos meus familiares, ou os vínculos de competitividade, para que, então, possamos transformar a competição em cooperação”, arremata Fernandes.

Referências:

GOLEMAN, D. "Empathy: who’s got it, who does not”. 2 mai. 2009. Disponível online em <http://danielgoleman.info/2009/05/02/empathy-whos-got-it-who-does-not/>. Acesso em 16 mar. 2011.

PONTET, S. “Addressing emotions during negotiations”. The Family Business Consulting Group, 18 fev. 2011. Disponível online em <http://familybusinessconsultinggroup.com/?p=419#comment-636>. Acesso em 10 mar. 2011.

____. “Assume good intentions”. The Family Business Consulting Group, 4 mar. 2011. Disponível online em <http://familybusinessconsultinggroup.com/?p=474>. Acesso em 10 mar. 2011.

____. “Why empathy matters”. The Family Business Consulting Group, 3 mar. 2011. Disponível online em <http://familybusinessconsultinggroup.com/?p=471>. Acesso em 10 mar. 2011.


Por Alexandra Delfino de Sousa, administradora de empresas e diretora da Palavra-Mestra.

Portal HSM

16/03/2011

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Acompanhe a cobertura completa do Special Management Program HSM Family Business.

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